quinta-feira, 30 de junho de 2016

A saída é política, não institucional

Vamos dar uma breve olhada no mundo da política oficial em várias partes do planeta.

O Brexit jogou os dois principais partidos britânicos em uma aguda crise. Conservadores e trabalhistas, velhos rivais eleitorais, querem ver seus respectivos líderes pelas costas.

As eleições estadunidenses estão polarizadas não apenas entre o republicano Donald Trump e a democrata Hillary Clinton, mas entre Hillary e o também democrata, Bernie Sanders.

Alex Tsipras foi eleito primeiro-ministro grego para dar um basta à austeridade econômica imposta pela União Europeia (UE). Uma vez empossado, passou a dizer amém à UE e adeus a sua militância.

Na Espanha, o Podemos buscou votos propagandeando o “socialismo venezuelano”. No parlamento, tenta ser “responsável” como o PT brasileiro. Não à toa, patina nos gabinetes e nas ruas.

Na Itália, o partido que mais cresce é o Cinco Estrelas, que afirma não ser de direita ou de esquerda. Típica definição de quem avança rumo à extrema-direita.

Os trabalhadores franceses estão em guerra contra medidas propostas por uma ministra marroquina e integrante de um governo “socialista”.

Aqui, a presidenta foi derrubada por seu vice quando tentava aplicar o programa de governo da oposição. Mas os que a derrubaram só querem acelerar a aplicação daquele mesmo programa.

Quase todas as forças políticas acima disputam a melhor maneira de chegar ou se manter no poder sem mexer na essência do modelo neoliberal.

Prometem uma vida melhor ou menos ruim para seus eleitores, aprofundando as causas mesmas que pioram a vida deles.

A saída continua sendo política, mas a democracia institucional foi sequestrada pela ditadura econômica neoliberal.

Leia também: O Brexit e a revolta dos gatos magros

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Nas plantações, feijão é assunto do momento

“As plantas podem ver e cheirar”, disse o geneticista israelense Daniel Chamovitz, em entrevista ao Globo, publicada em 28/06.

Quando, por exemplo, “uma árvore está sendo atacada por uma praga, afirma Chamovitz, a árvore vizinha vai sentir e, assim, pode preparar seus componentes químicos para lutar contra os invasores”.

Também é possível que “um galho da árvore atacada esteja falando com outro”, e uma planta próxima esteja “só pegando a conversa”, garante o entrevistado.

Neste caso, podemos imaginar qual seria o tema das conversas entre dois pés de soja, hoje em dia:

- Você viu como aumentou o preço do feijão?
- Sim. Mais de 16%, segundo o IPCA-15.
- Foram as safras. A primeira caiu 14% e a segunda, 21%.
- Não foi só isso. A área plantada vem despencando. Em 2014, a área plantada foi 2 milhões de hectares menor que em 1995. E adivinha o que foi plantado no lugar do feijão?
- Essa é fácil. Fomos nós, né?
- Nós, mais milho e cana. Recebemos todos juntos 73% dos recursos dos programas governamentais para a safra 2015/2016. Enquanto isso, arroz, mandioca e feijão receberam só 5%.
- Mas calma. O governo vai importar feijão da Argentina, Bolívia e Uruguai. E, talvez, até do México e da China. Afinal, quem está no Ministério da Agricultura é o Blairo Maggi.
- Sim. Ele não é nosso rei à toa. Há décadas, manda e desmanda na agricultura do País.
- Pra nós, tá tudo bem. O resto é que tá na mer...
- Opa, lá vem a colheitadeira! Adeus!
- Ade...

Obs.: Os números acima estão na reportagem de Nadine Nascimento, publicada no portal do MST, em 27/06.

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terça-feira, 28 de junho de 2016

Aí vem a tocha. Aqui vão os baldes

Alguns dados para saber como andam as finanças públicas cariocas, enquanto esperamos as Olímpiadas. São informações divulgadas por Luiz Alfredo Salomão e Antonio Carlos Barbosa em artigo publicado no Globo, em 22/06.

Primeiramente, o artigo diz que o déficit das contas municipais previsto para 2016 deve dobrar em relação ao de 2015. Por que? Devido às diversas Parcerias-Público-Privadas “celebradas com as empreiteiras, que cartelizaram as grandes obras públicas na cidade”, dizem os autores.

Nas obras do Porto Maravilha, por exemplo, dois consórcios estão envolvidos. Ambos controlados pelas empresas Odebrecht, OAS e Carioca.

O consórcio para construção do VLT é controlado por Odebrecht, OAS/Invepar, CCR e RioPar. Sendo que a CCR é da Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e da Soares Penido. Outro detalhe: a RioPar é controlada pela Fetranspor (empresas de ônibus).

O Parque Olímpico foi construído pela Parque Rio e vai ser operado depois dos Jogos pela Rio Mais. Ambas controladas por Odebrecht, Andrade Gutierrez e Carvalho Hosken.

Os BRTs TransOeste, TransCarioca, TransOlímpica e TransBrasil vão custar mais de R$ 5 bilhões, cujas fatias serão distribuídas entre Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Carioca. As empresas de ônibus, organizadas em consórcios, administram as estações e operam os serviços.

Finalmente, a construção de 136 Escolas do Amanhã, pela bagatela de R$ 1,2 bilhão, foi distribuída por Odebrecht, OAS, Carioca Engenharia e Construtora Zadar.

Dadas as informações, lembremos, finalmente, que quase todas essas empresas estão tão sujas que nenhum lava-jato daria jeito.

Mas sempre podemos fazer bom uso de alguns baldes para, pelo menos, garantir que a tocha olímpica fique bem limpinha.

Leia também: Jesse Owens contra o racismo

domingo, 26 de junho de 2016

O Brexit e a revolta dos gatos magros

Em 05/01, João Pedro Caleiro descreveu a desigualdade de renda entre os britânicos no portal “Exame.com”:

Até o final da primeira terça-feira de 2016, os maiores executivos do Reino Unido terão ganhado mais dinheiro do que o trabalhador britânico típico em um ano inteiro.

Esta situação, certamente, ajuda a esclarecer o que está por trás da saída do Reino Unido da União Europeia (UE), decidida em referendo popular.

É verdade que racismo, conservadorismo e xenofobia contribuíram para a decisão. Mas foram os efeitos de uma crise econômica que poupa apenas uma pequena minoria que os turbinou. Principalmente, porque muitos enxergam no autoritarismo econômico da cúpula europeia as raízes de tanta injustiça social.

A vitória do chamado Brexit (Bretanha + exit) assusta a esquerda, claro. Mas aos neoliberais também. E o que os preocupa não é o avanço da extrema-direita. São as brechas que a decisão abriu na armadura econômica neoliberal.

O ultraliberal David Cameron só convocou o referendo para se manter na liderança de seu partido. Ou seja, o problema surgiu na esfera política. Um domínio que os neoliberais só respeitam desde que sua vontade nunca seja desrespeitada.

A cúpula da UE deu uma banana para o referendo em que o povo grego se rebelou contra suas exigências de austeridade econômica. Não fará o mesmo com a consulta popular britânica. Essas contradições podem contribuir para abalar os automatismos econômicos neoliberais.

Aquela primeira terça-feira do ano é conhecida na Inglaterra como o Dia do Gato Gordo. Uma referência popular aos muito ricos. O bichano continua obeso. Mas, certamente, está assustado com a inquietação entre os gatos magros.

sábado, 25 de junho de 2016

Jesse Owens contra o racismo

O filme “Raça” conta a lendária participação de Jesse Owens nas Olimpíadas de Berlim. A produção não é nenhuma grande obra de arte, mas vale a pena ser assistido.

Era 1936 e a Alemanha estava sob domínio de Hitler. Os Jogos seriam a oportunidade para comprovar a suposta superioridade da “raça ariana” também nos esportes.

O velocista negro estadunidense se encarregaria de estragar a festa nazista com quatro medalhas de ouro.

Em uma das cenas, um atleta alemão descreve para Owens a perseguição racista sofrida pelos judeus em seu país. O atleta americano não parece ficar muito surpreso. Afinal, grande parte de seus compatriotas negros passava por situação semelhante nos Estados Unidos.

O filme mostra a recusa de Hitler em cumprimentar o campeão negro. Mas a mágoa de Owens era outra. De Hitler, ele não podia esperar nada, mas “Roosevelt nem sequer me mandou um telegrama", teria dito.

Outra cena confirma essa condição humilhante. De volta a seu país, Owens e sua esposa tiveram que entrar pelos fundos no jantar realizado em sua própria homenagem. E o atleta morreria pobre e esquecido.

Mas o filme de Hopkins também esqueceu outros 18 atletas negros americanos presentes nos mesmos jogos. Todos medalhistas. É o que revela Flávia Oliveira em sua coluna do Globo de 16/06. Segundo o texto, essa história está contada no documentário “Orgulho olímpico, preconceito americano”, ainda inédito no Brasil.

Na época das olimpíadas alemãs, o Brasil começava a ser visto como campeão da democracia racial. Oitenta anos depois, nosso único campeonato garantido é o da violência contra pobres e trabalhadores. A grande maioria, negra.

Leia também:
Olimpíadas, racismo e direitos humanos

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Contra a União Europeia, o internacionalismo dos explorados

Acontece hoje um importante referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. A consulta opõe forças políticas radicalmente favoráveis e contrárias. Mas a confusão é grande.

Os trabalhistas, maior força da esquerda moderada inglesa, são favoráveis à permanência. Assim como o conservador David Cameron, atual primeiro-ministro do país.

Por outro lado, forças de extrema-direita são contrárias, utilizando argumentos racistas e reacionários.

Mas nem todos na esquerda pensam como os trabalhistas, ao mesmo tempo em que se diferenciam da direita.

É o caso dos marxistas NeilDavidson e JosephChoonara, que apresentam análises precisas sobre a questão em dois bons artigos, infelizmente, ainda sem tradução.

Basicamente, eles argumentam que a União Europeia não passa de um arranjo neoliberal governado de modo antidemocrático.

Por um lado, trata-se de uma região unificada através do poder econômico. Mais especialmente, em torno do capital alemão, cujos interesses são defendidos a ferro e fogo pela cúpula da UE sediada em Bruxelas.

Uma prova disso é a situação calamitosa da Grécia. À recusa do plebiscito grego às imposições econômicas da UE, Bruxelas respondeu que não se dobra a decisões políticas. A não ser que elas sejam tomadas em Berlim, faltou acrescentar.

Quanto ao argumento de que votar pela saída significa piorar a situação dos imigrantes, basta lembrar as dezenas de milhares de refugiados barrados nas fronteiras da UE diariamente.

Por estas e outras, apoiar o voto pela saída é a postura mais coerente em relação aos interesses dos explorados e oprimidos da região. A estes só pode interessar o internacionalismo dos trabalhadores contra a globalização do capital.

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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Secundaristas, repressão terceirizada e autodefesa

O portal "Outras Palavras" traz um excelente balanço da onda de ocupações de escolas públicas por secundaristas em vários estados. O texto de Douglas Oliveira foi publicado em 21/06.

Em geral, as ocupações lutam contra projetos de reestruturação escolar que implicam fechamento de escolas, diminuição de vagas e entrega da gestão a Organizações Sociais. Estas últimas, importante lembrar, principais responsáveis pela falência do sistema de saúde no Rio de Janeiro.

O balanço das ações é positivo. No Rio, a maior conquista é a realização de eleições diretas para diretores nos colégios ocupados. Em São Paulo, o governo recuou da reestruturação escolar, ainda que informalmente, e foi obrigado a aceitar a criação de uma CPI sobre irregularidades no fornecimento de merenda escolar.

Mas é bastante preocupante o que o texto chamou de “violência terceirizada”. À pesada repressão policial soma-se a ação de milícias civis de direita ilegais e com o apoio de governos e empresários.

No bairro carioca do Méier, por exemplo, secundaristas foram vítimas de repressão policial por integrantes de um convênio entre a PM e a associação comercial local. Em São Paulo, movimentos de desocupação patrocinados pelo governo cometem atos violentos contra os ocupantes diante de policiais que nada fazem para impedir.

O texto lembra um dos casos mais terríveis de repressão terceirizada. Aconteceu há menos de dois anos, no México, quando o governador do estado de Guerrero entregou a vida de 43 estudantes ao crime organizado.

São práticas fascistas que precisam ser combatidas sem vacilações. Os movimentos sociais jamais terão condições de enfrentar militarmente essas ameaças, mas a adoção de medidas de autodefesa é urgente.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Sobre automóveis, salsichas e canhões

Que a Volkswagen fabrica automóveis é público e notório. Mas poucos sabem que, desde 2015, ela produz mais salsichas do que carros.

Certamente, isso mostra toda a gravidade da crise do capitalismo atual. Com empregos despencando e consumo idem, vender salsicha no lugar de carros é, sem dúvida, bem mais lucrativo.

Já a General Motors encontrou outro caminho para manter sua rentabilidade. É o que mostra matéria de Leslie Chaves publicada na IHU-Online, em 20/06, sobre palestra de Marcelo Milan, professor de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo o texto:

A montadora criou um banco para facilitar a negociação com os clientes, aumentando a possibilidade de oferecer crédito para as pessoas interessadas em adquirir carros. Entretanto, essa instituição financeira passa a participar do mercado financeiro cada vez mais, ampliando sua atuação e seus lucros e a montadora percebe que é mais vantajoso trabalhar com operações financeiras do que vender veículos. O resultado é a redução de investimentos em produção.

Produção menor implica menos empregos, consumo baixo, menos vendas. Inclusive as de salsichas da montadora concorrente. Uma situação que só comprova a atual situação de completa irracionalidade do capitalismo.

Afinal, como diz Milan, “não podemos comer títulos financeiros, vestir um CDB ou alugar uma caderneta de poupança para morar!”

Por outro lado, a produção da indústria armamentista continua a todo vapor. Se canhões não foram feitos para comer, não falta quem os utilize para eliminar os milhões de bocas famintas pelo mundo.

De qualquer maneira, diante das recentes fraudes da Volks na fabricação de automóveis, melhor evitar suas salsichas também.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Calamidade pública são os governos

O governo fluminense acaba de declarar estado de calamidade pública. Segundo a legislação, esse tipo de situação caracteriza-se pela ocorrência de desastres que causam problemas graves demais para que o poder local os resolva por conta própria.

O texto da medida fala em "total colapso na segurança pública, na saúde, na educação, na mobilidade e na gestão ambiental". Mas também autoriza as “autoridades competentes” a adotar “medidas excepcionais necessárias à racionalização de todos os serviços públicos essenciais, com vistas à realização dos Jogos”.

Ou seja, a prioridade é um megaevento que, diziam, seria financiado quase totalmente por capital privado.

Mas não só aconteceu o contrário, como o estado do Rio de Janeiro deixou de arrecadar R$ 138 bilhões entre 2008 e 2013 com isenções fiscais que beneficiaram algumas poucas grandes empresas. Valor suficiente para pagar os salários atrasados dos servidores estaduais, com sobra para mais quatro anos.

Toda essa dinheirama, no entanto, não impediu que o estado encerrasse 2015 como vice-campeão nacional em desemprego. Este, sim, uma verdadeira calamidade pública e nacional. No primeiro trimestre deste ano, o IBGE registrou 11 milhões de desempregados no País.

Pelo decreto federal sobre calamidades públicas, o termo "desastres" se refere a "eventos adversos, naturais ou provocados que causem danos humanos, materiais e ambientais”. Diante disso, muitos especialistas alegam que a medida seria ilegal no caso do Rio de Janeiro.

Mas sejamos justos. As administrações Paes e Pezão/Dornelles, com grande auxílio do governo federal, realmente vêm causando enormes desastres sociais e ambientais, às custas de muito dinheiro público. Uma catástrofe nada natural que é pura provocação.

Leia também: No Rio de Janeiro, o alcaide gentileza

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Contra o terrorismo imperialista, nossos territórios ideológicos

“Eles fazem parte de uma comunidade imaginária”. Estas palavras são de Marc Sageman, ex-oficial de operações da CIA, publicadas pelo Globo em 16/06. Referem-se a terroristas que matam em nome do Estado Islâmico (EI) ou da Al Qaeda em vários lugares do mundo.

Seria o caso de Omar Mateen, que teria jurado lealdade ao Estado Islâmico antes de promover o massacre de Orlando.

A descrição de Sageman lembra o conceito de “comunidade imaginada”, do estudioso britânico Benedict Anderson. Para ele, as nações também podem ser consideradas comunidades imaginadas.

Afinal, a definição de fronteiras não tem nada de natural. Ao contrário, muito frequentemente são produto de relações de poder das mais violentas. A grande maioria das “nações” nasceu a partir de massacres que deixariam o EI morrendo de inveja.

É o caso da unificação do próprio território estadunidense, garantida pela matança e escravização de indígenas e negros e pelo massacre de rebeldes sociais. O mesmo pode ser dito da “nação brasileira”.

Mas, mais que comunidades imaginadas, o imperialismo é especialista em criar estados artificiais para servir a seus objetivos. É o caso de Israel, Iraque, Jordânia e Palestina. Todos criados por razões geopolíticas alheias aos interesses de seus povos.

Foi assim que a maior região petrolífera do mundo se tornou também cenário das piores carnificinas. A grande maioria delas feita a mando dos poderes imperiais, tendo o estado israelense à frente.

São estas entidades abstratas que promovem matanças muito concretas e dolorosas pelo planeta. Contra elas, precisamos continuar construindo, defendendo e ampliando nossos territórios ideológicos, em cujas fronteiras só cabem os explorados e oprimidos do mundo.

Leia também: A Primeira Guerra na raiz das guerras do Oriente Médio

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Mãe, só tem uma. Ou duas. Ou dez...

Uma das funções das Ciências Sociais é desmascarar a naturalidade e a fixidez da vida social. Nada nas relações humanas é necessário e imutável. Tudo é produto das ações humanas. Portanto, está ao nosso alcance mudar as condições que criam situações de injustiça social.

É por isso que as Ciências Sociais costumam ser tão antipáticas aos poderosos.

A ideia de maternidade natural, por exemplo, parece algo incontestável. Mas não é. É o que mostra o artigo "Conceito de mãe é amplo para indígenas", de Izabel Santos, publicado no portal Amazônia.

O texto cita o antropólogo da Universidade Federal do Amazonas, Carlos Machado. Segundo ele, "a ideia de mãe” é mais nossa que dos indígenas. Para muitos desses povos, a mãe é uma figura difusa. Existe a gestação, o nascimento, o aleitamento, claro. Mas passada estas fases, as funções maternas vão além da genitora.

Machado afirma que o papel da mãe:

...é quase uma coisa genérica. Para se ter uma ideia, em alguns povos, o termo usado para mãe é o mesmo usado para a irmã da mãe. Assim, se a criança tiver nove tias, na verdade ela tem dez mães.

Mas isso seria melhor ou pior que nossa tradição parental? Depende. Em geral, nossa sociedade individualiza a função materna nas mulheres para transformá-las em “escravas do lar”, acorrentadas a uma pretensa vocação natural para a procriação.

É uma das principais justificativas não apenas para a imposição de jornadas de trabalho exaustivas às mulheres, mas para todo tipo de violência física e simbólica. É preciso ser mãe amorosa, profissional exemplar, bonita e feliz. Padecer, só no paraíso.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Fora Temer, sim. Mas é pouco

Primeiramente, Fora Temer!

Em 13/06, Laura Carvalho publicou na Folha “A plutocracia não cabe no Orçamento”, mostrando as consequências da proposta de “Temer-Meirelles”, que prevê o reajuste das despesas do governo federal pela inflação do ano anterior:

Se vigorasse no ano passado, e outros gastos não sofressem redução real, as despesas com saúde teriam sido reduzidas em 32% e os gastos com educação em 70% em 2015. Pior. Se o PIB brasileiro crescer nos próximos 20 anos no ritmo dos anos 1980 e 1990, passaríamos de um percentual de gastos públicos em relação ao PIB da ordem de 40% para 25%, patamar semelhante ao verificado em Burkina Faso ou no Afeganistão. E se crescêssemos às taxas mais altas que vigoraram nos anos 2000, o percentual seria ainda menor, da ordem de 19%, o que nos aproximaria de países como o Camboja e Camarões.

Ainda segundo Laura:

... as propostas do governo interino não incluem nenhum imposto a mais para os mais ricos, mas preveem muitos direitos a menos para os demais. Os magistrados conseguem reajuste de seus supersalários, mas a aposentadoria para os trabalhadores rurais é tratada como rombo (...). O pagamento de juros escorchantes sobre a dívida pública não é sequer discutido, mas as despesas com os sistemas de saúde e educação são tratadas como responsáveis pela falta de margem de manobra para a política fiscal.

Este violento ajuste neoliberal mostra que razões para combater o governo interino não faltam. Resta saber se expulsando Temer-Meirelles pela porta da frente, não voltam pelos fundos outras duplas semelhantes. Incluindo a velha parceria Lula-Meirelles.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sobre bichas e armas

“Suas bichas, vou atirar em vocês!". Esta frase não está relacionada ao recente massacre ocorrido em uma boate gay, em Orlando, Estados Unidos. Foi berrada em Recife e se dirigia ao publicitário Marlon Parente e um grupo de amigos.

O episódio levou Parente a juntar seis amigos homossexuais para produzir "Bichas, o documentário". Concluído em tempo recorde e custo zero, o vídeo está disponível no youtube e já alcançou 490 mil visualizações.

O documentário permite conhecer uma pequena, mas importante, parte dos conflitos que envolvem a subjetividade homoerótica. Principalmente, o preconceito e a violência física e simbólica que a cercam.

É o tipo de produção que deveria ser amplamente divulgada pelos meios de comunicação. No lugar dos casais gays bonitos e ricos das telenovelas, um pouco da realidade massacrante do país que é campeão mundial de violência homofóbica.

Mas a matança que vitimou pelo menos 50 pessoas em Orlando tem servido de pretexto para tudo, menos para a discussão da condição homossexual.

Não faltam descrições detalhadas das armas utilizadas pelo assassino e da biografia do assassino. Sem falar em debates vazios sobre controle de armamentos.

Não à toa, já começam a dizer que o próprio assassino era homossexual, transformando tudo em um drama restrito ao “mundo doentio dos gays".

Enquanto isso, a programação de TVs e rádios espalha diariamente preconceitos que reforçam a homofobia e as estruturas policial e judiciária só sabem punir ainda mais suas vítimas.

Entre bichas e armas, os aparelhos de dominação públicos e privados perseguem e ridicularizam as primeiras para torná-las alvos fáceis das últimas. Orlando também é aqui.

Leia também: Homofobia e fotossíntese no inferno

segunda-feira, 13 de junho de 2016

As raízes capitalistas da possível crise chinesa

A economia da China está à beira de um pouso forçado. A situação, que vem sendo adiada desde a primeira década deste século graças à criação de bolhas no mercado imobiliário e financeiro, é agora inevitável devido a todos os problemas estruturais que se acumulam há uns dez anos.

A afirmação acima é de Mylène Gaulard, mestre em ciências econômicas da Universidade Pierre Mendès France, em Grenoble, França. Está na entrevista "O pouso forçado da China é inevitável", publicada em francês no portal “La Tribune”, em 16/01.

Especialista na economia do gigante asiático, Mylène tem como referência teórica o marxismo. Mas o pessimismo dela quanto à economia chinesa também é compartilhado por setores conservadores.

É o caso do jornal O Globo, que, em editorial publicado em 11/06, afirma que “a imprevisibilidade dos efeitos de uma crise generalizada” na China representa um “verdadeiro terror, para o país e o mundo”.

Mylène também é autora do livro “Karl Marx à Pékin – Les racines de la crise en Chine capitaliste” (“Karl Marx em Pequim - As raízes da crise na China capitalista”), ainda sem edição em português.

E é exatamente disso que se trata. As raízes dessa hecatombe muito provável para a economia mundial não têm nada a ver com o suposto comunismo chinês. E de socialismo, mesmo, só aquele que distribui fartamente os prejuízos aos pobres e explorados. Igualzinho ao capitalismo.

Leia também: A China, as coisas e suas sombras

quinta-feira, 9 de junho de 2016

As raízes femininas do blues

R. Crumb
Cerca de 75% dos sucessos do período clássico do blues foram compostos e interpretados por mulheres. A surpreendente informação está no artigo “A luta das mulheres no blues em sua era clássica”, de Tonny Araújo, publicado no site “Música e Sociedade”.

Ou seja, o blues não nasceu apenas negro, mas feminino.

Segundo Araújo, o pianista Jelly Roll Morton afirmou, por exemplo, que o primeiro blues que ouviu quando criança foi tocado por Mamie Desdunes, pianista e violonista que se apresentava principalmente em bares no final do século 19.

Na mesma época, a trombonista Netti Goff, “tocava de maneira espetacular em uma companhia de menestréis”. Antes dela, Della Sutton, outra trombonista, teria sido “a primeira mulher a tocar o instrumento em Nova Orleans”.

Marge Creath Singleton, por sua vez, tocava nos famosos barcos a vapor que atravessavam os mais diferentes cantos do país.

Já a guitarrista Lizzie Douglas, mais conhecida nos prostíbulos como Memphis Minnie, diz o artigo, encarava “as incertezas de uma dura vida nômade por meio de circos e caravanas”.

Além de Minnie, muitas outras só achavam espaço para tocar nos bordéis. É o caso de Lulu White, Josie Arlington, Bertha Wenthal e Gypsy Schaeffer.

Todas elas enfrentaram a hostilidade de ambientes majoritariamente masculinos. Lugares em que o assédio sexual dos homens em geral era grande, agravado pelo racismo dos brancos.

Araújo encerra seu artigo dizendo que sem essas talentosas mulheres, “o blues talvez nunca teria saído das plantações”. Mais que isso, é provável que tenham sido elas as responsáveis por iluminar os primeiros caminhos para a música negra em meio às trevas do racismo.

Acesse o texto aqui.

Leia também: A música negra olha para a luz

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Corrupção e moralidade burguesa

Em 22/05, Erica Fraga publicou “Estudos revelam como a corrupção prospera e funciona”, na Folha. A matéria apresenta resultados de diversos estudos sobre corrupção feitos no Brasil e no exterior.

No caso brasileiro, destacam-se dois levantamentos. O primeiro, dos pesquisadores da FGV-Rio, Carlos Pereira, Lucia Barros e Rafael Goldszmidt, realizada entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial de 2014.

Um grupo escolheu entre dois candidatos fictícios em um segundo turno eleitoral. Um deles com um perfil mais à direita. O outro, mais à esquerda. Definidos os votos, foi revelado que o candidato escolhido era corrupto. Houve uma tendência maior à manutenção do voto entre os eleitores de direita.

O outro estudo foi feito por Miguel Figueiredo, Daniel Hidalgo e Yuri Kasahara durante as eleições municipais de São Paulo, em 2012. Concorriam Gilberto Kassab, identificado com a direita, e Marta Suplicy, tida como de esquerda. Ambos foram denunciados por corrupção, mas somente Marta perdeu votos do grupo pesquisado por causa disso.

As conclusões mostram o que Marx e Engels já denunciavam em “A ideologia alemã”, no século 19. Referindo-se à “atitude do burguês para com as instituições de seu regime”, os autores afirmam que:

...ele as transgride sempre que isso é possível em cada caso particular, mas quer que todos os outros as observem (...). Essa relação do burguês com suas condições de existência adquire uma de suas formas universais na moralidade burguesa.

Mas cuidado. Trata-se de uma lógica social. O que nos torna todos um pouco burgueses, um pouco canalhas é o sistema do capital. É ele o principal alvo de nosso combate.

Leia também: Não é corrupção

Robotização e mal-estar social

Recentemente, a Suíça tentou aprovar uma remuneração mensal de R$ 9 mil para todos os seus cidadãos sem exigir qualquer trabalho ou outra contrapartida. Levada a plebiscito, porém, a proposta foi rejeitada.

Condições objetivas não faltariam. Com uma renda per capita de R$ 211 mil anuais e taxa de desemprego inferior a 4%, o país teria como viabilizar essa “utopia”, dizem os defensores da proposta.

Entre os vários argumentos favoráveis à proposta, está a crescente separação entre trabalho e renda provocada pela substituição da força de trabalho humana por tecnologias automatizadas.

"Robôs absorvem cada vez mais trabalho. É agora nosso dever reorganizar a sociedade de modo que a Revolução digital dê a todos uma vida digna...", afirma material de divulgação favorável à adoção da medida.

Mas, aí, faltou consultar o velho Marx, que em “O Capital”, escrevia há 150 anos:

...a maquinaria considerada em si reduz o tempo de trabalho, ao passo que aplicada capitalisticamente prolonga a jornada de trabalho, em si facilita o trabalho, mas aplicada capitalisticamente aumenta sua intensidade, em si representa uma vitória do homem sobre a força da natureza, mas aplicada capitalisticamente põe o homem debaixo do jugo da força da natureza, em si aumenta a riqueza do produtor, mas aplicada capitalisticamente o pauperiza...

Aplicar “capitalisticamente” significa manter a propriedade e o controle de processos produtivos globais inteiros nas mãos de uma minoria cada vez menor. Uma lógica incompatível com distribuição de riqueza, mesmo numa ilha de bem-estar como a Suíça. 

Para o capitalismo, o avanço tecnológico só serve para aumentar a exploração e o mal-estar social.

Leia também: Apendicite tecnológica

terça-feira, 7 de junho de 2016

A dieta sem graça do velociraptor

Imagine um drone equipado com uma câmera sobrevoando a Europa na Idade Média. Mais especificamente, focalizando uma típica família camponesa na hora da refeição. O que ela mostraria sobre a mesa seria mingau de trigo. Sem sal, sem cor, sem graça.

Agora, o drone se desloca rapidamente pelo Oceano Atlântico. Chega ao que é hoje a Amazônia brasileira, num lugar chamado Hatahara. Trata-se de um complexo de aldeias com 20 hectares de área total, que existiu entre os séculos 8 e 13.

O local é um exemplo do que Reinaldo José Lopes chamou de “A civilização do pescado”, em artigo publicado na Folha, em 22/05. O texto refere-se a descobertas de uma equipe de arqueólogos coordenados por Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.

Ele e seus colegas descobriram que a dieta dos habitantes locais era composta por 36 tipos de peixes, além de tartarugas, jacarés e sucuris. Uma comunidade capaz de explorar ao máximo os recursos fluviais, sem comprometer sua sustentabilidade, diz o artigo.

Por fim, o drone voltaria aos nossos dias para mostrar nossas mesas. Certamente, as imagens revelariam uma alimentação cuja diversidade deve-se apenas às embalagens. No interior delas, uma ração cada vez mais baseada em milho e soja transgênicos, impregnada de agrotóxicos e outras químicas.

Não à toa, aquela comida sem graça ou sal predominava num lugar que viria a parir o capitalismo. A Europa do mingau tornou-se uma civilização em que impera a dieta insossa do velociraptor neoliberal, símbolo de uma humanidade tão especializada e eficiente quanto cultural e mentalmente desnutrida.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O ferrão da borboleta na luta contra o racismo

"Flutuar como uma borboleta. Picar como uma abelha". Era assim que Muhammad Ali definia sua vitoriosa forma de lutar boxe.

Nascido Cassius Clay em 1942, trocou de nome para afirmar sua fé no islamismo e abandonar o nome de escravo, tal como fez seu amigo e ídolo, Malcolm Littel, ou Malcolm X.

Ao recusar o alistamento para a Guerra do Vietnã, Ali afirmou:

...o real inimigo do meu povo está aqui. Eu não vou desonrar minha religião, meu povo ou a mim mesmo ao me tornar uma ferramenta para escravizar aqueles que estão lutando por sua própria justiça, liberdade, igualdade (...). Eles dizem que vou para a cadeia. E daí? Nós estamos na cadeia por 400 anos.

Como punição, teve seu título de campeão mundial cassado e ficou impedido de lutar por três anos.

Quando foi impedido de comer em uma lanchonete por causa da cor de sua pele, Ali atirou no Rio Ohio a medalha de ouro conquistada nas Olimpíadas de Roma, em 1960.

Em 1974, recuperou o título enfrentando George Foreman, em lendária luta no Zaire. Ali era uma celebridade mundial, mas misturou-se ao povo local, percorrendo principalmente seus bairros pobres. Enquanto isso, Foreman, negro como ele, mantinha distância.

Durante o combate, o povo gritava “Ali, boma ye” (“Ali, mata ele!”). Mas o alvo principal não era Foreman. Era a ditadura que dominava o país e o racismo armado e sustentado pelo imperialismo estadunidense, ferozmente combatido por Ali.

O grande peso-pesado levantou voo de vez. Mas antes ensinou a borboleta a picar como a abelha enquanto voa rumo à justiça e à liberdade.

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