quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Uma distribuição de renda que interessa aos ricos


Causou certo barulho a divulgação de um estudo publicado no início de setembro pelo World Wealth Income Database, instituto dirigido por Thomas Piketty. Suas conclusões negam a ideia de que houve queda na desigualdade de renda no Brasil nas últimas décadas.

Segundo o levantamento, atualmente o 1% mais rico concentra 28% da renda nacional, equivalendo a um crescimento de 3% desde 2001. Além disso, de 2003 a 2008, o 0,1% mais rico da população se apropriou de 68% do crescimento da renda.

Mas o fato é que a pesquisa só reforça estudos anteriores feitos por brasileiros. Principalmente, por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. E todos contornam um problema metodológico que mascarava toda essa concentração de riqueza.

Os levantamentos anteriores utilizavam apenas dados das pesquisas domiciliares do IBGE. E os atuais usam informações de declarações de Imposto de Renda, que até pouco tempo atrás não estavam disponíveis.

Os números da Receita Federal não se limitam aos rendimentos, mas revelam também o tamanho do patrimônio, da riqueza. Quando se olha para eles, fica claro que houve redistribuição de renda, sim. Mas só entre os trabalhadores da faixa intermediária de renda para os de patamar inferior.

Os imensos ganhos de capital da minoria bilionária que atua no País ficavam escondidos por essa cortina de fumaça estatística. Acomodado a esta situação, um projeto político que logo seria tratado com enorme ingratidão por quem mais se beneficiou dela.

Petistas e lulistas dirão que a divulgação de informações como essas “faz o jogo da direita”. Deveriam admitir que muitos deles é que vêm fazendo este jogo há anos.  

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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Distribuição de riqueza, só com catástrofe


Recentemente, foram divulgados estudos que mostram que é falsa a ideia de que houve distribuição de renda na última década no Brasil.
 
Um dos que já sabiam disso é Pedro Herculano de Souza, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Em entrevista concedida ao portal EPSJV/Fiocruz, ele afirmou:

O período em que fomos menos desiguais foi entre 1942 e 1963, quando o 1% mais rico chegou a abocanhar ‘apenas’ 17% da renda total. Isso foi uma exceção, já que ao longo desses anos o centésimo mais rico deteve entre 20% e 25% de todos os rendimentos brasileiros fatia que, desde 2006, está na casa dos 23%...

Mas a entrevista tem outra passagem interessante:

É importante lembrar que a maior parte do mundo era muito desigual nos séculos 18 e 19. Os países onde realmente a coisa mudou relativamente em pouco tempo foram aqueles que passaram por catástrofes muito grandes. Notadamente, a Primeira Guerra Mundial, a grande depressão de 1929 e a Segunda Guerra mudaram radicalmente a distribuição de renda em vários países ricos. Países que, no início do século 20, não eram tão diferentes do Brasil mas que, depois da Segunda Guerra, já eram completamente diferentes.

Nosso grande desafio seria inventar um jeito pacífico, tranquilo, sem catástrofe, de sermos o primeiro país a sair desse nível de desigualdade e chegar a um nível civilizado. Eu não conheço exemplos assim. Em geral, acontece alguma coisa muito errada que obriga uma distribuição de perdas. A necessidade acaba forçando regras que impõem uma redistribuição e um conjunto de políticas que nasce junto.

Assim caminha a humanidade. Sob o capitalismo.

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terça-feira, 19 de setembro de 2017

O “Trem das Onze” de Lênin

Quando a Revolução de Fevereiro estourou, Lênin e várias lideranças bolcheviques estavam exilados na Suíça. Era preciso voltar imediatamente à Rússia.

Mas as fronteiras europeias estavam trancadas pela guerra mundial. Como o conflito opunha russos e alemães, a estes últimos interessava colocar os bolcheviques na Rússia para desestabilizar seu governo.

Lênin, porém, pensava de modo diferente: "A liderança revolucionária bolchevique é muito mais perigosa para o poder e o capitalismo dos alemães que o governo provisório de Kerensky".

Foi assim que, determinados a derrotar tanto a burguesia russa como a alemã, os bolcheviques embarcaram num trem alemão blindado, que saiu da Suíça, atravessou Alemanha, Suécia e Finlândia, chegando a Petrogrado em abril de 1917.

Vitoriosa a Revolução de Outubro, foi assinado o tratado de paz com a Alemanha, impondo pesadas perdas territoriais aos russos. Mas era um preço baixo a pagar pelo fim da guerra. Vidas valem muito mais que terras.

Na sua “História da Revolução Russa”, Trotsky cita palavras do poderoso general alemão Ludendorff sobre a decisão de permitir o retorno de Lênin à Rússia: "Jamais poderia supor que isso se transformaria no túmulo de nossas pretensões".

Por outro lado, parte importante das expectativas de Lênin foi frustrada. A revolução russa mostraria o caminho para a revolução alemã. E esta seria fundamental na defesa daquela.

Para ele e Trotsky, se não ocorressem revoluções na Europa ocidental, o futuro da Rússia revolucionária estaria gravemente ameaçado.

Infelizmente, foi o que aconteceu. Isolada, a nascente república soviética foi cercada e sangrada pelos capitalistas até cair vítima da contrarrevolução stalinista.

De qualquer maneira, Lênin jamais admitiria perder aquele trem.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Quando a economia vai bem porque o povo vai mal

Governo e grande mídia vêm comemorando a redução da taxa de juros pelo Banco Central e a maior alta da Bolsa de Valores de São Paulo desde 2008. Mas não é bem assim.

De fato, em outubro de 2016, a taxa de juros estava em 14% anuais. Atualmente está em 9,25%. Mas não se deve comparar esses dois índices entre si, e sim, taxa de juros e nível de preços.


Acontece que o índice de preços do governo federal (IPCA) registrava 9% anuais em agosto de 2016, contra os atuais 2,7%. Aritmética simples. A taxa de juros, descontado o nível de preços, passou de 5%, antes, para 6,5%, hoje.


Já a subida da Bolsa é explicada por José Paulo Kupfer em artigo publicado no Globo, em 15/09. Segundo ele, a alta corresponde a ações de empresas cujo “desempenho depende pouco ou nada de uma eventual recuperação do mercado interno”. Os detalhes:

Apenas cinco papéis entre os 60 que compõem o índice respondem por cerca de 40% de seu movimento. Dois são de bancos (Itaú e Bradesco), outros dois são de produtores de commodities (Petrobras e Vale), cujas receitas são fortemente correlacionadas com as cotações internacionais, e o último é de uma empresa que, embora opere no mercado de consumo (Ambev), é bastante internacionalizada, a ponto de obter no exterior quase metade de suas receitas.

Em 1974, o ditador sanguinário, general Garrastazu Médici, afirmou: "A economia vai bem, mas o povo vai mal". Antes, agora e quase sempre na história do País, esta frase deve ser interpretada assim: “A economia vai bem porque o povo vai mal”.

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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Para o capital, o pecado. Para nós, o castigo

No capitalismo, a imensa maioria das pessoas é obrigada a trabalhar para a pequena minoria que controla os meios de produção. Mas esta última alega que chegou a essa condição porque fez por merecer.

Falso. Quase todos os patrões herdaram suas empresas.

Ainda assim, responderia essa elite, seus antepassados trabalharam duro para que sua descendência não só desfrutasse como criasse oportunidades de trabalho para os despossuídos.

Tudo isso faria sentido não fosse o que Marx chamou de acumulação primitiva do capital. O conceito aparece em “O Capital” para descrever o surgimento do capitalismo. Foi nesse momento, por exemplo, que os camponeses ingleses tiveram suas terras comunais roubadas pela burguesia nascente.

Mas não só isso. Um trecho:

As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior de minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada lucrativa são os acontecimentos que marcam os albores da era da produção capitalista. Esses processos idílicos são fatores fundamentais da acumulação primitiva.

Na verdade, a tradução mais fiel do original em alemão para o conceito seria acumulação “originária” do capital. O termo “originário” é uma sutil referência ao pecado original bíblico. Aquele cometido pelo primeiro casal, que expulsou a humanidade do Éden e nos condenou a continuar pecando.

Do mesmo modo, a burguesia surgiu cometendo os piores pecados. E nunca mais parou. São inúmeras guerras, tragédias sociais, catástrofes ambientais causadas por poderosos interesses econômicos.

A diferença, aqui, é que os piores castigos nunca desabam sobre os maiores pecadores.

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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Os riscos de um favelismo institucionalizado

"Queremos o preto e o favelado no centro do processo decisório", diz Wanderson Maia em entrevista publicada na CartaCapital, em 12/09. Junto com Patrícia Alencar, Maia preside a Frente Favela Brasil, partido recém-criado e em busca de legalização.

Ainda que legítima, quais seriam os riscos implicados nessa busca pela ocupação do “centro do processo decisório"? O entrevistado afirma, por exemplo, que “os negros foram alijados de toda a estrutura social, a eles foram renegados vários direitos fundamentais”.

Não há o que discordar da primeira parte da afirmação. Mas que os negros tenham sido alijados de “toda a estrutura social” já não é tão certo. Seu lugar na sociedade brasileira sempre foi muito bem delimitado. É o de servir, principalmente, como força-de-trabalho superexplorada e alvo prioritário da violência estatal.

Mas se considerarmos as instituições do poder, destas sim, a população negra e favelada está absolutamente excluída. O problema é que o lugar social que esses setores ocupam na sociedade é produto inseparável dessa mesma institucionalidade.

Ou seja, seria possível transformar uma estrutura social extremamente injusta ocupando instituições cuja principal missão é mantê-la? Os criadores da Frente Favela Brasil acham que sim. Do contrário, não estariam buscando registro eleitoral e discutindo a possibilidade de lançar candidaturas nas próximas eleições.

Mas não é o que indicam as experiências de vários setores populares que tentaram transformar radicalmente suas condições de vida através de representações parlamentares e governamentais. Diante disso, os “favelistas” poderiam alegar que o que faltou nessas experiências foi exatamente o corte social que estão propondo.

Pode ser, mas são grandes as chances de que ocorram enormes frustrações.

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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A participação de robôs na greve geral

“Algoritmos são opiniões transformadas em código”. Esta frase da matemática estadunidense Cathy O´Neil serve de título para nota publicada na página do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, em 24/08. Segundo ela:  

Dizem que eles estão ajudando a tornar o mundo mais justo por se basearem em modelos matemáticos. Mas vivemos numa sociedade historicamente racista, sexista etc.

Não deveria ser novidade. Afinal, dizem que algoritmos são séries de instruções passo-a-passo que descrevem explicitamente várias operações. Instruções são dadas por pessoas. Pessoas que, como lembra Cathy, vivem “numa sociedade historicamente racista, sexista” e vários outros “etcs” nada animadores.  

Dito isto, vamos a algumas notícias recentes envolvendo algoritmos, inteligência artificial e robótica.

Em 03/09, matéria de Eduardo Vanini anuncia: “Inteligência artificial ganha espaço em processos seletivos”. O texto afirma que robôs já são usados para entrevistas e mapeamento de habilidades.

Segundo coluna de Ronaldo Lemos publicada na Folha, em 11/09, um estudo publicado na Universidade de Stanford teria comprovado que a inteligência artificial é capaz de determinar se uma pessoa é gay com a análise de apenas uma foto na internet.

Pedro Dória divulgou no Globo, em 08/09, um levantamento da Fundação Getúlio Vargas demonstrando enorme presença de robôs nos grandes debates políticos em comunicações pelo Twitter. Levantamento semelhante no Facebook não foi possível porque o portal “não permite acesso aos seus dados neste nível”.

De qualquer maneira, o estudo descobriu que nas eleições de 2014, robôs representaram até 10% do debate. Mas, pasmem, na greve geral de abril último, 20% das interações no Twitter foram forjadas por algoritmos.

E quem controla os algoritmos? Cathy já respondeu.

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