terça-feira, 22 de agosto de 2017

Julho de 1917: Trotsky impede um linchamento

A temperatura política estava muito alta em julho de 1917, na Rússia. É o que mostra, por exemplo, um episódio descrito em “October, The Story of the Russian Revolution”, de China Miéville, ainda sem tradução.

Chernov, uma liderança do partido socialista revolucionário e membro da direção do Soviete, teve seu automóvel cercado por uma multidão que incluía raivosos marinheiros recém chegados da fortaleza de Kronstadt. Foi um deles que se aproximou e, encostando o punho fechado no rosto de Chernov, gritou “Tome o poder, seu filho da puta, quando ele é oferecido a você!"

O linchamento era iminente. Foi aí que apareceu Trotsky. Subindo no capô do carro, ele gritou:

“Camaradas de Kronstadt, orgulho e glória da revolução! Vocês vieram declarar sua vontade e mostrar ao soviete que a classe trabalhadora não quer mais ver a burguesia no poder. Mas por que ferir sua própria causa com pequenos atos de violência contra indivíduos ocasionais? Os indivíduos não são dignos de sua atenção”.

“Aqueles aqui a favor da violência, levantem as mãos". Nenhuma mão se ergueu. "Cidadão Chernov", disse Trotsky, abrindo a porta do carro, "você é livre para ir". Machucado, aterrorizado, humilhado, Chernov correu para o palácio. Que Chernov, muito provavelmente, teria morrido naquele dia não fosse por Trotsky, não o impediu de se sentar naquela mesma noite para escrever uma série de ferozes ataques contra os bolcheviques.

Este acontecimento também indica como a questão da violência se apresentou em 1917. As lideranças revolucionárias procuravam impedir que a ira popular descambasse para a barbárie. Mas foi nela que as forças reacionárias apostaram todas as suas fichas.

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2 comentários:

  1. Infelizmente não impediu Trotsky de participar da trágica decisão sobre Kronstadt mais tarde, em 1921

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    1. Sim, meu caro camarada. Mas, talvez, o episódio posterior envolvendo os marinheiros de Kronstadt prove que a barbárie imposta pela contrarrevolução acabou imperando, apesar de tudo.
      Abraço!

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