sexta-feira, 30 de junho de 2017

Em busca de um futuro comunista, no passado


Em 19/06, Nuno Ramos de Almeida publicou “Em busca da comunidade futura”, no portal Outras Palavras. O artigo destaca a importância da “culturas e identidades operárias” na criação de grande parte das alternativas políticas do século passado na Europa e Estados Unidos. Como exemplo, relata um episódio ocorrido em Portugal, em plena ditadura salazarista:

A 30 de janeiro de 1938 defrontaram-se no Estádio Nacional do Jamor as seleções de Espanha e Portugal. Durante os hinos, os dignitários fascistas na tribuna, a multidão e os jogadores fizeram a saudação nazi. Todos? Não, quatro jogadores portugueses recusaram fazer o gesto. Artur Quaresma deixou os braços em baixo. Mariano Rodrigues Amaro e José Ribeiro Simões levantaram, desafiantes, o punho esquerdo, e o goleiro, João Mendonça e Azevedo, juntou-se à contestação. No final do jogo foram detidos pela polícia política de Salazar. Artur Quaresma, tio-avô de Ricardo Quaresma, explicou em 2004 ao jornal Record porque se recusou a fazer a saudação fascista: “Tinha muitos amigos comunistas e oposicionistas, por isso foi uma atitude natural, embora não planejada.” Apesar de terem sido presos pela PIDE, foram libertados em pouco tempo, dado o apelo da direção do clube. Numa conversa, Quaresma acrescentou outra razão de fundo para a coragem dos quatro destemidos jogadores contra tudo e contra todos. Ao que parece, todos eles eram do Barreiro. Apanhar da polícia era tenebroso, mas viver na vila operária com o ônus de ter feito a saudação fascista e ter dobrado a espinha era muito pior.

Ou seja, é preciso buscar no passado das lutas libertárias a coragem para construir um futuro verdadeiramente comunista.

Leia também: Tchau não, Vito. Ciao!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Algumas mentiras em defesa da Reforma Trabalhista

Cássio Casagrande é procurador do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro. Costuma publicar textos no “Jota”, site especializado em questões jurídicas. Alguns deles são valiosos para mostrar o caráter mal-intencionado da Reforma Trabalhista em discussão no Congresso Nacional.

No texto de 29/05, por exemplo, Casagrande mostra como a intenção do projeto não é apenas “flexibilizar” as relações trabalhistas. Segundo ele, em alguns pontos, a proposta “chega a retirar a natureza trabalhista da relação entre patrão e empregado, convertendo-a em um contrato de natureza civil”. Algo que nem nos Estados Unidos acontece, diz ele.

Já o artigo de 25/06, desmente quem afirma que a Justiça Trabalhista brasileira é campeã mundial de reclamações. Os defensores da Reforma dizem que os Estados Unidos teriam 75 mil ações desse tipo em seus tribunais, enquanto aqui seriam quase quatro milhões. Além disso, o relatório da proposta afirma que o Brasil, sozinho, responde por 98% das ações trabalhistas do mundo. Sendo assim, pelos cálculos de Casagrande, o resto do planeta ficaria com apenas 81 mil ações trabalhistas anuais. Descontadas as “75 mil americanas”, não sobraria quase nada!

Voltando ao caso estadunidense, de fato, não há como saber exatamente quantas ações trabalhistas estão em andamento por lá. Diferente daqui, a Justiça americana é muito fragmentada. Mas Casagrande calcula que devem chegar a cerca de 1,7 milhão por ano. O problema é que cada ação dessas pode representar vários trabalhadores. Em uma delas, contra a Boeing, por exemplo, havia 190 mil trabalhadores!

Vale a pena ler os textos de Casagrande. Excelentes ferramentas na luta contra as mentiras dos defensores da Reforma Trabalhista.




terça-feira, 27 de junho de 2017

O foco de todas as corrupções

Marx e Engels não fizeram do Estado uma mera extensão da classe dominante, sua ferramenta, seu fantoche, ou mero reflexo, num sentido simplista e passivo (...). Pois a realidade pode de fato ser mais complexa, como mostrou o estudo de Marx sobre o Bonapartismo. Ao contrário, o Estado surge e expressa uma necessidade real e geral de organização da sociedade – necessidade esta que existe qualquer que seja a estrutura específica de classe. Porém, desde que exista uma classe dominante nas relações socioeconômicas, ela utilizará esta necessidade para moldar e controlar o Estado de acordo com as orientações de classe.

O trecho acima é do livro “Karl Marx’s Theory of Revolution: State and Bureaucracy”, de Hall Draper. Refere-se à obra “O 18 Brumário”, no qual Max pinta um quadro rico e detalhado das inúmeras contradições na França do século 19, incluindo as divergências no interior da classe dominante. Trata-se de um excelente guia para fazer análises políticas de situações concretas, sem simplismos.

Hoje, no Brasil, por exemplo, estão em lados opostos, a Fiesp, a favor do governo golpista, e a Globo, contra. Mas ambas são inegavelmente pilares da classe dominante. Compreender essas contradições e saber explorá-las em favor da luta dos explorados é fundamental. Mas para isso é preciso deixar de fazer da política a arte de ocupar postos em uma institucionalidade irrecuperavelmente podre.

Afinal, já em 1871, em “A guerra Civil na França”, o mesmo Marx dizia: “...o poder estatal, que parecia flutuar bem acima da sociedade, era, entretanto, o maior escândalo dessa sociedade e ao mesmo tempo o foco de todas as suas corrupções”.

Leia também: Os melhores filhos do povo, adotados pelo Capital

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Bolsonaro não é a maior ameaça. Ainda

Renato Sérgio de Lima e Arthur Trindade Maranhão Costa publicaram “Medo da violência revigora tendências autoritárias e beneficia Bolsonaro” na Folha, em 25/06. O artigo revela dados de recente pesquisa Datafolha:

Para 69% dos brasileiros adultos, "o que este país necessita, principalmente, antes de leis ou planos políticos, é de alguns líderes valentes, incansáveis e dedicados em quem o povo possa depositar a sua fé".

Se forem considerados apenas pessoas dispostas a seguir “líderes valentes, incansáveis e dedicados”, o percentual sobe para 85%.

A frase utilizada na pesquisa fez parte de um estudo feito pelo marxista alemão Theodor Adorno, em 1950. Judeu e perseguido durante a Segunda Guerra, Adorno buscava compreender como o nazismo ganhou tantos adeptos na Alemanha da primeira metade do século 20.

Os autores alertam para a crescente popularidade de Bolsonaro, mas consideram que Lula e João Dória também podem encarnar "líderes valentes, incansáveis e dedicados". Além disso, certos valores defendidos por Bolsonaro batem de frente com alguns princípios neoliberais. Hoje, ele seria menos confiável para o grande capital que o ex-presidente ou o atual prefeito paulistano.

Por outro lado, Hitler era considerado um lunático pela alta burguesia nos anos 1920, mas acabou sendo a escolha dela durante a crise dos anos 1930. E não só na Alemanha. Tanto Mercedes e Volkswagen como Ford, IBM e Coca-Cola apostaram suas fichas no nazista.

Se uma nova hecatombe econômica ameaçar seus privilégios, o grande capital não terá dúvidas em apelar para as feras do apocalipse fascista. Mas a principal aposta ainda é contar com algumas ovelhas para fazer o trabalho sujo dos lobos.

Leia também: O governo petista faz parte da atual onda conservadora

sábado, 24 de junho de 2017

Machado e a borboleta que não era azul

Em 21/06, completaram-se 178 anos do nascimento de Machado de Assis. Giovanni Arceno é escritor e envia diariamente trechos literários valiosos por e-mail. Um deles cita uma passagem do capítulo “Borboleta Preta”, de “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Merece bater asas por aqui, também:

— Também por que diabo não era ela azul? disse comigo.
E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, — me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.

Quem quiser receber preciosidades como esta, entre em contato com giovanni@leiabrasileiros.com.br

Leia também:
Até Machado achava escola um saco

Os órfãos do terrorismo de Estado na Argentina

A escritora argentina Mariana Enriquez está lançando seu primeiro livro no Brasil. Trata-se da coletânea de contos “As coisas que perdemos no fogo”. A obra mistura terror à denúncia dos traumas causados pela repressão durante a ditadura militar argentina dos anos 1970.

Em 16/06, ela declarou ao Globo:

A história e o cotidiano da Argentina estão cheios de fantasmas, questões que aparecem em diferentes lugares e não podem ser arrancadas. São marcas profundas, de um passado que é impossível de deixar para trás. Escrevo contos de terror, mas que também são políticos.

Na Folha, em 28/05, reportagem de Janaína Figueiredo relata que filhos de ex-torturadores argentinos estão rompendo com eles, expressando publicamente “sentimentos como vergonha, ódio e rancor em relação a seus pais”. Na verdade, enquanto ainda eram bebês, seus verdadeiros pais foram mortos pela ditadura e “adotados” pelos carrascos.  

Erika é uma delas. Seu “pai adotivo” era o médico Ricardo Lederer, “que trabalhou na clínica clandestina de Campo de Maio, onde nasceram muitos filhos de presas políticas, posteriormente entregues a famílias de militares ou próximas às Forças Armadas”, diz a matéria.

Lederer morreu antes de ser julgado. Mas sua neta, filha de Erika, de apenas 9 anos, lhe perguntou se seu avô estaria preso caso não tivesse morrido. “Sim, respondi de forma imediata. Nunca a vi chorar como nesse dia. Algo tinha se quebrado em sua infância e não podia ser de outra maneira”, contou.

Quem já leu, garante que Mariana é uma ótima escritora de terror. Mas a vida real em seu país, e nos vizinhos da região, pode ser ainda mais assustadora.
A podre lei da Anistia


quinta-feira, 22 de junho de 2017

1917: revolução socialista ou antiburguesa?

Fundamental para vitória em 1917 foi a realização do II Congresso dos Sovietes, em 25 e 26 de outubro daquele ano. Em seu texto “De fevereiro a outubro”, Lars T. Lih afirma que “podemos imaginar o II Congresso sem o levante, mas não podemos imaginar o levante sem o II Congresso.”

Uma vez vitoriosa a revolução, o Congresso aprovou como tarefas fundamentais “paz democrática”, terra aos camponeses e a criação de um “governo operário-camponês”. Medidas “essencialmente democráticas”, diz o autor.

Segundo Lih, no final do esboço da declaração que preparou para amarrar o novo governo a esses compromissos, Lênin havia escrito “Vida longa ao socialismo!”. Mas ele “riscou esta frase”. Segundo o autor:

...os bolcheviques nunca defenderam o programa efetivo deliberado no Congresso como “socialista” – tampouco, o que é ainda mais relevante, os que atacaram os bolcheviques fizeram qualquer menção a tentativas irreais de instalar o socialismo na Rússia. “Socialismo” simplesmente não era uma questão no II Congresso.

Assim, a Lih “parece mais provável entender a revolução de 1917 como uma revolução democrática antiburguesa”.

De fato, a burguesia era incapaz de conquistar os objetivos definidos pelo II Congresso sem contrariar seus próprios interesses. E para alcançá-los, os trabalhadores tiveram que avançar para a socialização das fábricas e latifúndios e a democratização radical da vida política.

Era a “revolução permanente”, defendida por Trotsky e assumida por Lênin. Mas ambos admitiram que a implantação do socialismo dependia de vitórias revolucionárias na Europa ocidental. Na ausência delas, a revolução antiburguesa foi cercada por todos os lados. Não apenas ficou incompleta, como sofreu recuos sucessivos até transformar-se na contrarrevolução stalinista.

Acesse o texto de Lars T. Lih, aqui

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Nova crise mundial pode arrastar até a China

“A bolha está se formando e, quando estourar, será o pior ‘crash’ da minha vida”, este título da matéria publicada no InfoMoney em 12/06, utiliza palavras de Jim Rogers.

Rogers é um respeitado investidor, responsável por ganhos bilionários no mercado financeiro. Para ele, “algumas ações dos Estados Unidos estão entrando em uma bolha e, quando estourar, as bolsas vão desabar”.

“Nos EUA, uma nova bolha imobiliária ameaça criar outra crise”, diz reportagem de Carlos Drummond, publicada por CartaCapital em 20/06

Segundo o artigo, os mesmos sinais da iminência da quebradeira de 2008, “ressurgiram e já se desenha a ameaça de uma reedição ainda mais destrutiva”:

Os preços dos imóveis ultrapassaram o ápice de nove anos atrás, os financiamentos estudantis e a dívida com cartões de crédito aumentaram de modo preocupante e a cotação das ações atingiu novos recordes históricos.

O texto cita Michael Hudson, professor da Universidade do Missouri e autor de livros sobre as bolhas de ativos e o parasitismo financeiro. Segundo ele, muitos economistas veem no aumento da procura de crédito um sinal de retomada econômica.

Mas, diz Hudson,”as pessoas não estão tomando mais empréstimos por se sentirem otimistas quanto à economia, mas por não conseguirem equilibrar as contas e pagar sua habitação e sua educação sem se endividar ainda mais”.

A crise de 2008 só não foi pior graças à economia chinesa. Mas agora, diz Rogers, os chineses também têm dívidas e a “dívida é muito maior (...). Vai ser o pior crash da sua vida - da minha também. Preocupe-se".

E nós, aqui, com a dupla Meirelles/Temer no comando do País. Danou-se!

terça-feira, 20 de junho de 2017

Mudamos! Para o mesmo endereço

 Laerte
Anda fazendo sucesso um aplicativo criado pelos advogados Márlon Reis, idealizador da Ficha Limpa, e Ronaldo Lemos, colunista da Folha.

É a ferramenta digital “Mudamos”, que coleta as assinaturas necessárias à tramitação de projetos de iniciativa popular na Câmara Federal.

Esse mecanismo constitucional exige a assinatura de 1% do eleitorado, distribuído em pelo menos cinco estados. Atualmente, cerca de 1,5 milhão de autógrafos.

Dois problemas: a enorme mão-de-obra para recolher tantas subscrições e um risco de fraudes proporcional à montanha de papéis resultante da coleta. Por isso mesmo, pouquíssimas vezes propostas desse tipo chegaram ao Congresso.

Na verdade, mesmo a famosa Lei da Ficha Limpa, apoiada por milhões de assinaturas, só progrediu porque foi assumida por um deputado, dispensando a necessidade de auditagem da documentação.

O dispositivo coleta assinaturas digitais por meio da tecnologia blockchain, utilizada em aplicativos de bancos. Realmente, trata-se de uma ferramenta muito mais segura do que rabiscos espalhados por toneladas de papel.

Dados como data de nascimento, CPF e título de eleitor são cruzados em segundos e vinculados aos celulares dos usuários pelo código IMEI, registro individual de cada aparelho.

O grande problema é que o “Mudamos” não altera a lógica eleitoral que coloca nos parlamentos uma enorme maioria de representantes do grande capital. A simples apresentação da proposta não significa que seja aprovada.

Sem falar em fatores como o poder das mídias empresariais. Sejam antigas, como a Globo, ou novíssimas, como o Facebook.

Pior, reforça um tipo de participação política que continua a ser tão solitária quanto a ida à urna eletrônica.

Mudar, pode até mudar. Mas nem altera o CEP.

Leia também: Militância por aplicativo

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O terrorismo que mata pobres e causa inveja

O número de homicídios no País, em três semanas, supera a quantidade de pessoas mortas em todos os ataques terroristas no mundo nos cinco primeiros meses de 2017.

A comparação é de Samira Bueno, diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, referindo-se a dados do recém-lançado “Atlas da Violência”.

Samira também observa “que o crescimento econômico e a redução da desigualdade” das últimas décadas não se traduziram em índices melhores. Segundo ela, “crescimento econômico sozinho”, não basta.

O sociólogo Marcos Rolim acaba de publicar “A Formação de Jovens Violentos”. O livro apresenta um estudo feito junto a jovens violentos de 16 a 20 anos da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul.

O levantamento aponta dois grandes fatores para o comportamento desses jovens: a evasão escolar e o "treinamento violento". Ou seja, a convivência com armas e conflitos policiais.

Por fim, na reportagem “Aulas em meio à guerra no Rio”, publicada pelo El País em 18/06, María Martín relata:

Renan, de 13 anos, não consegue enumerar mais de três países sem travar – “Brasil, humm... Argentina, México, ah...” –, mas diz de cabeça nove tipos de armas: “Snipe, AK-47, 7.65, AR-15, Bazuca, calibre .50, calibre 12, Glock, giratória...”. Na classe ao lado, Guilherme, de 14 anos, também é capaz de imitar o som dos tiros: a rajada espaçada do AK-47, o eco seco da pistola e o estrondo de um lança-granadas. “É o que escutamos todos os dias”...

Mas essa realidade vale principalmente para os mais pobres. São eles as maiores vítimas desse nosso terrorismo cotidiano, capaz de causar inveja aos piores fanáticos.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

Como faz falta uma boa guilhotina

É comum afirmamos que as grandes mudanças políticas na sociedade brasileira acontecem por meio de uma conciliação que deixa intactos os interesses das classes dominantes.

Proclamação da Independência, República, abolição da escravidão, golpe de 1930, término da ditadura Vargas, começo e fim da ditadura de 1964. Em todos esses exemplos, as classes dominantes locais sempre resolveram seus conflitos, não apenas sem o envolvimento do povo, como às custas dele. Afinal, se a conciliação impera entre os de cima, o pau come no lombo dos de baixo, ao menor sinal de resistência popular e mesmo na ausência dela.

A atual crise política por que passa o País parece ser consequência de uma tímida tentativa de intrometer nessa dinâmica o atendimento a algumas poucas necessidades populares. Aproveitando o desgaste do modelo neoliberal, o lulismo colocou sua cunha. O problema é que o fez pelo alto e por lá continuou, feliz prisioneiro dessa máquina de moer interesses populares que são os Estados nas sociedades de classes.

Mas toda essa conversa é apenas para reproduzir um trecho do artigo de Vladimir Safatle, publicado na Folha, em 16/06:

...países que um dia levaram seus dirigentes à guilhotina e à forca (como a França e a Inglaterra) conseguiram civilizar minimamente sua classe dirigente. Eles a civilizaram através de certo medo pelo povo que se inscreve no imaginário do poder. Com guilhotina ou não (pois isso pode ser visto apenas como metáfora), uma coisa é certa; no Brasil, falta ao poder temer o povo.

Perfeito. Mas resta saber até quando as metáforas continuarão a salvar o pescoço de nossas classes dominantes.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O básico sobre Junho de 2013, de novo

No Brasil, no governo do PT adotou-se a emulação do crescimento (PAC – Política de Aceleração do Crescimento), visando a, em primeiro lugar, anabolizar o PIB. E a dependência da exportação de matérias-primas, hoje elegantemente denominadas commodities, agravou o processo de desindustrialização.
     
A corrupção se entranhou nas estruturas governamentais, cooptou líderes políticos como agentes de interesses privados de grandes corporações e corroeu a credibilidade ética da esquerda. Abandonou-se o horizonte socialista e acreditou-se na política de inclusão assistencialista dos mais pobres, sem alterar minimamente as estruturas sociais e os direitos de propriedade.
     
Cedeu-se à falácia de que o capitalismo é passível de humanização. Priorizou-se o acesso da população a bens pessoais (celular, computador, eletrodomésticos etc.) e não a bens sociais (alimentação, saúde, educação etc.).

Não houve empenho em preparar as bases de uma democracia participativa. Movimentos populares foram alijados como interlocutores preferenciais ou cooptados para atuarem como correia de transmissão entre governo e bases sociais.
     
É hora de fazer autocrítica e corrigir rotas, antes que seja demasiadamente tarde. Pena que, em seu congresso nacional, na primeira semana de junho, o PT tenha declinado desse dever político sob o pretexto de não dar munição aos adversários. Quem se cala, consente.

As palavras acima estão no artigo “Autocrítica da esquerda”, publicado no “Correio da Cidadania” em 13/06. São de Frei Betto, amigo pessoal de Lula.

É perfeitamente possível concordar com quase tudo o que diz o texto. Mas não é verdade que chegou a “hora de fazer autocrítica e corrigir rotas”. Este momento já ficou para trás. Mais precisamente, há exatos quatro anos.

Leia também: O básico sobre Junho de 2013

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O básico sobre Junho de 2013

“Me desculpe, Haddad, mas o senhor não entendeu nada de Junho de 2013”. Este é o título do artigo de Guilherme Kranz, do coletivo “Às Ruas”, publicado pelo Esquerda Diário, em 09/06. É uma resposta a um texto do ex-prefeito publicado na última edição da revista Piauí.

Em relação às afirmações de Haddad sobre o caráter conservador das manifestações ocorridas naquele mês explosivo, Kranz pergunta:

O fortalecimento da direita se deveu a Junho ou a anos e anos governando com Renan Calheiros, Fernando Collor, Sarney, Eike Batista, Maluf, Katia Abreu, Henrique Meirelles, Marco Feliciano, Levy, Eduardo Cunha, Marcelo Odebrecht, Sergio Cabral, Silas Malafaia, Michel Temer? O fortalecimento das mídias golpistas, como a Globo, se deu por conta de Junho ou ao financiamento bilionário que os governos petistas fizeram ao longo de anos? Será que hoje o judiciário vem se tornando todo-poderoso por conta de Junho ou pelo fortalecimento e autonomia dados a esse poder durante os governos do PT?

Não é difícil encontrar as respostas corretas para essas perguntas. Mas apenas para quem esteve nas ruas naquele período e permanece nelas. Não estão ao alcance de quem continua a circular pelos gabinetes do poder.

Conclusões muito parecidas também apareceram em várias pílulas publicadas sobre aquele momento explosivo há exatos quatro anos. Abaixo, algumas delas:

O povo não é bobo, já o governo Dilma...

terça-feira, 13 de junho de 2017

Os ratos de laboratório vão às compras

Trecho da coluna de Samy Dana, no Globo do dia 05/06:

Os profissionais de marketing são capazes de prever o seu trajeto dentro do supermercado — e organizam os produtos de modo estratégico com base nessa rota. Por exemplo, temos uma tendência a virar à direita quando chegamos em algum lugar. Por essa razão, as marcas costumam pagar a mais para serem posicionadas à direita nos corredores.

Os vegetais bem na entrada também não são colocados ali aleatoriamente. Na verdade, temos uma sensação de bem-estar e satisfação ao colocar produtos saudáveis no carrinho primeiro. Isso “alivia” nossa mente para incluir os produtos não tão saudáveis em seguida.

(...)

Além disso, o velho conselho de não ir às compras com fome também é crucial. Ou você acha mesmo que a padaria do supermercado posicionada bem perto da entrada e com aquele delicioso cheiro de pão quentinho é algo aleatório?

E conclui: “Ao entrarmos nesses centros de consumo, tendemos a comprar mais com nossos sentidos do que com a razão”.

E os ideólogos neoliberais ainda querem nos convencer de que o sistema social ideal é aquele em que as leis de mercado atuam sem freios. Seriam elas que nos permitiriam fazer as melhores escolhas, de modo livre e racional.

Mas a descrição acima mostra apenas uma pequena parte do enorme emaranhado de consumismo em que nos enredamos diariamente. Nele, somos orientados a agir como ratos de laboratório atraídos por iscas sensoriais. Depois do estímulo vem a recompensa, mas a saída do labirinto nunca chega.

Leia também: Para o capital, fome é um problema estético

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Palófi? Ah, ah, ah, ah, ah...

Enquanto isso, em uma sala luxuosa da Febraban...

– E aí, como vai Bob?

– Tudo ótimo, Peter. Mas essa crise me preocupa.

– Crise? Já viu os lucros de nossos bancos?

– Não! Tô falando dessa história de delações premiadas do Palocci. Já pensou?

– Ah, o Palófi...

– O quê?

– O Palófi!

– Ah,ah,ah,ah,ah,ah. Muito boa essa! Palófi! Por causa da língua presa, né? Ah,ah,ah,ah,ah,ah...

– É isso aí. Não tenho medo do Palófi!

– Ah,ah,ah,ah... Tudo bem mais ele sabe muita coisa podre de nosso pessoal.

– Por isso mesmo que o Temer baixou medida provisória autorizando o Banco Central a fechar acordos de leniência com as instituições financeiras. Ou seja, os bancos que cometeram crimes ou irregularidades poderão colaborar com as autoridades para diminuir suas penas.

– E você acha isso bom?

– Bom? É ótimo! Na verdade, o grande lance aí são os termos de compromisso que serão firmados com as autoridades. Provavelmente, eles vão ser secretos porque sua divulgação pode causar “danos ao sistema”. Não é lindo?

– Mas o valor das multas vai passar de R$ 250 mil pra R$ 2 bilhões!

– Nada disso! Este é só o novo teto das multas. Não quer dizer que elas vão chegar a isso tudo. Além disso, só vale para infrações cometidas daqui pra frente.

– Hummm...

– Que foi? Tô te falando. Não dá pra ter medo do Palófi.

– Ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah. Ai, tô até passando mal...

– Boa essa né, da língua presa? Palófi! Ah,ah,ah,ah…

– Não. Não tô mais rindo do seu "Palófi". Tô rindo é de felicidade. Ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah, ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah, ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah,...

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Lênin sentia sono quando lia Maiakóvski

“Várias vezes tentei ler Maiakóvski e nunca pude ler mais que três versos: sempre durmo”. Esta frase de Lênin está na pequena e brilhante biografia de Trotski, escrita por Paulo Leminski.

Segundo o poeta paranaense, a vanguarda artística russa do começo do século foi importantíssima. Maiakóvski é considerado o grande representante dessa arte revolucionária, mas havia pintores como Chagall e Maliévitch; escritores como Górki e Bábel; e os cineastas Eisenstein e Djiga-Viértov.

Movimentos como o futurismo, cubismo, suprematismo também deveram muito à ebulição revolucionária russa. Neste contexto, diz Leminski, surgiu, por um momento, “a miragem da fusão revolução artística/revolução política”. Seriam “uma nova arte para um novo mundo, novas linguagens para uma nova vida”.

Infelizmente não foi isso que aconteceu. “Maiakóvski suicidou-se em 1930. Eisenstein acabou domesticado, fazendo filmes patrióticos. Meyerhold desapareceu, depois de preso pela polícia de Stálin”, afirma o autor. A partir daí, passaram a ser permitidas apenas as manifestações artísticas chanceladas pelo Estado.

Frente a essa situação, parece a Leminski que a “inovação artística se dá muito bem nas temperaturas revolucionárias. Mas fenece quando os regimes se consolidam”.

Mas esta regra também poderia se aplicar a outras “inovações” revolucionárias. Os enormes avanços na emancipação feminina e liberdade sexual conquistados pela Revolução também se perderam ao longo do caminho. 

Culpar exclusivamente a contrarrevolução stalinista não basta. Lênin e Stálin eram muito diferentes. Um sentia sono diante da arte de vanguarda. O outro jogava seus artistas nas prisões. Mas ambos participaram do processo que se dobrou ao pragmatismo econômico da acumulação capitalista.

Antes, como agora, vale a palavra-de-ordem: “A gente quer comida, diversão e arte.”

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Infância (e adolescência) dos Mortos

Pixote cambaleia. Cai e torna a levantar, dá mais algumas passadas como se não soubesse em que direção estava se dirigindo, torna a cair. Dito está com as pedras nas mãos, sem saber em quem jogá-las.

— Atiraram em Pixote! — diz Fumaça, alarmado.

Dito sabe que não pode perder a calma. Sente a cabeça esquentar.

— Vamos embora, antes que nos peguem!

Os três saem correndo, agachando-se o mais que podem. Outros tiros são disparados, mas ninguém está ferido, Dito chega perto de Pixote. Ele tem os olhos abertos, filetes de sangue a escorrerem do pescoço. A mão amarela se abriu, com as flores murchas que ia levando para Estrelado.

O trecho acima é do livro “Infância dos mortos”, de José Louzeiro, publicado pela primeira vez em 1977. Os personagens são crianças de rua. O mais famoso deles é Pixote, cujo nome batizou um filme de grande sucesso de Hector Babenco, lançado em 1980.

Muitas décadas depois, pouca coisa mudou. Ao contrário, o relatório “Violência Letal Contra as Crianças e Adolescentes do Brasil”, publicado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais em 2013, mostra que só naquele ano, foram 10.520 vítimas dessa faixa etária. Quase 29 por dia.

De 1980 a 2013, foram assassinados 207.438 crianças e adolescentes até 19 anos de idade. Entre estes, estava Fernando da Silva Ramos, o ator que interpretou o “Pixote”. Foi morto pela polícia em 1987, meses antes de completar 20 anos. Ainda vivia na favela em que nasceu, na cidade de Diadema, grande São Paulo.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Meirelles e a moralidade rasteira do neoliberalismo

“Andamento das reformas preocupa mais investidores que destino de Temer”. O título dessa matéria do Globo, publicada em 06/06, deveria ser suficiente para mostrar a que níveis rasos a moralidade neoliberal pode chegar.

Mas o próprio texto deixa tudo muito mais claro. Os tais investidores participaram de uma teleconferência com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, no dia anterior. Segundo o relato:

Durante a conversa, investidores brasileiros e estrangeiros perguntaram sobre o desempenho da economia e a agenda de reformas, mas em nenhum momento questionaram Meirelles sobre o impacto da saída de Temer.

“Não importa o que aconteça, a política econômica não muda”, teria sido a mensagem que ficou da reunião. E a grande esperança, a aprovação da Reforma da Previdência.

Claro que ninguém perguntou que papel desempenhou Meirelles quando era membro do Conselho Administrativo da JBS, empresa que está no centro do atual escândalo de corrupção envolvendo o presidente golpista, Michel Temer.

É que nada disso consta do código ético da lógica econômica neoliberal. Para esta, não importa que corruptos estejam no comando do País, incluindo, muito provavelmente, o ministro da Fazenda. Do mesmo modo, conta pouco que a rejeição popular a Temer ultrapasse os 80%.

O fato é que os estratosféricos valores da corrupção financeira são responsáveis pelos níveis rasteiros de atendimento nos serviços públicos, principalmente em saúde e educação. Mesmo assim, estão fora do alcance das operações da PF e do voto popular. E muito abaixo de todas as escalas do que deveria permitir a vergonha humana.

Leia também: Os vários golpes, os diversos golpistas

terça-feira, 6 de junho de 2017

Aprendendo com Lênin a aprender com os camponeses

Mujique é o nome que se dá aos camponeses russos. Um termo que costuma ser entendido como sinônimo de grosseria, ignorância e conservadorismo. Uma imagem alimentada também por grande parte da tradição marxista ortodoxa.

Mas não era assim que pensava Lênin. Segundo a biografia do revolucionário russo escrita por Tony Cliff, o líder bolchevique considerava importante aprender com os mujiques. Cliff cita, por exemplo, algumas palavras dele em relação ao discurso de um camponês monarquista em uma sessão parlamentar:

Ele começa seu discurso repetindo as palavras do Tzar sobre "os direitos sagrados da propriedade" (...). Também deseja que “Deus conceda saúde ao Imperador". Mas termina dizendo: "Vossa Majestade disse que deve haver justiça e ordem. Mas se eu tenho um pedaço de terra e meu vizinho possui 10 mil vezes mais terra do que eu, onde está a ordem e a justiça?"

É a estas contradições que os revolucionários devem estar atentos. São elas que levavam Lênin a dizer que no peito de um rude camponês pode bater um coração revolucionário.

A principal força dirigente do vasto campesinato russo eram os socialistas revolucionários, não os bolcheviques. Mas o partido jamais rejeitou esse setor dos explorados como “gente atrasada”. Uma atitude que se mostrou acertada, pois sem o apoio dos mujiques o processo revolucionário russo jamais seria vitorioso.

Apesar disso, muitos dos que se dizem leninistas só sabem tratar com arrogância vastos setores da população explorada simplesmente porque não dominam a “teoria revolucionária”. Preferem limitar sua militância a uma vanguarda tão esclarecida quanto inofensiva. Tão pequena quanto são inúteis suas vaidades acadêmicas e limitados seus horizontes políticos.