quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Teria Marx previsto o Uber?

Claro que a resposta à pergunta acima é não. Mas muito do que ele escreveu mostra que a “inovadora economia colaborativa” pode assumir formas de exploração bem antigas.

No artigo “Capitalismoem tempos de uberização: do emprego ao trabalho”, Virgínia Fontes lembra o pagamento de salários por “peças”, muito comum no século 19. Nele, a remuneração do trabalhador depende não de sua jornada, mas de sua produção.

Em uma nota de rodapé, o texto cita trechos de “O Capital”:

Dado o salário por peça, é naturalmente do interesse pessoal do trabalhador aplicar sua força de trabalho o mais intensamente possível, o que facilita ao capitalista elevar o grau normal de intensidade. Do mesmo modo, é interesse pessoal do trabalhador prolongar a jornada de trabalho. (...) Mas a maior liberdade que o salário por peça oferece à individualidade tende a desenvolver, por um lado, a individualidade e, com ela o sentimento de liberdade, a independência e autocontrole dos trabalhadores. Por outro lado, a concorrência entre eles e de uns contra os outros.

Mas no caso da Uber, quem seria o patrão? Os próprios motoristas, diriam seus defensores. Afinal, eles seriam donos de seus meios de produção.

O problema é que os automóveis só se tornam meios de produção quando acionados pela Uber. E mesmo assim, o “apurado” final ainda precisa ser dividido com outros “parceiros”: cartões de crédito, locadoras de automóveis, empresas de telefonia, seguradoras, planos de saúde e montadoras de automóveis.

O salário “por peça” só perdeu espaço quando os trabalhadores conquistaram direitos através de muita luta. Mas luta contra os patrões, não entre eles.

2 comentários:

  1. É um título meio nos moldes do extinto jornal Notícias Populares. Este jornal usava títulos sensacionalistas para vender. Acho que não teve o propósito nem de ironizar com este antigo jornal, nem de fazer um título sensacionalista. Achei divertido o título e, de fato, chamou a atenção. Acho que todos marxistas gostariam saber o que o Marx acharia dos tempos atuais. Uma grande indagação que não me atrai fazer ilações, mas que não deixa de provocar curiosidade intelectual.

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  2. Como diria Vito Giannotti, fã das manchetes do NP, "o título é a isca do texto". Sem ela não adianta nada o texto ser lindo, mas não ser lido. Não é o caso de achar lindeza no texto em questão, mas costuma funcionar.
    Bração

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