quarta-feira, 30 de agosto de 2017

As cercas da internete

Cresce a impressão de que as redes virtuais, muito longe de abrirem nossos horizontes, nos aprisionam. Nesse sentido, os trechos do texto abaixo, de Fernanda Araujo, são muito pertinentes:

O processo pelo qual a Internet vem sendo submetida pelas grandes companhias da tecnologia remete aos cercamentos ingleses do século 18. Os cercamentos consistiram na expropriação de camponeses ingleses de terras comunais para benefício de proprietários privados. Antes um bem comum para os camponeses, que produziam naquele espaço de maneira colaborativa, as terras passaram a ter seu acesso e uso regulado pelos proprietários. O fenômeno, que contribuiu para o surgimento da classe operária e o início da Revolução Industrial, para a tradição marxista os cercamentos marcaram o início da sociedade capitalista, sendo um mecanismo de acumulação primitiva. Como explicitado quando analisamos as novas tendências do capitalismo, a expropriação do comum através da predação externa do capital não é um acontecimento exclusivo de uma época, mas sim estratégia integral e recorrente no processo capitalista de acumulação.

(...)

Atualmente, empresas de tecnologia como o Facebook e o Google agem como os proprietários do “espaço” a ser utilizado, e as informações pessoais servem como “pagamento” para o acesso dos usuários. A privacidade, nessa lógica, se torna um bem a ser comercializado. O fenômeno da privatização resulta não apenas no controle do acesso, mas na mediação das interações que ocorrem dentro desses espaços e na restrição dos fluxos de informação.

Em “O Capital”, Marx mostrou como os cercamentos ingleses representaram uma espécie de roubo das terras comunitárias dos camponeses. Após 150 anos, eles continuam. Na internete, são uma espécie de sequestro.

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