sexta-feira, 28 de junho de 2013

A sombra dos créditos podres chineses

Enquanto as ruas brasileiras se iluminam com a revolta popular, a economia internacional continua sombria. Nos últimos dias, as principais bolsas de valores do mundo andaram despencando.

Um dos motivos é o fim dos estímulos pelo governo dos Estados Unidos a sua economia. O banco central americano alega que o cenário econômico já teria melhorado o suficiente para abrir mão do dinheiro público. Mas se isso fosse verdade, o mercado não teria entrado em pânico.

Outro motivo de preocupação é bem mais grave. São alguns números vindos da China. Há previsões de que o PIB chinês cresça 7,4%, em vez dos 7,8% esperados anteriormente. Parece pouco, mas estamos falando da fábrica do mundo e um dos maiores consumidores mundiais de matéria prima.

Mas o pior nem é isso. Há sinais de uma crise de crédito na China. O banco central chinês entende que há excesso de financiamentos para atividades não produtivas, ou seja, especulativas. Como todos os bancos do país são estatais, isso poderia ser facilmente resolvido. Bastaria que o governo desse uma ordem e os empréstimos mudariam de direção.

O problema é que há um sistema financeiro paralelo em funcionamento. São bancos sem supervisão das autoridades, que emprestam para quem não consegue recursos nos bancos oficiais. Há quem já considere esses recursos como “créditos podres”. Os analistas chamam esse tipo de operação de “financiamento na sombra”

Qualquer semelhança com o “subprime” americano não é coincidência. É capitalismo em seu mais alto grau de risco. Uma crise na China apenas parecida com a estadunidense de 2008 afundaria de vez o mundo nas trevas.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Disputa de hegemonia em alta temperatura

As manifestações populares fazem a disputa de hegemonia ferver. Todos tentam capitalizar a insatisfação que incendeia as ruas. Mas hegemonia não é o mesmo que comando. É liderança construída pelo convencimento e pela conquista do respeito dos liderados. E desrespeito a lideranças é o que mais se sente nas ruas.

O governo federal falou muito, mas o que disse era pouco e fraco. O Congresso aprovou algumas medidas simpáticas que deverão ter poucos efeitos práticos. Governadores e prefeitos continuam cancelando aumentos de passagens, mas precisariam fazê-lo em relação a vários anos de reajustes muito acima da inflação.

A imprensa empresarial tenta assumir a condição de porta-voz moralista da indignação popular. Só consegue parecer ainda mais hipócrita e oportunista. Não à toa, milhares de vozes continuam a gritar coros de ódio à grande mídia pelas ruas e praças.

As centrais sindicais convocam manifestações, marchas e greves. Mas a maioria delas quer mesmo é defender o governo. Acabam aparecendo como parte do esforços oficiais para acalmar a situação. E a esquerda oposicionista mal consegue se diferenciar da governista. Felizmente, a extrema direita também está longe de superar seu isolamento da grande maioria dos manifestantes.

Mas nada disso quer dizer que não haja algum tipo de hegemonia. É como um ruído de fundo. Um zumbido ensurdecedor que acumula séculos de conservadorismo, desigualdade, racismo, violência estatal. Não podemos desprezar a histórica competência de nossa classe dominante para mudar aparências mantendo intacta a essência de sua dominação.

De qualquer modo, o povo nas ruas ainda representa nossa melhor chance. É a temperatura ideal para lutar. E para aprender.

Leia também: Dormindo, não! Só um cochilo...

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Dormindo, não! Só um cochilo...

Uma das palavras de ordem mais cantadas nas manifestações que estão nas ruas diz que “o povo acordou”. Quem nunca abandonou as mobilizações, greves e jornadas de lutas não gostou, com razão. Respondemos algo como “respeitem quem nunca foi dormir”.

Mas não foi bem assim. A esquerda que faz oposição ao governo deu uma bela cochilada. Durante a ligeira soneca, sonhávamos com o momento em que ficariam claros todos os erros dos governantes de plantão. Quando presenciaríamos uma onda de greves e lutas. Os trabalhadores e a população pobre finalmente dando razão a nossos avisos.

Já a esquerda governista, dormia na sombra há algum tempo. Confiante no desenvolvimentismo e nas políticas públicas do lulismo. Embalada pelos números positivos da popularidade presidencial. Toda confortável roncando nos beliches do poder, mesmo sob o xixi feito pelos ocupantes da cama de cima.

Uns cochilando, outros dormindo. Foi assim que as manifestações nos surpreenderam. É verdade que há corrupção, preços altos, serviços públicos ruins, gastança com dinheiro público. Tudo isso e muito mais são revoltantes, mas também são parte do dia-a-dia há muito tempo.

O que provocou a ira popular, muito além do preço das passagens de ônibus? Por que não conseguimos prever nada do que está acontecendo? É difícil responder, agora, ainda com remela nos olhos.

Esse cochilo pode nos custar caro. Não por causa de algum golpe direitista. Mas pela capacidade que o poder tem de se reorganizar. O jeito é jogar água na cara e tentar recuperar o atraso. Bem despertos para as lições do povo na rua. Aprendendo humildemente com os lutadores anticapitalistas recém-chegados.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Dilma reafirma pacto conservador

Dilma Roussef anunciou cinco pactos “em favor do Brasil". Mas só o primeiro deles realmente vale. É o “pacto pela responsabilidade fiscal” para controlar a inflação. (Como se o povo tivesse ido para as ruas gritar contra a inflação). Este pacto já existe. Foi criado pelos tucanos e continua mantendo o País como um dos campeões mundiais de desigualdade social. É sua manutenção que determina todo o resto.

A convocação de um processo constituinte para fazer a reforma política é muito perigosa. A Constituição não é nenhuma maravilha. “Queimar com carvão, a Constituição”, dizia o MST quando ela foi aprovada. Mas, desde então, conseguiram piorá-la muito. Uma constituinte pode ser uma nova chance para acabar de vez com os direitos que restam nela. Além disso, não há nada que impeça que os constituintes sejam eleitos do mesmo modo que todos os outros parlamentares: pelo poder econômico.  

Para melhorar a saúde pública, não bastam mais médicos, estrangeiros ou não. É preciso combater o mercado mercenário da saúde privada que sangra os já míseros recursos do setor público. Quanto ao transporte público, 50 bilhões de reais de nada adiantarão se o setor continuar sendo controlado por poucos e poderosos empresários.

Para a educação seriam destinados 100% dos royalties do petróleo. Qual educação? A dos grandes grupos privados que vem sendo financiada por dinheiro público? E qual petróleo? Aquele cuja exploração continua sendo privatizada?

São pactos em favor do Brasil, sim, Dilma. Daquela minúscula parte dele que concentra riqueza e poder. Dificilmente, acalmarão a ira popular. Certamente, já tranquilizam a classe dominante.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

É hora de espantar as galinhas

Era 7 de outubro de 1934, Praça da Sé, São Paulo. Os fascistas da Ação Integralista se preparavam para realizar uma grande marcha. Anarquistas e comunistas e sindicalistas organizados na Frente Única Antifascista tomaram a praça e expulsaram os fascistas. O episódio ficou conhecido como “Revoada dos galinhas-verdes”, em alusão à cor dos uniformes dos integralistas.

Não chegamos a esse ponto. Vários partidos e organizações populares estão preparando uma resposta à ofensiva da direita nas manifestações populares que tomam o País. A mais ampla unidade dos setores da esquerda é muito importante. Mas não há ameaça fascista grave o suficiente para justificar uma frente em torno somente do combate a ela.

Também não podemos adotar como eixo de unidade a defesa dos governos. Não aceitamos golpes contra governantes eleitos, mas foram suas políticas, alianças e prioridades que provocaram a justa ira popular. Não negociamos com quem autoriza o uso e abuso da violência policial. Não apenas contra manifestantes. A repressão que se abate diariamente sobre a população pobre conta com a ação e a omissão governamental.

Uma frente de esquerda e de luta não pode ter como objetivo sentar à mesa com quem ignora os movimentos sociais há anos. Deve colocar suas exigências na rua. E delas devem constar a Reforma Agrária imediata; Reforma Urbana, incluindo transporte coletivo, público e gratuito; extinção da Polícia Militar; fim do superávit primário: mais gastos sociais, com dinheiro público apenas para serviços públicos, entre outras.

Por enquanto, seremos capazes de espantar algumas galinhas. Mas ajudaria se alguns governantes parassem de cacarejar e ciscar nos terreiros da direita.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Penetras ameaçam tomar conta da festa

O Movimento pelo Passe Livre anunciou que deixará de organizar as manifestações que vêm varrendo o País há vinte dias. Entre os motivos, estaria a crescente influência conservadora nos protestos. Referem-se à agressão a militantes partidários e sindicais. Ao surgimento de reivindicações como a redução da maioridade penal e o fim da política de cotas raciais e sociais nas universidades.

É muito preocupante que o principal organizador das manifestações esteja se retirando. Os penetras ameaçam tomar conta da festa e transformá-la numa “rave” conservadora e violenta. Apesar disso, as forças de esquerda devem continuar a apoiar e participar dos protestos. A grande maioria participa de modo despolitizado. Mas abandoná-la à influência de ativistas de direita será ainda pior.

No entanto, a esquerda tem grande responsabilidade no que está acontecendo nas manifestações. A que está no governo, por aliar-se aos setores mais conservadores e abandonar lutas históricas. A Reforma Agrária é um grande exemplo. A exigência histórica foi arquivada em nome de alianças com os latifundiários do agronegócio. Sumiu de tal modo que não conseguimos fazê-la aparecer nas atuais manifestações.

A esquerda que se opõe ao governo também cometeu erros terríveis. Nos partidos, refém do calendário eleitoral. Nos sindicatos, dedicando-se a disputar o controle dos aparelhos. Todos distantes do trabalho organizado nas bases. Da organização cotidiana da luta. Nos desmoralizamos a ponto de sermos expulsos de manifestações que estaríamos dirigindo uma década atrás. Culpar a direita golpista é fácil e inútil. Ela está aí para isso. E nós, estamos aqui para quê?

A ressaca se aproxima. Precisamos aliviar seus efeitos.  

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Parabéns, porra! Por enquanto...

O recuo no reajuste das passagens dos transportes públicos é uma grande vitória popular. O maior mérito é do Movimento pelo Passe Livre (MPL), mas todas e todos que foram às ruas merecem comemorar. Dito isto, sobram muitos desafios e dúvidas aos que se dedicam à organização das lutas populares.

A decisão não foi o atendimento a um “clamor” popular. É uma tentativa de acalmar a ira do povo. Se conseguirão, ou em que medida conseguirão, é o que veremos nos próximos dias. E isto será fundamental no balanço destes 10 dias que abalaram as cidades brasileiras. Se as mobilizações continuarem, mas com menor força, a violência policial pode voltar com tudo. O nível de organização do movimento será capaz de resistir?

O problema não é somente a elevada dose de espontaneísmo das manifestações. Muitos dos milhões de pessoas que foram às ruas pelas Diretas e contra Collor também aderiram de forma espontânea. Mas ainda vivíamos um período de intensa mobilização popular iniciada pelas greves operárias do final dos anos 1970. Alguns partidos, sindicatos e várias entidades populares eram respeitados como instrumentos de luta.

Os atuais protestos, ao contrário, acontecem diante da justa descrença nas entidades populares em geral. O desafio é recolocá-las na luta ou construir novos instrumentos de combate. O valoroso MPL não pode ficar solitário.

Os acontecimentos do futuro próximo mostrarão se iniciamos um novo período de grandes lutas. Se, finalmente, os explorados e oprimidos estão dispostos a matar sua sede de justiça social. Ou se voltarão ao deserto conformista.

Enquanto isso, brindemos a esse breve momento de vitória. Parabéns, porra!

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Uma festa com penetras perigosos

As multidões que tomam as ruas das cidades brasileiras merecem todo o apoio e comemoração. Mas as forças conservadoras disputam os rumos do movimento. A começar pela grande mídia, que tenta impor algumas verdades pouco verossímeis.

Não é verdade que não há organização por trás das manifestações, por exemplo. O Movimento Passe Livre organiza atos e protestos há dez anos. Mas é verdade que o aumento das passagens já não é a única preocupação das multidões nas ruas. Como alguém já disse, “nossos vinte centavos são as árvores de Istambul”.

Pode-se dizer que aconteceu algo parecido com os movimentos das Diretas-Já e Fora Collor. Elas também simbolizavam um descontentamento mais amplo que seu alcance aparente. Surgiram por iniciativa de setores do PT e da CUT, mas as multidões que atraíram não eram “comandadas” por uns e outros. Fosse assim, Lula teria sido eleito em 89 ou em 94.

Uma diferença importante nas atuais manifestações é a ausência de PT e CUT entre seus organizadores. Ao contrário, estão entre os alvos dos protestos. A chegada dos petistas aos governos matou seu ânimo militante e desarmou os cutistas. Implicou sua adesão quase sem restrições à lógica intolerante do Estado.

Tudo isso deixa as forças conservadoras muito à vontade. Elas também estão nas ruas. Incentivam e aproveitam-se do sentimento antipartidário para fortalecer seu grande partido de classe. Levar o povo às ruas continua sendo fundamental. Mas é preciso que as forças de esquerda vençam a disputa pelos rumos de suas ações.

A festa continua bonita, mas há penetras perigosos. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Quando a frustração vira ação

Alguns meses atrás, o filósofo esloveno Slavoj Žižek afirmou em um artigo: “As pessoas se rebelam não quando as coisas estão realmente ruins, mas quando suas expectativas são frustradas”.

Algumas avaliações sobre as recentes manifestações populares parecem confirmar essa tese. É o caso da entrevista que Marcelo Ridenti deu ao Estadão, em 16/06. O sociólogo diz ter a impressão de que:

...as manifestações atuais refletem o desconforto de uma geração que teve ampliadas as oportunidades de acesso ao ensino médio e superior, mas que encontra um mercado de trabalho restrito e frustrante sob o ponto de vista salarial e de condições de trabalho.

Em 14/06, no artigo “Os estudantes entre o molotov e a utopia” para o Valor, Maria Cristina Fernandes chega a conclusão parecida. Ela destaca o aumento da presença de jovens pobres no ensino superior: “entre 2002 e 2010 os universitários da classe C saltaram de 6 milhões para 9 milhões. Serão 11 milhões em 2014”.

Mas, diz a jornalista, trata-se de “uma geração que usufrui mais oportunidades que seus pais, mas há crescentes dificuldades no cotidiano para usufruí-las”. Entre elas, o péssimo transporte público, do qual metade deles é usuária.

Pode ser uma explicação baseada em frágeis aparências, mas combina com uma tendência que sempre marcou o capitalismo. É a vocação para frustrar expectativas. Desde a clássica “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” até as atuais "maravilhas do livre mercado".

Mas no caso das recentes manifestações, a frustração também parece ter chegado aos mais velhos. O direito ao consumo já não basta. Como dizem as ruas: “Da Copa, eu abro mão. Quero saúde e educação!”

domingo, 16 de junho de 2013

Os vigaristas programados da grande mídia

Camila Rodrigues, Bruno Fonseca, Luiza Bodenmüller e Natalia Viana publicaram “A revoada dos passaralhos”, em 11/06, no Observatório da Imprensa. Passaralho é uma gíria para demissões em massa nos meios de comunicação.

Segundo o artigo, somente na capital paulista, foram 280 demissões de janeiro a abril deste ano. Número muito alto se considerarmos os 1.230 jornalistas demitidos em todo o Brasil, em 2012. Os autores atribuem as demissões a “reestruturações”. Na verdade, “formas de organizar o trabalho usando menos pessoas e mais tecnologia”.

E é de tecnologia que fala um artigo de Pedro Burgos publicado em maio de 2012. Em “Por que devemos nos empolgar com a invenção de robôs-jornalistas”, ele comenta a criação de robôs jornalistas capazes de gerar textos idênticos aos de seus colegas humanos.

Na verdade, não são os robôs que se elevaram ao nível dos jornalistas. São estes que tiveram sua atividade rebaixada ao nível de notícias em série e sob encomenda. Regra quase absoluta na grande imprensa.

Por outro lado, há uns poucos profissionais com emprego garantido. Muito bem pagos, eles envergonham toda a categoria. Cumprem papel vergonhoso na cobertura das manifestações contra o aumento das passagens do transporte público, por exemplo.

Estamos falando de gente como Merval, Sardenberg, Jabor, Amorim, Datena, Mainardi e vários outros. Vigaristas programados para justificar os interesses de seus patrões e dos governantes. Mostram que não é só a tecnologia que coloca em risco o jornalismo. Na grande mídia, a atividade se vê ameaçada também pela rendição a interesses minoritários e poderosos.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Os falsos democratas e suas coleiras

O capitalismo se distingue pela separação entre produtores e meios de produção. Mas a dominação burguesa também separa a classe dominante dos meios de repressão que servem a seus interesses. Os patrões não precisam pegar em armas contra aqueles que se revoltam. O Estado faz isso por eles. Isso dá ao Estado uma enganosa aparência de isenção e neutralidade.

Mas há ainda outra particularidade capitalista. Alguns mecanismos de dominação estão distantes do controle estatal. É o caso da grande mídia, sob domínio de poucos e poderosos patrões. Isso também torna os meios de comunicação aparentemente neutros e objetivos. Permite aos patrões em geral criticarem abertamente os governos, mesmo quando estes vivem a proteger seus interesses.

Às vezes, isso dá errado. Ontem, 13/06, por exemplo, editorial do Estadão pedia que a polícia agisse “com maior rigor do que vem fazendo” contra os “baderneiros” do movimento pelo passe livre. No mesmo dia, o editorial da Folha fazia comentários irônicos sobre uma “suposta brutalidade da polícia”.

No final do dia, sete repórteres haviam sido atingidos por balas de borracha da PM em São Paulo. Dois deles levaram tiros no rosto. O circuito de poder entre forças de repressão e forças de convencimento ideológico sofreu um curto.

O tom da cobertura começou a mudar. A grande imprensa precisa aparentar neutralidade novamente. Chamar os ocupantes do poder à razão. Não se trata de assumir o lado dos manifestantes, mas de ajustar os mecanismos de dominação.  

Aos movimentos populares cabe continuar forçando situações como estas. Até para que falsos democratas mostrem aonde chega o cumprimento das cordas presas a suas coleiras.




quinta-feira, 13 de junho de 2013

A seca e a invenção do Terceiro Mundo

O Nordeste brasileiro enfrenta a maior seca em meio século. São mais de 1.400 municípios atingidos. Que a região sofre com o problema há séculos, todo mundo sabe. O que poucos sabem é que suas consequências nem sempre foram tão terríveis.

O livro "Holocaustos Coloniais: Clima, fome e imperialismo na formação do Terceiro Mundo", do historiador Mike Davis, é esclarecedor. Secas prolongadas aconteceram por séculos nos países da região equatoriana devido ao fenômeno climático conhecido por “El Niño”.

As mortes sempre foram muitas, mas, a partir do final do século 19, começaram acontecer aos milhões. As três piores secas ocorreram em 1876-79, 1889-91 e 1896-1902. Pelo menos, 30 milhões de pessoas morreram. Não por acaso, exatamente quando o imperialismo começava a se espalhar pelo mundo.

Davis cita o caso da Índia. Em dois mil anos, o país havia registrado 17 casos de mortandade por fome. Mas sob 120 anos de dominação inglesa, isso aconteceu 31 vezes. É que “o dogma do livre comércio e o frio cálculo egoísta do Império justificavam a exportação de enormes quantidades de cereais para a Inglaterra, bem no meio da mais horrível hecatombe”, diz Davis.

Para o historiador, o que depois seria chamado de “Terceiro Mundo” surgiu das “desigualdades de renda e de recursos” produzidas nesse período. Felizmente, houve reação. Davis cita a revolta chinesa dos Boxers, o movimento Tonghak na Coréia, o nacionalismo extremista na Índia, a guerra de Canudos no Brasil e muitos levantes na África.

No Brasil ou fora dele, o problema nunca foi a seca. É a dominação do “Primeiro Mundo”. Contra isso, só muita luta.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

100% de segurança: 100% de autoritarismo e terror

“Seremos todos espionados” é o título da coluna de Pedro Dória, publicada em 11/06 no Globo. O texto trata do escândalo envolvendo a espionagem em massa promovida pela Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos. O órgão teve suas atividades denunciadas por Edward Snowden, ex-funcionário da CIA.

Centenas de milhões de e-mails, conversas por Skype, em redes virtuais e fóruns da internete, são espionadas em todo o mundo. Mas Dória chama a atenção para um aspecto pouco destacado pela grande imprensa. A tecnologia que possibilita acessar este oceano de dados foi desenvolvida por empresas de ponta, como Google, Facebook, Apple e Microsoft.

O articulista diz que a intenção dessas empresas jamais foi a espionagem:

A ideia é usar para vender publicidade. Mas, neste caso, publicitários e espiões desejam exatamente a mesma coisa: conhecer com tantos detalhes quanto possível os reais desejos de cada indivíduo. A tecnologia desenvolvida para um serve como uma luva para o outro.

O comentário revela uma perigosa combinação de poder político e econômico. O Estado produz um cidadão constrangido em suas ações e reações. O mercado fabrica um consumidor cujas opções se reduzem ao que comprar. O primeiro rastreia as pessoas, o segundo as conduz. Um serve ao outro e ambos provocam e alimentam conformismo em larga escala.

Ao tentar se justificar, Obama disse: "Não é possível ter, ao mesmo tempo, 100% de segurança e 100% de privacidade com inconveniência zero". Portanto, fiquemos com os 100% de autoritarismo que o capitalismo vai consolidando tanto no campo político, como no econômico. O saldo tem sido mais terror, principalmente o de Estado.

Leia também: Microempreendedores do terrorismo solitário

terça-feira, 11 de junho de 2013

Mais transgênicos, mais agrotóxicos, monopólios mais fortes

Muito boa a entrevista do engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo ao site da Unisinos, IHU-Online, publicada em 03/06. E assustadora, também. Trata-se de um depoimento extenso e com muitas informações. Merece ser lida na íntegra. Mas destaquemos alguns trechos:

...cerca de 99,9% dos produtos transgênicos cultivados no mundo correspondem a plantas que foram geneticamente modificadas para conseguirem tomar banhos de herbicida, sem morrer, ou para produzir uma proteínas tóxicas, que estarão presentes em todas suas células.

O problema é que as leis de adaptação da natureza fazem surgir pragas mais resistentes. E o uso de agrotóxicos precisa aumentar. Agricultores que até 2012 usavam 70 ml do inseticida Prêmio, da DuPont, por exemplo, agora utilizam 150 ml. Não é difícil imaginar as consequências para nossa saúde.

Mas não é só isso. Há o problema econômico. Na última safra, diz Melgarejo, o custo de produção da soja, na Bahia, passou de US$ 100 para US$ 200 por hectare. No caso do algodão, os gastos passaram de US$ 400 para US$ 800 por hectare.

Advinha quem lucra? O entrevistado responde:

As empresas que controlam o mercado de agrotóxicos controlam também o mercado de sementes, e as sementes transgênicas fazem parte de pacotes tecnológicos que não existiriam sem os agrotóxicos.

Melgarejo é representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). O órgão deveria garantir a segurança biológica. Mas a posição dele é minoritária. A maioria vota de acordo com os interesses dos monopólios. E estes não podem conciliar proteção à vida com seus lucros, razão de sua existência e motivo de nossas tragédias sociais.

Leia mais na
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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Na Turquia, uma grande certeza

Quando torcedores de times adversários se unem em uma manifestação popular é porque a coisa é séria. É o que vem acontecendo na Turquia. Rivais esportivos dos clubes Fenerbahçe e Galatasaray se juntaram nos protestos contra o governo de Recep Erdogan.

As manifestações começaram na praça Taksim, em Istambul, e se espalham por outras cidades. O estopim da luta foi o início da demolição de um parque no centro da cidade para a construção de um shopping.

No entanto, há muito mais do que isso por trás da revolta popular. No poder desde 2003, Erdogan teria a seu favor um período de forte crescimento econômico. O outro lado da moeda é um autoritarismo crescente.

A grande imprensa destaca propostas intolerantes do partido de Erdogan, o AKP. É o caso da proibição de consumir álcool depois das 10 da noite. Um exemplo da inclinação governamental pela moral islâmica num país em que a influência muçulmana é a menor da região.

Mas também houve um endurecimento na repressão e restrição à realização de greves, por exemplo. Tudo como parte de um programa neoliberal, que inclui uma onda de privatizações promovidas por Erdogan desde sua eleição.

Os sindicatos ameaçam iniciar uma onda de greves. Participam das manifestações desde forças de extrema esquerda até nacionalistas de direita. A grande mídia diz que o primeiro-ministro ainda conta com amplo apoio popular. Mas parte da imprensa turca e as redes virtuais estão censuradas.

É preciso levar em conta a influência da “Primavera Árabe”, também. Ou seja, por enquanto, só há uma certeza: todo apoio às revoltas populares na Turquia.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Reintegração de posse para os índios, já!

Nos conflitos envolvendo ocupações de terras se tornou frequente a utilização da chamada reintegração de posse. Mais recentemente, suas maiores vítimas são os indígenas. Segundo os juristas, esse instrumento deve ser usado por alguém que queira recuperar direitos sobre sua propriedade.

A rigor, tal instrumento deveria ser aplicada em favor dos indígenas, não contra eles. Afinal, já viviam aqui há uns 12 mil anos, quando os colonizadores europeus chegaram, cinco séculos atrás.

No entanto, a lei que criou e legitima a reintegração de posse foi feita pelos invasores. E é baseada em algo sagrado para a atual ordenação jurídica: a propriedade privada. E esta, sob o capitalismo, só serve para ser negociada no mercado ou para gerar mercadorias. Só tem valor de troca.

Para os indígenas, a terra não é um bem. É um lugar carregado de simbolismo e valores espirituais. Eles não a possuem, mas são parte dela. Daí, não aceitarem trocá-las por outras ou por dinheiro. Por isso, a própria Constituição dos brancos considera os territórios indígenas “inalienáveis e indisponíveis”(Parágrafo 4° do Art. 231).

A relação dos índios com suas posses é incompatível com o capitalismo. Este rebaixa tudo a valor de troca. Aqueles continuam a respeitar as coisas por seu valor de uso. A sociedade de mercado transforma as pessoas em objetos e os objetos em entidades superiores. Os indígenas sacralizam as coisas para que sirvam às pessoas.

Só entenderemos isso quando nos tornarmos civilizados como os silvícolas. Até lá, e como parte da caminhada, todo o apoio à luta indígena por suas terras! 

Jogo dos erros: Brasil e Turquia

Encontre os erros nas notícias abaixo.

“Pecuária lidera ranking de escravidão em 2012” diz reportagem de Guilherme Zocchio, publicada pela Agência Repórter Brasil, em 03/06. Dois dias antes, outra notícia tomou conta da grande imprensa. O Produto Interno Bruto brasileiro cresceu apenas 0,6% no primeiro trimestre do ano, sinalizando um crescimento anual abaixo dos 2,8%. Mas o setor de agropecuária teve uma expansão de 9,7% no mesmo período. Foi o melhor resultado desde o segundo trimestre de 1998.

Mais uma da grande imprensa. Desta vez, um artigo do economista neoliberal Jeffrey D. Sachs, publicado no Valor em 28/05. Seu título? “Por que a Turquia prospera”. No mesmo dia, a imprensa mundial começava a noticiar a revolta popular nas ruas de Istambul, a maior cidade turca. No dia 05/06, as manifestações continuavam e se espalhavam pelo país.

Mas, sobre a Turquia, tem mais. Em 04/06, Bruno Menezes publicou matéria no site “Epoch Times”, que afirmava “Gás lacrimogêneo usado em Istambul é fabricado no Brasil”. A reportagem diz que fotos divulgadas por manifestantes mostram que artefatos recolhidos do chão trazem impressos a bandeira brasileira e a inscrição “Made in Brazil”.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A droga corre nas veias do sistema bancário

No início de abril, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos revelou detalhes sobre mais de 120 mil empresas anônimas com sedes em paraísos fiscais. Por trás delas, gente como um ex-primeiro-ministro da Geórgia, o tesoureiro da campanha eleitoral do presidente da França e a filha de um ex-ditador das Filipinas.

Em 03/06, o Valor publicou um artigo sobre o levantamento. Em “Segredos e mentiras financeiras” Gavin Hayman destacou um detalhe que recebeu pouca atenção: lavagem de dinheiro e operações financeiras ilegais não ocorrem apenas em paraísos fiscais. Ao contrário, Estados Unidos, Reino Unido e outros centros financeiros importantes estão no centro dessas ilegalidades.

Na verdade, a maioria das empresas citadas pelo Consórcio estava registrada nos Estados Unidos. Para citar apenas um caso, em 2012, foi revelado que o HSBC permitiu que os cartéis de drogas mexicanos lavassem centenas de milhões de dólares por meio do sistema financeiro estadunidense.

Em 29/05, Gil Alessi publicou a reportagem “Contra o tráfico, investigar bancos é mais importante do que aumentar penas, dizem especialistas”. A matéria tratava das propostas de endurecimento das leis contra o tráfico de drogas que estão no Congresso Nacional.

Especialistas duvidam da eficácia de medidas desse tipo. Afinal, dados da ONU falam em mais de 400 bilhões de dólares anuais movimentados pelo narcotráfico. Todo esse dinheiro só pode circular por um caminho: o sistema financeiro.

Em abril, David Nutt, ex-assessor especial contra drogas do governo britânico, afirmou que a crise financeira foi causada por banqueiros que usavam muita cocaína. Ele quase acertou. O que realmente enlouquece o planeta é o capital que a ilegalidade das drogas gera. 

terça-feira, 4 de junho de 2013

A gravidade do caso Angelina Jolie

A decisão de Angelina Jolie de retirar as mamas merece todo o respeito. Mas é preciso lembrar o enorme peso das decisões tomadas por uma estrela mundial.

A grande imprensa tratou o caso com pouco rigor e muito sentimentalismo. Felizmente, há quem aborde a situação com mais lucidez. É o que fez Bernardo Pilotto, por exemplo. Ele publicou o artigo “Angelina Jolie e o preventivismo liberal” em sua página na internete. O texto lembra a tradicional polarização no debate sobre a saúde pública, entre prevenção e cura.

Do ponto de vista dos interesses da grande maioria da população, privilegiar a medicina preventiva traz resultados sociais muito mais relevantes. Já a prática curativa costuma fazer a alegria das grandes empresas de medicina privada e medicamentos.

O problema é que atitudes como a de Angelina tendem a valorizar uma prevenção paranoica e individualista, saudável apenas para o mercado bilionário da saúde privada. Mas pode ser ainda mais grave.

Em entrevista à revista da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, o médico e pesquisador Luís Castiel levantou sérias suspeitas. Segundo ele, há denúncias de que os testes aos quais Angelina foi submetida estão para ser patenteados pela empresa Myriad Genetics.

O anúncio da atriz provocou a rápida valorização das ações da empresa. Além disso, pode ter levado a opinião pública a influenciar a Suprema Corte americana a decidir em favor do direito de propriedade dos genes humanos pelas grandes corporações.

As chances de Angelina desenvolver câncer eram altas. Mas a probabilidade de que muito mais do que sua saúde esteja em jogo também é elevada.

Leia o texto de Bernardo Pilotto, aqui. E entrevista de Luís Castiel, aqui.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A Sagração da primavera e a Rosa de Hiroshima

Em 29 de maio de 1913, estreava o balé “Sagração da Primavera”, do russo Igor Stravinsky (1882-1971). O artigo “O escândalo da Sagração”, que João Marcos Coelho publicou no Valor em 17/05, descreve como foi a recepção da obra:

Voaram tapas, prospectos de programas, luvas e até objetos mais contundentes, como bengalas, no meio da plateia. Uns contra, outros a favor, com trilha sonora caótica de berros e vaias.

O artigo cita o maestro e compositor finlandês Esa-Pekka Salonen: "A 'Sagração' veio do nada e mudou tudo”. Nada na tradição musical anterior sinalizava semelhante explosão. Mas, adaptando a frase de Trotsky, uma obra como aquela era impossível até que se tornou inevitável.

Coelho também lembra que o historiador Modris Eksteins viu na Sagração a antecipação “dos delírios da Primeira Guerra Mundial”. O “símbolo ideológico da estetização da violência, e, portanto, precursora do nazismo”.

Mas em seu ótimo livro “O Som e o Sentido”, José Miguel Wisnik identificou na criação de Stravinsky o ritmo da máquina, a velocidade, a aceleração do tempo e a eletricidade invadindo o universo da música.

Seja como for, desde os primeiros acordes, a música de Stravinsky anuncia a tragédia de seu final. A estreia da Sagração parecia antecipar os tempos sombrios que viriam a seguir. A primavera da modernidade capitalista só conseguiu fazer brotar a grande e assustadora Rosa de Hiroshima.

O artigo de Coelho diz que a obra “tem tamanha vitalidade que ainda escandaliza os conservadores e colhe calorosa recepção junto às ‘gerações jovens’”. Que o calor juvenil prevaleça e arranque a primavera do interior deste inverno que teima em perdurar.