quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Sorria, você está sendo explorada

Em 1983, Arlie Hochschild publicou “The Managed Heart: commercialization of human feelings” (“O coração gerenciado: a comercialização dos sentimentos humanos”).

O livro estuda a situação das comissárias de voo, mostrando como elas são obrigadas a administrar os próprios sentimentos no sentido de exibir apenas aqueles que interessam à companhia aérea.

O maior símbolo desse processo é o sorriso. Sua constante exibição passa a ser um “patrimônio” atribuído à trabalhadora, mas apropriado por seus patrões.

Há também o desempenho de um papel cujos polos são a atitude maternal e a erotização. Aquela que deve atender aos desejos dos passageiros como provedora solícita ou possível esposa ou amante.

Segundo esta lógica, relações impessoais devem ser vistas como sendo pessoais. Relações baseadas em troca monetária devem ser vistas como relações sem qualquer envolvimento monetário.

Não é difícil imaginar o estrago que um controle desse tipo pode causar às profissionais envolvidas. De um lado, a entrega ao desempenho do papel exigido, que pode terminar em esgotamentos nervosos. De outro, a sensação de manter uma atitude de constante fingimento e falsidade que deteriora a autoestima.

De uma ponta à outra, as trabalhadoras sofrem com a experiência de ver seus sentimentos expropriados por seus empregadores. Passam a ver sua sensibilidade subordinada às regras da produção em série.

Como essa lógica se impõe em atividades envolvendo relações com pessoas e não com coisas, ela vem se ampliando juntamente com a enorme expansão do setor de serviços verificada nas últimas décadas. E as mulheres tendem a ser suas maiores vítimas.

É mais uma, talvez a mais grave, dimensão desumanizadora do domínio do capital.

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