segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A esquerda e o “favelismo”

Vem aí o Partido Frente Favela Brasil. Entre seus idealizadores, está Celso Athayde, criador da Central Única de Favelas. Perguntado sobre sua posição ideológica, ele respondeu: “Não sou esquerdista nem direitista. Sou favelista!”.

Foi o bastante para que setores da esquerda acusassem a proposta de ser divisionista, reformista, conciliadora, despolitizada etc.

Mas, talvez, também fosse o caso de perguntar se a grande maioria da esquerda poderia se considerar “favelista”, tal como o documento de apresentação da proposta define o conceito, qual seja:

...trabalhar na inserção dos negros, dos moradores de favelas, e dos pobres dos subúrbios/periferias, no espaço de discussão e decisões políticas do país, bem como manter a constante vigília contra o preconceito racial e discriminação de qualquer origem.

Será que a maioria da esquerda pode dizer que realmente abre “espaço de discussão e decisões políticas” aos negros e pobres em suas organizações? Além disso, a “vigília” contra o preconceito racial e outras opressões é pra valer ou fica restrita à retórica de seus documentos e discursos?

Claro que ser antirracista sem ser de esquerda não leva a lugar algum. Mas não há como ser verdadeiramente anticapitalista sem combater o racismo.

Por outro lado, a proposta defende a “construção de um projeto de oportunidades, a partir do qual todos possam ocupar um espaço digno de sua humanidade.” Este objetivo não reduziria a luta “favelista” à conquista de ajustes nos mecanismos da meritocracia, que justificam não só o racismo, mas toda a exploração capitalista?

São questões como essas que devem orientar a esquerda no debate sobre a proposta “favelista” para evitar as tentações de nosso sectarismo.

Leia também: Quando a meritocracia racista não funciona, ela mata

5 comentários:

  1. Pensei - na raiz - no sentido da palavra opressão e me lembrei de Marx [Manuscritos]: “A opressão humana toda está envolvida na relação do trabalhador com a produção, e todas as relações de servidão são apenas modificações e consequências dessa relação”. Obviamente, não é esse o caminho mais fácil do pensamento [a raiz é concreta, é o que sustenta o tronco e as folhas e frutos, mas raramente aparente]. Seu texto me faz também refletir: esse movimento se anuncia de uma forma ambígua e afirma sua ambiguidade [não se trata somente de negação]. Essa ambiguidade, contudo, nos fala da necessidade de disputar esse debate - pois o sofrimento é real, ainda que a raiz esteja bem enfiada na terra.

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    1. É por aí, Alexandre. O sofrimento é real e a esquerda tradicional tem sido insensível a ele.
      Abraço

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    2. Prossigamos, Sérgio! Saiba que sou leitor quase diário do seu blog [e eventualmente faço uso de suas matérias em sala de aula], embora raramente publique comentários. Forte abraço

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    3. Que ótimo, Alexandre. Fico feliz.
      Grande abraço!

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  2. Meu nome é Marcus Castanhola.

    Sou Teólogo, Filósofo e Cientista Político.

    Autor do Ensaio: 4a VIA - AS COMUNIDADES ORGANIZADAS NO PODER.

    Esse ensaio foi lançado na UFRJ / IFCS em 2002, onde tive o privilégio de merecer 2 prefácios:



    1 - Prof. Aluizio Alves Filho:



    Doutor em Sociologia, UNB e Doutor em Ciências Sociais (América Latina), FLACSO. Professor do Mestrado de Ciência Política da UFRJ/IFCS.



    2 - Prof. Clay Hardman de Araújo:



    Professor Titular da cadeira de Filosofia do Direito da Universidade Gama Filho; ocupava a Cadeira de Platão na Academia Brasileira de Ciências Sociais (In Memoriam / 1924 – 2002).



    Recentemente, para o lançamento em breve da 2ª edição, tive o privilégio de merecer um novo prefácio, desta vez do eminente cidadão Roberto Saturnino Braga, Vereador, Prefeito do Rio de Janeiro, Dep. Estadual, Dep. Federal, Senador por três mandatos e atual Presidente do Instituto Casa Grande (ICG).

    De minha parte, gostaria de contribuir para os objetivos da emancipação histórica das periferias, fração indiscutivelmente mais violentada da classe trabalhadora.

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