quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Renda mínima universal, lucros privados máximos (2)

Sobre a pílula Renda mínima universal, lucros privados máximos, Caio Almendra fez comentários pertinentes e assustadores:

A renda básica deve se tornar o paradigma da luta de esquerda até o final do século. O maior problema é que ela poderá não ser o paraíso que os silícios e mesmo parte da esquerda considera. Sem a possibilidade de pausar a produção, qual o poder de disputa dos subalternos sobre o valor da tal renda básica? Com apenas 20% da população empregada e 79% da população vivendo de renda básica, somando-se os mecanismos tecnológicos de controle cada vez mais sofisticados (a Boston Dynamics está aí assustando a todos com robôs-soldados cada vez mais sofisticados), esse cenário pode ser muito mais uma distopia do que uma vitória para as lutas populares.

Outro detalhe, os silícios raríssimas vezes falam de renda básica pelo estado. Essa é a esquerda que tenta participar dessa discussão, com seus conceitos do século passado como "estado". Se você escarafunchar o discurso deles, eles são a favor da regulação da renda básica pelas empresas, inclusive com "impostos auto-impostos", ou uma moeda de blockchain própria para esse propósito, com o preço determinado pelo "mercado" (ou seja, pelo criador da moeda blockchain, que define a estrutura matemática da criação de coins e, portanto, a inflação/valor). Ou seja... seria uma medida quase imune à negociação com os debaixo.

Ou seja, ao contrário do que diz a pílula, não é ao Estado que o Vale do Silício pretende passar a conta da Renda Mínima. É bem pior. A administração do benefício pode se tornar um grande negócio privado e obscuro.

14 comentários:

  1. Parece ser isso mesmo. Não é à toa que o chamado Filantropismo é praticado precisamente em alto grau por estas empresas tecnológicas. E ele também parece ter completa racionalidade quando assinala e pergunta:" Sem a possibilidade de pausar a produção, qual o poder de disputa dos subalternos sobre o valor da tal renda básica?" Antigamente as associações de trabalhadores não tinham muito o que fazer, exceto destruir as máquinas. Foi só com o surgimento da grande indústria que ela pôde passar para o poder mais civilizado de pausar a produção: A redução da jornada de trabalho. Agora, aquilo aparece no lugar do trabalhador e dos sindicatos que quase de pires nas mãos lutam por conservar os empregos e, quem sabe, aumentar um pouco mais a oferta dos mesmos, é o consumidor e as associações de consumidores que rastreiam produtos e suas responsabilidades social, ambiental, política, de direitos humanos e democráticos etc. Os boicotes do consumidor e de suas associações aos produtos aparecem como formas de luta relacionáveis ao "valor da tal renda básica". No entanto, o principal está no processo de desenvolvimento do consumidor e do seu tempo livre diretamente sobre a produção como medida da mesma. Se trata dos programas e softwares nas mãos do consumidor e de suas associações para determinar aquilo que será produzido pela maquinaria automatizada. É evidente que o desenvolvimento deste poder do consumidor e de suas associações implica também no problema da socialização dos meios de produção, no problema da propriedade socializada ou capitalizada dos meios de produção. Será mesmo por isso que, nos Grundrisse, Marx observava que, apesar da produção passar do tempo de trabalho par o tempo livre,ainda assim, a revolução e/ou a socialização dos meios de produção permaneceria de pé, na ordem do dia?!

    ResponderExcluir
  2. Questões complexas sendo que algumas gostaria de entender melhor. Quanto ao comentário do Caio Almedra em que afirma: "Essa é a esquerda que tenta participar dessa discussão, com seus conceitos do século passado como 'estado'". Este estado entre aspas, e o conceito da esquerda do século passado, me dão a entender que não existe mais estado? Quanto ao comentário acima de singularidade/pluralidade, o fato dos consumidores terem acessos aos softwares isso indica uma possibilidade de regular a produção, entretanto isso não ocorre devido a apropriação dos meios de produção hoje ser privada?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim. Tudo muito complexo, Marião. Mas quanto aos comentários do Caio, seus outros complementos permitem entender que seria a concepção de estado que estaria ultrapassada e não sua natureza. Esta pode assumir outras formas, mas continuaria a ser de dominação de classe. Sobre o acesso aos softers, entendo o mesmo que você. A apropriação privada trava seu potencial criativo e libertador. Um típico caso do choque entre forças produtivas e relações de produção destacado por Marx.

      Excluir
    2. Ok. Quanto a concepção de estado ultrapassada seriam quais, as de Lenin, Gramsci, as duas, ou outras que não conheço? E o que temos de concepção moderna de estado? Grato.

      Excluir
    3. Aí tem que sair da linha de curva e ver de fora o que a antevisão esboça, ou os traços tênues já começam a gestar?

      Excluir
    4. Está configurado um salto, tendo em vista que a História do curso da produção esta confrontada e contida pela margem de um abismo. ( uma vlivagem, um "gap" ). É depois deste vazio que temos que conectar. Este é o papel não mais da Ciência. Mas, da filosofia da Ciência.

      Excluir
    5. Filosofia da Ciência no lugar da Ciência, Marco? Acho que é por aí, mesmo.
      Abraço

      Excluir
    6. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir
    7. Nada mais estado, no sentido real da palavra, que uma coalizão de empresas que controlariam a economia e o espaço público(incluindo, aí, a regulação econômica e a assistência estatal aos não-trabalhadores). Então, não se trata de superar o estado como Marx, Lenin e Gramsci formularam e criar um domínio popular sobre as questões públicas. Mas de criar um estado paralelo que substituísse a "atrasada" forma democracia liberal do século XX.

      Excluir
  3. Marião, acho que o que o Caio quis dizer é que o Estado caminha para não se limitar apenas a ser uma instituição com endereço, materialidade, órgãos, estruturas legais e repressivas, legislativos, judiciários, executivos. Ele pode estar encontrando outros formatos (sem negar ou deixar para trás aqueles outros) através dos mecanismos e ferramentas ligadas a este mundo novo de algoritmos, big datas, blockchain etc. Mas, claro, que todo esse debate ainda é muito inicial.

    ResponderExcluir
  4. Todo o meu comentário desapareceu quando tentei publicar. Pensei que o tinha copiado, colei e consegui publicar, mas, em seguida, verifiquei que era apenas uma citação de um trecho do texto do Caio que tinha copiado e colado no comentário que perdi. Então, vendo que podia excluir o comentário publicado, que não era comentário algum e sim mera repetição de um trecho do texto do Caio Almendra, eu o excluí.


    Assim que tive tempo tentei reescrever o comentário, mas não consegui. Escrevi muito sobre uma coisa, muito sobre outra e o comentário que tinha feito não reapareceu em momento algum. Recuperar um estado de espírito depois de entrar noutro estado de espírito não é fácil nem sei se é possível.
    Eu não consegui mais recuperar. E o que mais me frustra é que eu estava animadíssimo com o debate que estava vendo se desenvolver aqui. Espero que consiga voltar ao tema sem os desvios que sinto em tudo que tentei escrever depois e não consegui mais.

    ResponderExcluir
  5. https://singularidadeabstrata.wordpress.com/2017/08/24/1189/

    ResponderExcluir
  6. O link acima ganhou um acréscimo comentando o artigo "Os robôs ficam do lado do capital na equação marxista"

    ResponderExcluir
  7. O meu link acima ganhou um acréscimo comentando o artigo "Os robôs ficam do lado do capital na equação marxista"

    ResponderExcluir