segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Por uma obscenidade de esquerda

Dois artigos publicados na Folha, em 04/12, pediam paciência e humildade diante das recentes manifestações de rua em defesa da Lava-Jato.

Antônio Prata dizia ser “impossível conversar com quem defende a ditadura, a tortura, a homofobia. Mas ao lado desses, hoje, estarão seu primo, seu tio, seu sogro e uma multidão de pessoas decentes...”. Se virarmos as costas a eles, afirma ele, como evitar um “Bolsonaro em 2018”?.

Rodrigo Nunes vai por caminho parecido:

A identidade de esquerda parece cobrar um preço cada vez mais alto de entrada: os requisitos práticos e teóricos são cada vez mais exigentes, e seu não cumprimento pode implicar não a tentativa de persuasão, mas o fechamento de qualquer via de diálogo.  

Os dois articulistas estão falando sobre a penosa, mas necessária, convivência com um senso comum impregnado de valores retrógados e revoltantes. Realmente, não é fácil ouvir obscenidades como a defesa da tortura, da homofobia, do racismo...

O sentido da palavra “obsceno” refere-se ao que deve ficar escondido, fora de cena. De forma alguma, aceitamos tortura, homofobia, racismo. Mas combater tais valores com ofensas é continuar no mesmo registro de obscenidades.

A defesa da livre orientação sexual ou de tratamento digno para criminosos, por exemplo, é obscena para a extrema-direita. Sem problema. Gostamos de escandalizá-la com esta nossa obscenidade e nos orgulhamos dela. Mas se a abandonarmos para trazer à cena principal nossa arrogância e hostilidade, aqueles que queremos convencer só ouvirão os fascistas.

Como diz Nunes em seu artigo, acolher os medos e anseios das pessoas pode ser um “ponto de partida para uma obscenidade de esquerda”.

2 comentários:

  1. Esta pílula tem tudo a ver com a esquerda que eu conheço. Se vc não fala de Marx, ou outra referência (dependendo do grupo onde vc está), é excluído, ignorado ou repudiado. Com esse comportamento o potencial de expansão da esquerda é muito limitado. No segundo turno na eleição no Rio de Janeiro esse limite foi muito bem visível.

    Em grupos ideológicos, incluindo os extremados, o dominante costuma ser pessoas de boa intenção. Podem ser extremamente equivocadas, e produzir o mal extremo, mas a grande maioria não tem consciência disso. A esquerda simplesmente discriminar essas pessoas como 'lixo social', sem tentar entender o contexto que levou essas pessoas a construíram esse pensamento, fecha qualquer possibilidade delas reverem suas posições.

    Na passeatas do impeachment da Dilma, tanto as a favor quanto as contra, a grande maioria é composta por gente de boa intenção, a grande maioria equivocada, embora em ambas houvessem gente de má intenção manipulando-as. Ficar simplesmente taxando essas pessoas como 'idiotas' ou 'bandidos' não constrói nada. Engraçado que quando se trata de recuperação de criminosos comuns a esquerda tenta entender o contexto que o levou a agir/pensar assim e luta para ressocializá-lo. Agora qq um que tenha pensamento de extrema direita, ou liberal, é classificado como 'lixo irrecuperável'.

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