sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Putin, o czar, acusa os bolcheviques de traição


O centenário da Revolução de Outubro na Rússia foi ignorado pelas autoridades locais. Um discurso feito por Vladimir Putin ajuda a entender porquê.

Em 2012, Putin já estava no comando da Rússia desde 1999. Em junho daquele ano, ele falou na Câmara Alta do Parlamento Russo. Ao lembrar as vítimas russas da Primeira Guerra, o governante culpou os bolcheviques pela “derrota” da Rússia no conflito.

Segundo ele, o governo liderado por Lênin traiu os interesses nacionais ao negociar um tratado de paz "vergonhoso" com a Alemanha. Só não disse que foi o tratado que acabou empurrando o conflito para seu final.

Para Putin, somente Stálin merece respeito, pois teria tornado a Rússia grande novamente, além de ser responsável pela derrota do nazismo na Segunda Guerra. Daí uma das datas mais festejadas pela cúpula russa ser 9 de maio. Neste dia, em 1945, as tropas soviéticas derrotaram os nazistas na “Batalha de Stalingrado”.

Neste caso, Putin segue a historiografia stalinista e ignora que a heroica vitória das tropas soviéticas não aconteceu graças a Stálin, mas apesar dele. Afinal, Stálin confiou no pacto que fez com Hitler até as vésperas da invasão do território russo pelo exército alemão.

Outra comemoração oficial importante é 4 de novembro, Dia da Unidade Nacional. Nesta data, em 1612, tropas invasoras polonesas foram expulsas de Moscou, apesar da ausência de um Czar para guiar a resistência russa.

O povo russo bem que poderia se inspirar nas duas datas favoritas das autoridades para se livrar de seu atual czar, figura querida por forças de extrema-direita no mundo todo.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Quando não há recuos porque não houve avanços

Desde a posse do governo golpista, a sucessão de retrocessos sociais e políticos acelerou fortemente. As poucas conquistas populares que não eram letra morta na legislação estão sendo eliminadas.

O conservadorismo atinge com rapidez e violência quase inédita todas as frentes de luta: trabalhista, ambiental, feminista, antirracista, sexual, educacional, agrária, indígena e direitos humanos em geral. Mas há uma exceção importante. A democratização dos meios de comunicação.   

Em 21/11, A organização Repórteres Sem Fronteiras e o coletivo Intervozes apresentaram o relatório “Monitoramento da Propriedade da Mídia no Brasil”. O levantamento envolveu os 50 veículos de comunicação com maior audiência no Brasil e os 26 grupos econômicos que os controlam.

Apenas um dos dados ajuda a entender todo o resto e mais além: 80% dos grandes grupos de mídia estão localizados nas regiões Sul e Sudeste do país. E a região metropolitana de São Paulo abriga 73% das empresas do Sudeste.

Toda essa concentração coincide e faz parte da concentração de poder econômico, político e social do país. Os mesmos grupos não apenas asseguram a defesa de seus interesses pelos Três Poderes. Eles também as justificam pelos meios de comunicação que controlam tranquilamente há muitas décadas.

É a maior prova de que o monopólio dos meios de comunicação é um pilar fundamental da dominação capitalista, em especial no Brasil. É a disputa de hegemonia feita de forma tão eficiente que faz parecer que o direito a informação é o único a se manter firme frente à atual onda conservadora.

Realmente, não há recuo possível se não houve avanço algum. Parabéns aos envolvidos. Parabéns para nós!

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A luta de Marx contra a burguesia e seus furúnculos


Marx levou 15 anos para escrever o primeiro volume de “O Capital”. Principalmente, devido a seu perfeccionismo doentio e à complexidade do objeto de estudo.

Mas nos quatro ou cinco anos antes da publicação, surgiu um problema muito pior: furúnculos. E também carbúnculos, que são aglomerados de furúnculos.

O problema era tão grave que aparece com muita frequência em sua correspondência entre 1864 e 1868. Incluindo momentos em que sua vida correu risco.

Em carta a Karl Klings, de outubro de 1864, por exemplo, ele diz que ficou doente durante todo o ano anterior devido às terríveis feridas.

Se não fosse por isso, diz Marx, meu trabalho sobre economia política, "O Capital", já teria saído. Espero poder completá-lo em alguns meses, atingindo a burguesia com um golpe teórico do qual nunca poderá se recuperar.

Em fevereiro de 1865, Engels escreveu:

Estou um pouco preocupado por não tido notícias suas hoje, em vista dos furúnculos e carbúnculos que você mencionou nos lugares mais interessantes (ou melhor, mais interessados).

Escrevendo a Engels, um ano depois, Marx informa que ele mesmo tomou a iniciativa de lancetar uma das feridas, já que não poderia “permitir aos médicos que lidassem com minhas partes mais privadas ou suas vizinhanças”.

Finalmente, em junho de 1867, o primeiro volume estava pronto. E feliz com a aprovação de Engels, Marx escreveu:

Que você tenha ficado satisfeito é agora mais importante para mim do que qualquer coisa que o resto do mundo possa achar. De qualquer forma, espero que a burguesia se lembre dos meus carbúnculos até o dia de sua morte.

Que assim seja!

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A vodca como força política

Em seu livro “O Ano I da Revolução Soviética”, Victor Serge dá destaque à questão do alcoolismo no início do período revolucionário.

Por um curto período, a contrarrevolução certamente imaginou que havia descoberto sua arma mais letal sob a forma do alcoolismo. O plano assustador, concebido em círculos clandestinos e que pretendia afogar a revolução na bebida antes de afogá-la em sangue transformando-a num tumulto de multidões bêbadas, chegou a ser executado seriamente. Em Petrogrado havia adegas fartamente abastecidas com vinho e lojas repletas de licores finos. A idéia de saqueá-las logo surgiria na multidão – mais exatamente, foi incentivada. Grupos frenéticos passaram a invadir as adegas de palácios, restaurantes e hotéis. Era uma loucura contagiosa. Tropas de guardas vermelhos, marinheiros e revolucionários foram destacadas especialmente para combater este perigo.

Em 2 de dezembro, foi preciso criar, em Petrogrado, uma Comissão Extraordinária Especial com plenos poderes para combater a praga. Foram impostas medidas draconianas: saqueadores de depósitos de vinho foram fuzilados sem vacilação. Em um discurso no soviete, Trotsky observou:

“A vodca é uma força política tanto quanto a palavra. É a palavra revolucionária que leva os homens a lutar contra seus opressores. Se não conseguirmos barrar o caminho que leva aos excessos na bebida, tudo o que restará para nossa defesa serão carros blindados sem tripulantes. Lembrem-se: cada dia de embriaguez aproxima o outro lado da vitória e da velha escravidão”.

“Em uma semana, o mal estaria sob controle”, diz Serge. Mas o alcoolismo jamais deixou de ser epidêmico na Rússia, antes, durante e após o período soviético. Talvez, nem sempre tenha sido tão contrarrevolucionário.

Leia também: A Revolução Russa traída pelos reformistas alemães

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Dora Avante e a “vã guarda” fã de Putin


“Recebo outra carta da ravissante Dora Avante”, escreve Luis Fernando Verissimo, introduzindo mais uma de suas inesquecíveis personagens.

Também conhecida como Dorinha, entre suas ousadias estaria o fato de ter sido “a primeira a usar um tapa-sexo cravejado no Municipal, na sua fantasia de Catarina da Rússia na Intimidade, embora diga que ainda não era nascida na ocasião”.

Além disso, Dorinha lidera as “Socialaites Socialistas”, que lutam pela “implantação no Brasil do socialismo soviético na sua fase mais avançada, que é a restauração do czarismo”.

Por falar nisso, em pleno centenário da Revolução Russa, importante lembrar que o czar destronado em outubro de 1917 foi canonizado em 2000 pela Igreja Ortodoxa Russa.

O homem foi responsável pela morte de 3 milhões de pessoas nos três anos em que a Rússia lutou na Primeira Guerra. Matança interrompida pela ascensão dos bolcheviques ao poder. Mas isso não importa para as altas autoridades religiosas russas.

Já o presidente Vladimir Putin deu sua contribuição igualando o último czar e outros imperadores russos aos líderes da burocracia soviética.

Quanto à comemoração dos cem anos da Revolução Bolchevique, muita discrição. Revoluções são eventos sem controle e Putin prefere o controle autoritário que aprendeu a manejar quando era chefe da KGB.

Enquanto isso, aqui, muita gente boa da esquerda nacional admira o presidente russo por suas posições pretensamente antiamericanas, ignorando a amizade que nutre por ninguém menos que Donald Trump.

Sim, Dorinha deve estar realmente ravissante (seja lá o que for isso). Afinal, são muitas as adesões a suas “Socialaites Socialistas” na “vã guarda” da esquerda brasileira. 

Leia também: Dicas (pouco animadoras) para ler “O Capital”