quinta-feira, 31 de julho de 2014

A Primeira Guerra na raiz das guerras do Oriente Médio

Deborah Berlinck  e Daniela Kresch publicaram “Um Oriente Médio mal desenhado e em mudança”, no Globo, em 29/07. A matéria afirma que a desastrosa realidade atual do Oriente Médio é resultado da Primeira Guerra Mundial.

Após o conflito, os imperialismos inglês e francês esquartejaram o Império Otomano. Em seu lugar, “criaram Estados totalmente artificiais e comandados de forma arbitrária pelo Reino Unido e pela França”, diz James Barrar, entrevistado pelas jornalistas.

Barr diz, por exemplo, que os britânicos criaram o Iraque e colocaram um rei que nem era iraquiano junto com a minoria sunita para governar o país. Jordânia e Palestina também foram criadas por razões geopolíticas alheias a seus povos. E esta última padece desde que os britânicos apoiaram a criação de Israel como seu Estado-cliente.

Barr também atribui às negociações do final da Guerra os atuais conflitos na Síria, envolvendo sunitas, xiitas, alauitas, cristãos, armênios, drusos e curdos. Segundo ele, o sectarismo na Síria foi “encorajado pela França para comandar um país que não queria ser comandado por franceses”.

Mas a matéria destaca um “fato novo”. São os chamados jihadistas, que estariam formando Estado Islâmico para dominar a região sem respeitar as fronteiras traçadas pelos vencedores da Primeira Guerra.

Não há tanta novidade nisso tudo, porém. Interesses muito materiais estão por trás do fanatismo religioso dos jihadistas. Afinal, eles estão vendendo o petróleo dos territórios que ocuparam no mercado internacional. E quem estaria intermediando os negócios seria a empresa estadunidense Exxon-Mobil.

Muito pior que os fanatismos em conflito no Oriente Médio é o fundamentalismo imperialista que os fez surgir e continua a alimentá-los.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Festival de Autoritarismo que Assola o País

    Latuff
Durante a Ditadura Militar, Sérgio Porto publicou uma de suas obras mais famosas, "Febeapá, o Festival de Besteiras que Assola o País". Conhecido como Stanislaw Ponte Preta, o cronista ridiculariza em seu livro a estupidez intelectual da repressão estatal.

É o caso dos agentes do DOPS que invadiram o Teatro Municipal de São Paulo durante apresentação da peça “Electra”. Queriam prender o autor da obra, considerada subversiva. Era Sófocles, falecido em 406 a.C..

50 anos depois, episódios semelhantes envolvem a prisão de militantes políticos e manifestantes. Em um dos inquéritos apareceria como suspeito o anarquista russo Mikhail Bakunin, morto em 1876.

Entre as evidências incriminadoras encontradas nas casas dos ativistas presos, estão, por exemplo, uma bandana da banda Nirvana, camisetas com caveiras e casacos camuflados. Panfletos do movimento "Não vai ter Copa", edições das revistas "Carta Capital" e "História Viva" e agendas contendo telefones de parlamentares do PSOL também aparecem como provas.

Até um caderno com a Galinha Pintadinha na capa foi apreendido. Aparecia nele o número do celular do delegado da Polícia Civil, Orlando Zaccone.

Tal como na Ditadura, o ridículo das autoridades não alivia o peso de seus crimes. São as prisões ilegais, a tortura e, no caso dos pobres e pretos, também as execuções.

Enquanto isso, o Exército anuncia que está “remodelando” seu centro de inteligência. O objetivo? Monitorar os movimentos sociais.

Já não vivemos em um Estado de Exceção. Mas os excessos autoritários do Estado nunca cessaram e ameaçam tornar-se regra novamente.

É o Festival de Autoritarismo que Assola o País. Com enorme apoio da imprensa e generoso patrocínio dos governos.

Leia também: DOPS, DIP, PT, PSDB e outras siglas

terça-feira, 29 de julho de 2014

Primeira Guerra, reforma e revolução

  Latuff
Em 1900, Rosa Luxemburgo publicou “Reforma ou Revolução?”. Era a primeira denúncia dos riscos do reformismo no interior do movimento socialista.

Rosa inicia seu livro dizendo que opor reformas e revolução é uma das formas mais eficazes para abandonar a segunda e ficar apenas com as primeiras. Por outro lado, sem estabelecer uma relação dialética com as reformas, a revolução permanece um objetivo distante e utópico.

Portanto, não se trata de negar as lutas por reformas. São elas que colocam grandes parcelas do explorados e oprimidos em movimento. Mas é preciso mostrar que o reformismo não é apenas um caminho mais longo em direção a uma sociedade justa. É o abandono desse caminho.

Mas as consequências desastrosas do reformismo só apareceriam claramente com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Nesse momento, instalou-se uma crise entre os socialistas no mundo todo, dividindo claramente reformistas e revolucionários. Os primeiros apoiando o conflito, os últimos se opondo a ele.

Tornando-se inevitável o conflito mundial, os socialistas revolucionários tentaram aproveitar o momento para transformar a guerra externa entre potências em guerra civil contra os patrões. Somente os bolcheviques conseguiram êxito. Mas sua principal bandeira de luta não era “Pelo socialismo!”. Era “Paz, Pão e Terra!”.

Para conquistar o fim da guerra, o acesso a direitos básicos e a reforma agrária, os revolucionários russos mostraram que só havia um caminho. O caminho da insurreição social. A entrega do poder político e do controle da economia aos Conselhos de Operários, Camponeses e Soldados. Um raro momento de interação dialética entre as lutas por reformas e a realização da revolução.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Primeira Guerra: a era dos extremos não terminou

Há exatos 100 anos, a Primeira Guerra Mundial inaugurava o que Eric Hobsbawm chamou de “Era dos extremos”. Referia-se ao sangrento século 20, que teria se encerrado ainda nos anos 1990.

O conflito sacrificou pelo menos 10 milhões de vidas e mutilou outras 20 milhões. Resultado da utilização de novas e terríveis tecnologias de guerra. Mas teve como causa profunda disputas interimperialistas que nada tinham a ver com os interesses dos povos envolvidos.

O conflito também rachou a esquerda mundial. Um lado sustentando seus governos na carnificina bélica. O outro se recusando a apoiar o sacrifício de milhões de trabalhadores em nome de interesses que não eram os seus.

Entre os que se opunham à guerra, estavam os bolcheviques. Sob sua liderança os soldados russos voltaram suas armas contra os próprios comandantes e derrubaram a ditadura que os esmagava. Como os bolcheviques conseguiram isso? Entre outros meios, se alistaram como soldados. Foram para as trincheiras fazer propaganda do socialismo.

A primeira revolução socialista foi feita contra a guerra, por “Paz, Pão e Terra”. Mas a guerra voltou-se contra a revolução. Os exércitos de 14 potências a cercaram. E um conflito ainda mais sangrento a derrotou de vez. Na Segunda Guerra, Stalin fez um criminoso pacto com Hitler que logo seria traído e custaria milhões de vidas russas.

A União Soviética sairia da Segunda Guerra como mais uma potência sanguinária. Desde então, houve dezenas de guerras locais e regionais. E o que vem acontecendo em Gaza, Síria e outros lugares mostra que estamos longe de superar os extremos de que a crueldade humana é capaz.

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A surda cavalgada dos Cavaleiros do Apocalipse

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Entre o circo tradicional e o midiático

Em 2013, o Sesc e a Fundação Perseu Abramo realizaram uma pesquisa sobre hábitos culturais dos brasileiros. A esquerda deveria estudar seus resultados. A direita já o faz, lamentando dados como:

- 89% dos entrevistados nunca foram a uma ópera ou concerto de música clássica;
- 75% nunca foram a espetáculos de dança ou balé;
- 71% nunca estiveram em exposições de pintura, escultura e outras artes;

Tais queixas mal conseguem esconder os preconceitos em relação à arte e diversão mais populares. A mesma pesquisa aponta, por exemplo, “Dançar em balada/ baile/ forró/ gafieira” como segunda opção de lazer, com 80% de citações pelos entrevistados.

Não se trata de discutir quais atividades de lazer proporcionam “capital cultural” relevante. Assistir a um concerto não implica necessariamente maior contato com a diversidade artística de que a humanidade é capaz. Jamais ter ido a um forró ou gafieira também é manter uma alta proporção de ignorância cultural.

Alguns dados são mais objetivos e preocupantes. É o caso dos 58% que não haviam lido nenhum livro nos últimos 6 meses. Aqui já não está em debate a qualidade da leitura, mas sua raridade. E a dependência de fontes audiovisuais de informação e cultura, monopolizadas por grandes corporações. As mesmas que lucram com o consumo cultural de massa, repetitivo e pouco variado.

Surpreendente é a citação do Circo como uma das atividades mais apreciadas e a quarta em frequência. Trata-se do circo tradicional. Não aquele midiático, que a direita tenta impor e nós, da esquerda, costumamos usar para esconder nossa incompetência na disputa de corações e mentes.

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quinta-feira, 24 de julho de 2014

Notícias que mendigam suspiros aliviados

Gaza arde há 16 dias, com cerca de 650 palestinos mortos pelas tropas sionistas.

Alguns de nossos maiores gênios literários partiram. O mais recente foi Ariano Suassuna, que foi ao encontro do “único mal irremediável”.

As prisões políticas no Rio e em São Paulo continuam.

Boas notícias, portanto, são raridades. Algumas, porém, conseguem obter os suspiros aliviados que mendigam.

Uma delas está no Globo de 24/07. Renato Grandelle publicou “Florestas comunitárias limitam o aquecimento do planeta”, referindo-se a levantamento de alcance mundial. Segundo a matéria, as “áreas verdes geridas por populações nativas registram índices muito menores de desmatamento”. Na Amazônia brasileira, por exemplo, “o índice de desmatamento em florestas comunitárias ficou abaixo de 1% entre 2000 e 2012”. Fora delas, sob a gerência predatória do agronegócio, as derrubadas chegaram a 7%.

Em 16/06, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) ocupou as sedes das quatro principais operadoras de celulares do País e da Agência Nacional de Telecomunicações. Eram dois mil manifestantes exigindo da Oi, Tim, Vivo, Claro e da autarquia governamental serviços melhores e ampliação dos investimentos.

O que os Sem-Teto têm a ver com telefonia móvel? Tudo. Sem casa, não há telefonia fixa. E os aparelhos celulares são valiosos para quem ganha a vida como camelô, catador, vendedor domiciliar. Mas, além disso, eles também querem se comunicar com o restante da sociedade. Sabem que uma luta como esta é um ótimo começo.

João Ubaldo partiu pouco antes de Suassuna. Escreveu o belo “Viva o Povo Brasileiro”. Ambos sabiam que se há alguma esperança, ela está entre os que lutam e trabalham no rés do chão social.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Gaza: Davi e Golias, Sodoma e Gomorra

Conta a Bíblia que Golias era um filisteu de “dois metros e noventa centímetros de altura”. Com seu povo em guerra com Israel, o gigante desafiou os judeus a enviar um homem que o enfrentasse.

O adolescente e ainda mirrado Davi aceitou o desafio. Mas quando o filisteu atacou, o garoto usou uma atiradeira para atingir-lhe a testa com uma pedra. Caído e desacordado, Golias teve sua cabeça decepada pelo jovem.

Recentemente, esta fábula ganhou um sentido novo e curiosamente invertido. Em dezembro de 1987, no campo de refugiados de Jabaliyah, em Gaza, palestinos enfrentaram as forças militares israelenses com paus e pedras. O episódio ficou conhecido como Intifada.

Um dos significados dessa palavra árabe descreve um repentino despertar de um sonho ou da inconsciência. Desde então, também simboliza a resistência dos palestinos contra a invasão de suas terras por israelenses.

O Estado judeu está promovendo mais um massacre em Gaza. O gigante militar israelense não se detém diante de mulheres, crianças e homens desarmados. As pedras da Intifada nada podem contra uma chuva de mísseis.

A Bíblia diz que Deus destruiu Sodoma e Gomorra porque nas duas cidades não havia nem dez justos. Mas sugere que se houvesse ao menos um deles, todos os seus habitantes seriam poupados.

A destruição foi obra do “Senhor dos Exércitos”, a mais cruel manifestação do deus bíblico. Os que governam Israel se consideram seus seguidores. Mas são piores que ele. Nem mesmo lhes importa saber se há justos entre os moradores de Gaza.

terça-feira, 22 de julho de 2014

A surda cavalgada dos Cavaleiros do Apocalipse

Quando a Guerra Fria estava no auge, o modo como se manifestaria o Juízo Final parecia bastante claro. Americanos ou soviéticos apertariam o botão vermelho. Os Cavaleiros do Apocalipse chegariam montados em mísseis nucleares.

Com o fim da União Soviética, esse temor diminuiu. Restando apenas uma grande potência, havíamos chegado ao famoso Fim da História, previsto por Francis Fukuyama.

O 11 de Setembro desmentiria essa ideia. Era a tempestade semeada pelos próprios Estados Unidos. A primeira Guerra do Golfo promovida pelos americanos desagradou alguns de seus antigos aliados na luta contra os soviéticos. Eram Bin Laden e sua organização terrorista, que responderiam com a destruição das Torres Gêmeas.  

Junte-se a isso a invasão do Iraque, o apoio incondicional ao genocídio sionista contra os palestinos e o financiamento de ditaduras em vários pontos do planeta. As consequências trágicas mais recentes disso tudo são a derrubada do avião comercial na Ucrânia e o massacre em Gaza por Israel.

Há quem escolha Putin como herói no primeiro caso. Patético. O ex-chefe da funesta polícia política soviética governa a Rússia há 15 anos, esmagando qualquer oposição.

Também há quem justifique os ataques israelenses como medidas defensivas. Estupidez. Seria como destruir um bairro inteiro para matar alguns moradores, supostamente bandidos.

Enquanto isso, a crise econômica persiste firme e forte. A Europa afunda sob o peso da austeridade imposta pelo capital financeiro. Os seis maiores bancos americanos estão hoje com patrimônios maiores do que tinham antes da crise. Os “emergentes” liquefazem. Para não falar nos colapsos climático, alimentar, sanitário...

Mesmo com tanto ruído, é possível ouvir uma surda cavalgada se aproximando.

Leia também: As últimas badaladas do Relógio do Apocalipse

segunda-feira, 21 de julho de 2014

DOPS, DIP, PT, PSDB e outras siglas

Durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945), Getúlio Vargas ampliou e centralizou os poderes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Também criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).

O primeiro baixava a porrada na oposição comunista, popular e sindical. O segundo fazia a propaganda necessária para justificar toda essa repressão. Fórmula semelhante voltou a ser utilizada durante a Ditadura Militar. Fazendo o papel do DIP, a imprensa empresarial.

Já não estamos sob uma ditadura política. Mas o aparato militar manteve-se intacto e se aperfeiçoando. Continuou exercitando seus músculos caindo sobre os pobres e pretos. Preparando-se para dar o bote novamente. Este momento parece estar chegando.

As recentes prisões de manifestantes mostram isso. No Rio, a mesma polícia que matou Amarildo trata a militância política como crime de formação de quadrilha. A imprensa aceita e reforça esta versão, como sempre fez em relação às mortes causadas por ações policiais nos bairros pobres.

Tal como os aparelhos de repressão, a grande mídia manteve seu monopólio intacto. Continua a fazer o que quer, como quer e quando quer. Para piorar, aqueles que a chamam de “golpista”, de um lado, enchem seus cofres com verbas oficiais, de outro.

Nada indica que isso vá mudar. Entre as propostas da candidatura Dilma, não aparece a democratização das comunicações. E na versão disponibilizada no site da campanha, nenhuma palavra sobre desmilitarização da polícia.

Com o título “Mais mudanças, mais futuro”, o programa petista renova seu compromisso de convivência com o que houve de pior no passado. Juntamente com seus principais adversários eleitorais, aceita a reciclagem da lógica DOPS mais DIP.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

As últimas badaladas do Relógio do Apocalipse

Em 1947, começava a Guerra Fria entre os blocos estadunidense e soviético. Surgia o chamado “Relógio do Apocalipse” por iniciativa de cientistas da Universidade de Chicago. Os ponteiros simbólicos se aproximam da meia-noite cada vez que a existência da humanidade é ameaçada por um conflito nuclear.

A União Soviética já não existe. Mas a arrogância imperialista estadunidense e a existência de várias potências nucleares menores mantêm o tic-tac sinistro em andamento. Além disso, ao temor pelo desastre atômico se acrescentaram as ameaçadoras consequências do aquecimento global.

Um dos efeitos da era nuclear foi tornar a atual democracia ainda mais limitada. O tempo entre o disparo de um míssil e sua chegada ao alvo impediria qualquer debate mais amplo sobre a conveniência ou não de responder ao ataque. Seria preciso confiar cegamente nos poucos encarregados de apertar o botão.a

Mas no caso do aquecimento global, a situação poderia ser diferente. A “meia-noite” trágica seria a superação da concentração mensal de 400 ppm (partes por milhão) de gás carbônico (CO2) na atmosfera. Acima desse nível, a elevação da temperatura começa a ameaçar a existência da grande maioria da espécie humana no planeta. 

Não se trata de um foguete viajando a milhares de quilômetros por hora. Parlamentos e governos sabem do problema há anos. Ou simplesmente negam sua existência ou adiam providências. Não surpreende. Seus mandatos são bancados pelos grandes emissores do gás que empesteia nosso ar.

Entre 30 de março e 03 de julho passados, a atmosfera terrestre apresentou mais de 400 ppm de CO2 todos os dias. Já não esperamos a meia-noite. Apenas a última badalada.


Leia também: Aquecimento global: elites, abaixo de zero

quarta-feira, 16 de julho de 2014

E não é que os black blocs tinham razão?

“Óculos futuristas da PM detectam até 400 rostos por segundo”, dizia o título de uma matéria de Lecticia Maggi, publicada no portal iG em 2011. Na época, a reportagem dizia haver 99,99% de chance de sucesso na identificação da “pessoa procurada”.

Além dos milhares de rostos por minuto, os óculos podem guardar até 14 milhões de imagens. “A tecnologia deverá ser utilizada por policiais em grandes eventos, como shows e jogos de futebol”, dizia a matéria. Mas não foi bem isso que aconteceu.

As recentes prisões de manifestantes em São Paulo e Rio mostram o resultado daquele “avanço tecnológico”. É um escandaloso retrocesso democrático. A polícia formou um grande banco de dados com fotos de ativistas. Muitas delas tiradas nas manifestações e das redes virtuais.

A reportagem do iG cita palavras do major da PM Leandro Pavani Agostini. Na época, ele dizia que a nova tecnologia mudaria “nossa forma de comportamento”. Realmente mudou. Agora, a PM não bate, prende e tortura apenas pobres e pretos. O tratamento violento também passou a ter como alvo militantes políticos e populares.

Eis aí porque os black blocs sempre tiveram razão ao usarem máscaras. E é bom adotarmos a prática também na internete. Afinal, fazemos apenas o que nossos inimigos fazem. Os policiais continuam a esconder ilegalmente sua identificação quando baixam a porrada nas manifestações.

Aqueles que compactuaram com tudo isso deveriam ser os primeiros a esconder seus rostos e camuflar suas identidades. Mas estão em campanha eleitoral na cara mais dura e mal lavada. Ainda não inventaram óculos que detectam antigos carrascos e novos traidores.

Sobre a vitória alemã, a vergonha e as suspeitas

Circula nas redes virtuais e está nos jornais. Os jogadores da seleção alemã teriam estragado a imagem de simpatia que conquistaram em terras brasileiras. Na comemoração do título mundial em Berlim executaram danças supostamente ofensivas a brasileiros e argentinos.

Mas há quem diga que as tais coreografias fazem parte da tradição local. Seriam praticadas entre os próprios times alemães como manifestação de mera rivalidade esportiva. É possível, mas os efeitos negativos da exibição podem ter sido amplificados pela desconfiança em relação às atitudes amáveis dos alemães durante a Copa. Aumentam os sinais de que grande parte delas seja produto de uma estratégia friamente montada para conquistar a torcida brasileira.

Tudo isso contrasta com um marcante momento do futebol mundial. Trata-se do jogo final da Copa de 50, no Brasil, famoso pela derrota sofrida por nossa seleção diante do Uruguai. Um dos responsáveis pela tragédia brasileira foi o capitão do time uruguaio, Obdulio Varela.

Eduardo Galeano, em seu livro “Futebol ao sol e à sombra”, tem um capítulo sobre Varela. Segundo o autor, o jogador uruguaio se recusou a dar declarações arrogantes sobre a conquista de seu time. A vitória teria sido apenas uma “casualidade”, declarou o capitão aos jornalistas.

Logo depois do jogo, Obdulio saiu a caminhar pela cidade carioca. Encontrou um comovente clima de luto. Circulou pelos bares quase insuspeito. Bebeu em mesas e balcões junto a chorosos brasileiros. Sentiu-se constrangido e envergonhado.

Eram tempos em que o futebol não fazia parte de um circuito bilionário de circulação de mercadorias. Hoje, a vergonha mal atinge os derrotados. As suspeitas cercam as vitórias quase sempre.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A contribuição petista para nossa violência genocida

Assustador o panorama oferecido pelo Mapa da Violência 2014. Após 16 anos de levantamentos, todos os índices pioraram: suicídios, homicídios, acidentes de trânsito, uso de arma de fogo. É o que diz o sociólogo Julio Jacobo Waselfisz, em entrevista ao portal IHU-On Line.

As maiores vítimas continuam a ser os jovens pobres e pretos. Mas a situação geral é “epidêmica e em expansão”, diz o sociólogo. São 100 homicídios por 100 mil habitantes. Dez vezes acima dos níveis considerados normais.

Outro dado espantoso diz respeito aos suicídios. Segundo o Waselfisz, as mortes voluntárias tendem a aumentar em países com melhores índices sociais, enquanto os homicídios caem. No Brasil, ambos crescem. O índice de suicídios é igual ao de países como Japão, França e países escandinavos: 30 por 100 mil habitantes.

O estudioso fala em “racismo institucional”. Segundo ele, as instituições que deveriam priorizar o atendimento e a proteção dos “setores vulneráveis” fazem o contrário. Ignoram leis como Maria da Penha, o Estatuto da Criança e do Adolescente e o da Igualdade Racial. Responsabilizam as vítimas, culpando “o negro da favela, o negro do crack ou a mulher que provocou o homem”.

Ao mesmo tempo, surgem “milícias dentro dos aparelhos de segurança”. Grupos de vingadores cujas ações têm alvo definido. Quase sempre os negros moradores de bairros pobres.

Todo este aparato judiciário e policial vem agindo impunemente há séculos. Mas acaba de receber enorme reforço com a organização da Copa do Mundo. Ampliou, inclusive, sua atuação na repressão política. Nossos pêsames aos governos petistas por sua contribuição à cartografia genocida e antidemocrática brasileira.

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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Copa do Mundo: a democracia derrotada

O pior da Copa do Mundo não aconteceu dentro dos estádios. Enquanto a seleção brasileira apanhava mais uma vez no futebol, pelo menos 37 pessoas eram presas. Seu crime? Nenhum. Só a provável intenção de participar de manifestações contra a Copa, no dia seguinte, durante o jogo final do torneio.

Enquanto a Alemanha era campeã sobre a Argentina, cerca de 500 pessoas foram violenta e covardemente reprimidas por cerca de 1.000 policiais, no Rio de Janeiro. Seu crime? Tentar se manifestar. Antes disso, no começo de julho, a PM já havia prendido militantes e advogados, em São Paulo. Também acusados pelo crime de exercer seus direitos democráticos.

Todos esses atos autoritários e violentos estão amparados juridicamente pela Lei Geral da Copa. Legislação que viola a própria Constituição do País. Mas, politicamente, eles são de responsabilidade dos governos. Inclusive, e principalmente, o federal.

É como disse o delegado da Polícia Civil no Rio de Janeiro, Orlando Zaccone:

A Presidente Dilma é responsável não só pelas prisões dos manifestantes do Rio, como os de São Paulo e no restante do país. A estratégia de definir os ativistas no crime de quadrilha armada, associação criminosa, milícia, etc, foi definida em reunião do Ministro da Justiça com os Secretários Estaduais de Segurança.

Esta é mais uma prova de que os governos petistas bandearam de vez para o campo conservador. Muitos dos que se hoje são “autoridades” por sua participação em lutas passadas causam o luto democrático que estamos vivendo. Esperam o agradecimento penhorado das forças de direita. Talvez, sejam os próximos a sentir o peso de suas patas.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Por que a seleção alemã visitou Auschwitz

A atual seleção alemã vem sendo preparada há seis anos. Em junho de 2012, membros desse mesmo time visitaram os campos de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia.

Os alemães estavam às vésperas de disputar a Eurocopa, que aconteceria na Ucrânia e na Polônia. Nesses dois países, milhões foram massacrados pelas tropas alemãs durante a 2ª Guerra. O diretor-técnico da seleção Oliver Bierhoff explicou a iniciativa: “Com essa visita a Auschwitz quisemos fazer um gesto. É um capítulo escuro da história alemã que não pode se repetir”.

Isso não quer dizer que a Alemanha mereça vencer a Copa ou nossa torcida. Apenas poderia sugerir que o futebol é mais do que festa, diversão, otimismo e, principalmente, enxurrada publicitária. Não precisa se restringir apenas a planos táticos, escalações, “cotidiano dos craques” e participação em programas de variedades cada vez mais estúpidos.

Um pouco de inteligência e posicionamentos sobre as coisas do mundo seria fundamental. Principalmente, em momentos tristes como o que estamos passando. Como alguns andam dizendo, vergonhoso mesmo foi a escravidão. Que tal uma visita da seleção brasileira a alguma comunidade quilombola? Vexaminosas mesmo foram as mortes nas obras para a Copa. Nenhuma palavra sobre elas por parte de jogadores e comissão técnica.

O futebol é importante demais para que fique restrito ao campo. No domingo, que a Argentina vença. Mas saudemos os “hermanos” germânicos. Foram dignas e leais suas declarações sobre o massacre que nos impuseram. Eles parecem saber que há coisas mais importantes que vitórias e derrotas esportivas. Por mais gloriosas ou vergonhosas que venham a ser.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Morreu o mais jovem dos radicais

Plínio de Arruda Sampaio morreu em 08/07, aos 83 anos. O incansável lutador começou a militar aos 20 anos na Juventude Católica. Desde então, só veio rejuvenescendo.

Foi o relator do projeto de Reforma Agrária do governo Goulart. Por isso, foi cassado e exilado pela ditadura. De volta ao País em 1976, ajudaria a fundar o PT. Um partido que procurava romper com a esquerda que se deixou arrastar pelo reformismo submisso de Goulart.

Nos anos 90, Plínio disputou a vaga de candidato petista ao governo estadual paulista. Seu adversário foi José Genoino, então líder da ala esquerda radical do partido. Nos debates não escondia sua opção pelo reformismo.

Em 2005, Plínio saiu do PT. Genoino ficou. Mas não foi o “Mensalão” que os separou. As divergências não eram apenas éticas. Eram classistas. Já em 2001, ele havia dito que o programa de governo do PT era uma “rendição antecipada”. Um pedido de licença à “elite corrupta e aos Estados Unidos para sentar na cadeira presidencial”.

No PSOL, Plínio foi candidato à presidência da república em 2010. Sua candidatura tinha uma estrutura minúscula, mas sabia se fazer ouvir. “Não somos oposição a um governo, somos oposição a um sistema social”, dizia ele. Conseguiu atrair vários setores de luta. Principalmente, os jovens. E foi com eles que foi às ruas em junho de 2013.

Há quem diga que não existem revolucionários de cabelos brancos. Palavras imbecis de quem padece de esclerose política. Da Juventude Católica à Juventude de Junho, Plínio jamais abandonou a luta contra um sistema senil e injusto. Deixa-nos o mais jovem dos radicais.

Leia também: EUA: uma idosa que fazia os poderosos tremerem

terça-feira, 8 de julho de 2014

Saúde e educação a cargo de mafiosos

Era o que faltava. A Fifa vai deixar um “legado” para a saúde e a educação brasileiras. Trata-se do programa “11 pela saúde”, em parceria com os ministérios da Saúde, Educação e Esportes. É o que mostra a excelente reportagem “O legado da Fifa na saúde e educação”, de Cátia Guimarães, publicada na revista da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, em março passado.

Os detalhes estão na matéria, mas citemos alguns deles bem assustadores. O público-alvo são alunos de 11 e 12 anos de escolas públicas. O material “pedagógico” é conhecido como “Manual do Treinador”. Como o nome diz, trata-se de adestramento e não de educação.

Um exemplo diz respeito à AIDS. O manual recomenda:

Você pode proteger-se do HIV abstendo-se de sexo tanto quanto possível, ser fiel a um (a) parceiro (a) não infectado (a), ou usar um preservativo corretamente todas as vezes que tiver relações sexuais.

Um absurdo! Fidelidade e abstinência sexual são recomendações moralistas e muito ineficientes.

O texto também apresenta os medicamentos como “drogas benéficas”. Somente as drogas “ilegais” seriam “nocivas”. Nenhuma palavra sobre tranquilizantes, que causam dependência e são a sexta droga mais usada no País, à frente de cocaína e crack. Além disso, o álcool, uma das drogas que mais matam, teve sua venda imposta nos estádios pela Fifa. As indústrias farmacêutica e de bebidas agradecem.

O supercambista de ingressos preso recentemente no Rio de Janeiro é ligado à Fifa. O caso mostra a verdadeira especialidade da maior entidade do futebol mundial. Graças ao governo brasileiro, agora essa máfia pode lucrar com outros ramos e trabalhando diretamente com crianças. 

A PM, as UPPs e os Panteras Negras

O Mapa da Violência 2014 mais uma vez confirma: os jovens pretos continuam a ser as maiores vítimas de mortes violentas no País. Em reportagem publicada pela Agência Brasil, em 03/07, Helena Martins destacou o depoimento de Julio Jacob Waiselfisz.

Waiselfisz coordena a Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências. Segundo ele, entre 2002 e 2012, o número de homicídios de jovens brancos caiu 32,3% e o dos jovens negros aumentou 32,4%.

É costume dizer que os números da violência no Brasil são semelhantes aos de países em guerra civil. Mas boa parte das baixas desse conflito interno é causada pela violência estatal. Principalmente, por ações policiais ilegais e movidas pelo ódio aos pobres e pretos.

O Partido dos Panteras Negras surgiu nos anos 1960, nos Estados Unidos, como reação a algo parecido. Seus membros consideravam a polícia como uma força invasora dentro das comunidades negras. Por isso, defendiam que se reagisse a elas do mesmo modo que os camponeses vietnamitas combatiam as tropas imperialistas americanas. De armas na mão.

Há grandes diferenças entre a situação brasileira e a americana. Nosso racismo consegue ser tão sutil, quanto letal. A começar pela elevada presença de negros em nossas polícias. Algo que não ocorria nos lugares em que surgiram os Panteras. A cultura do porte civil de armas também inexiste aqui.

Mas é cada vez mais escancarado o racismo mortal das forças policiais brasileiras. E as UPPs se parecem cada vez mais com forças de ocupação violenta nos bairros pobres. Se a situação continuar assim, pode-se esperar pelo pior. Ou seria pelo melhor?

Leia também: Os Panteras Negras contra a homofobia

segunda-feira, 7 de julho de 2014

As joelhadas na democracia

Em abril passado, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, afirmou:

Eu vou dizer uma coisa que é maluca, mas menos democracia, às vezes, é melhor para organizar uma Copa. Quando você tem um chefe de estado forte, que pode decidir, como talvez Vladimir Putin na Rússia em 2018, é mais fácil para nós, organizadores...

A repórter Daniella Franco, da agência RFI, publicou em 02/07 “Brasil pode ser a última democracia a organizar uma Copa do Mundo”. A matéria refere-se não apenas à Rússia, mas à monarquia conservadora árabe do Dacar, que deve sediar o evento em 2022.

De qualquer maneira, Valcke não tem do que reclamar. Afinal, a Fifa assumiu o comando de várias atividades do País sem maiores problemas. Exclusividade no comércio de bebidas e alimentos no entorno das sedes dos jogos, praticando preços de monopólio. Imposição da construção de estádios, que, em sua maioria, deve se transformar em elefantes brancos. Tudo a um custo social enorme, com a remoção de cerca de 250 mil famílias de suas casas para a construção de obras de utilidade duvidosa a preços abusivos.

Como se não bastasse, tudo isso contou com a proteção armada dos governantes do País, que colocaram exército e polícias a serviço do torneio. E, neste caso, a democracia foi ferida gravemente. É o que mostra, por exemplo, a recente prisão de advogados que acompanhavam a manifestação da Praça Roosevelt em São Paulo, em 01/07.

A Fifa não prefere apenas regimes antidemocráticos. Também ensina autoritarismo aos governos que lhe são submissos. A democracia é outra vítima das joelhadas pelas costas dos que organizam a Copa.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Entre as poucas certezas, o aumento da polarização social

“No Brasil, queda na desigualdade não tira renda do 1% mais rico”, afirma Denise Neumann em reportagem publicada no Valor em 26/06. Citando dados dos censos de 2000 e 2010, ela diz que o 1% mais rico do país continua a deter os mesmos 17% da renda nacional do início desse período.

No mesmo jornal, Marcelo Neri publicou o artigo o “Brasil continua com o crescimento inclusivo”, em 26/05. Com base em números da Pesquisa Mensal de Emprego, garante que “há surpreendente sustentabilidade” nesse processo. Ele é ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Em “Desigualdade e 'enrolation'”, publicado na Folha de 29/06, Clóvis Rossi afirma que Neri não apresenta dados sobre os ganhos dos mais ricos. Limita-se aos rendimentos do trabalho. Lembra que os 40 milhões de beneficiários do Bolsa Família ficam com 0,5% do PIB anual. Os poucos milhões que ganham com os altos juros financeiros ficam com, no mínimo, quatro vezes mais.

O petista André Singer deu sua opinião na Folha, em 28/06. Para ele, enquanto cresceu o número de bilionários, “a renda dos 10% mais pobres aumentou 106% entre 2003 e 2012". O prejuízo teria sobrado para a classe média tradicional, único setor a perder renda.

O também petista Márcio Pochmann acaba de lançar “O mito da grande classe média”. O livro combate a tese de que surgiu uma nova classe média no País. Admite a redução do número de miseráveis, mas indica aumento na disparidade entre uns poucos muito ricos e a grande maioria pobre.

A polarização social parece inegável. Os conflitos decorrentes dela, também. Desde junho de 2013, sabemos disso.

Obs.: esta é a milésima pílula.


Os P2 mandam. Os P2 matam

Dario de Negreiros é jornalista e membro do “Margens Clínicas”, grupo de psicanalistas que presta atendimento psicológico a vítimas de violência de Estado. Ele publicou o artigo “Memória, verdade, justiça e reparação para os crimes do Brasil pós-ditatorial” no site Ponte, em 26/06.

Além de outras informações importantes, o texto esclarece o significado da expressão “P2”:

Ouvimos dizer, comumente, que o governador do Estado é o comandante-em-chefe da PM. Isso é verdade, mas não é toda a verdade. As chamadas segundas-seções – na sigla, a PM2, conhecida popularmente como P2 –, constituem o serviço de inteligência da PM, responsável não só pela coleta de informações, mas também pelas decisões sobre estruturas organizacionais, efetivos, ensino e instrução, dentre outras atribuições. Estas segundas-seções, pasmem, não respondem ao governador do Estado: elas fazem parte do sistema de informações do Exército e respondem diretamente ao comando do Exército.

O fato, diz Negreiros, é que nossas “PMs respondem a dois senhores: ao Governador do Estado e, ao mesmo tempo, ao Comandante do Exército”. Qual deles seria o mais poderoso?

Basta observar alguns números: de 2003 a 2012, a PM do Rio matou mais de mil pessoas por ano. A PM de São Paulo ultrapassou duas mil mortes de 2005 a 2009. Nestes mesmos cinco anos, todas as polícias dos Estados Unidos juntas mataram 1.915 pessoas. Pouco menos do que mata a polícia fluminense em apenas dois anos.

Os P2 mandam. Os P2 matam. Os governantes estaduais e o governo federal aceitam, quando não reforçam, toda essa brutalidade. Talvez, porque suas vítimas sejam quase exclusivamente os pobres e pretos. Por enquanto...

Leia também: Aos que pisam nossas flores

terça-feira, 1 de julho de 2014

O futebol em meio a duas geopolíticas

A pílula sobre a geopolítica do futebol rendeu comentários pertinentes. Alguns notavam que a divisão entre potências grandes, médias e emergentes do futebol não considera a enorme internacionalização de seus jogadores.

O caso brasileiro é exemplar. Apenas quatro dos 23 convocados jogam aqui. O restante está espalhado por Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha, França, Canadá e Rússia.

Uma das implicações dessa situação é o racismo e a xenofobia que atingem esses jogadores. Mas as seleções europeias sofreriam sem os filhos de seus imigrantes. É o caso do atacante Benzema, considerado francês quando marca gols e árabe quando os perde.

Outra dimensão importante é a econômica. Os dados são de Armando Sartori em reportagem publicada no Retrato do Brasil, em 27/06: os 23 jogadores que compõem nossa seleção valem cerca de 714 milhões de dólares. Montante equivalente a 9% dos 7,9 bilhões de dólares estimados para todas outras 32 seleções que participam do torneio.

Parece muito dinheiro, mas não é. Só a Fifa pode faturar 5 bilhões de dólares com a Copa deste ano. Fortuna garantida pelo trabalho dos jogadores em campo.

Nesse mercado, diz Sartori, o Brasil “é exportador, enquanto os times de países da Europa Ocidental, principalmente, e também os da Europa Oriental, do Leste Asiático e até alguns do Oriente Médio são importadores”.

Portanto, a geopolítica do mercado de jogadores seria mais fiel àquela vigente na economia em geral. A grande diferença é que não se trata de commodities. São talentos de que somos privados.

Ou seja, as contradições entre as duas geopolíticas não impedem que ambas sirvam à acumulação e concentração de capital.