quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Em 1905, uma revolta ortográfica na Rússia

Foi na Revolução Russa de 1905 que surgiram muitos dos elementos que tornariam possível a vitória que viria 12 anos depois. Entre eles, os sovietes. Mas um episódio curioso mostra como uma determinada época pode criar oportunidades revolucionárias onde menos se espera.

Abaixo, um trecho do livro “October, The Story of the Russian Revolution”, de China Miéville, ainda sem tradução:

Em Moscou, em outubro de 1905, uma questão de pontuação desencadeia o ato final do ano revolucionário. Os tipógrafos da cidade são remunerados por letra impressa. Mas, na editora Sytin, eles passam a exigir pagamento por pontuação. Uma revolta ortográfica que provoca uma onda de greves de apoio. Padeiros e ferroviários se juntam, alguns bancários também. Dançarinos do Ballet Imperial se recusam a atuar. Fábricas e lojas fecham, os bondes permanecem imóveis, os advogados recusam os casos, os jurados negam-se a sentenciar. A produção permanece imóvel nas ferrovias, os nervos de ferro do país congelados. Um milhão de soldados estão encalhados na Manchúria. Os grevistas exigem pensões e salários dignos, eleições livres, anistia para presos políticos e, novamente, um órgão representativo: uma Assembléia Constituinte.

Grande parte das exigências só seria atendida mais de uma década depois. Mas em episódios como o descrito acima, o rascunho geral foi sendo escrito. Foram necessárias muitas revisões antes de a edição final sair dos prelos. E mesmo esta continua a receber inúmeras erratas e a exigir edições menos presas a certos academicismos embolorados. Porque as impressoras da História nunca param. Para o bem e para o mal.

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