sexta-feira, 30 de março de 2012

Rio+20: Michael Lowy explica o ecossocialismo

Michael Lowy é um sociólogo marxista com grandes contribuições à luta anticapitalista. Em especial, em sua obra teórica. É responsável pela popularização do conceito de ecossocialismo. Em entrevista à edição 180 da revista Caros Amigos, ele explica:
O ecossocialismo é uma resposta radical tanto à crise financeira, quanto à crise ecológica. Ambas são a expressão de um processo mais profundo: a crise do paradigma da civilização capitalista industrial moderna. A alternativa ecossocialista significa que os grandes meios de produção e de crédito são expropriados e colocados a serviço da população. As decisões sobre a produção e o consumo não serão mais tomadas por banqueiros, managers de multinacionais, donos de poços de petróleo e gerentes de supermercados, mas pela própria população, depois de um debate democrático, em função de dois critérios fundamentais: a produção de valores de uso para satisfazer as necessidades sociais e a preservação do meio ambiente.
Aproveita para denunciar a chamada “economia verde”. Esta é a resposta do sistema capitalista para a crise ambiental. Ele aparece num documento conhecido por “Rascunho zero”, preparado pelos organizadores da Rio+20. Lowy denuncia:
A "economia verde" do rascunho não é outra coisa do que uma economia capitalista de mercado que busca traduzir em termos de lucro e rentabilidade algumas propostas técnicas "verdes" bastante limitadas. Claro, tanto melhor se alguma empresa trata de desenvolver a energia eólica ou fotovoltaica, mas isto não trará modificações substanciais se não for amplamente subvencionado pelos estados, desviando fundos que agora servem à indústria nuclear, e se não for acompanhado de drásticas reduções no consumo das energias fósseis. Mas nada disto é possível sem romper com a lógica de competição mercantil e rentabilidade do capital.

Por fim, demarca suas diferenças em relação aos que tentam conciliar capitalismo e ecologia:
O reformismo "verde" aceita as regras da "economia de mercado", isto é, do capitalismo; busca soluções que seja aceitáveis, ou compatíveis, com os interesses de rentabilidade, lucro rápido, competitividade no mercado e "crescimento" ilimitado das oligarquias capitalistas. Isto não quer dizer que os partidários de uma alternativa radical, como o ecossocialismo, não lutam por reformas que permitam limitar o estrago: proibição dos transgênicos, abandono da energia nuclear, desenvolvimento das energias alternativas, defesa de uma floresta tropical contra multinacionais do petróleo (Parque Yasuni!), expansão e gratuidade dos transportes coletivos, transferência do transporte de mercadorias do caminhão para o trem, etc. O objetivo do ecossocialismo é o de uma transformação radical, a transição para um novo modelo de civilização, baseado em valores de solidariedade, democracia participativa, preservação do meio ambiente. Mas a luta pelo ecossocialismo começa aqui e agora, em todas as lutas sócio-ecológicas concretas que se enfrentam, de uma forma ou de outra, com o sistema.
Leia a íntegra da entrevista, aqui

Leia também: Rio+20: uma esquerda marrom e grosseira

quarta-feira, 28 de março de 2012

A microfísica da militância

Em entrevista ao jornal Valor, publicada em 27/03, Paul Singer fez a seguinte afirmação:
O PT está num impasse, porque uma parte dele transformou-se em políticos profissionais, o que no inicio do partido seria visto com horror. Muita gente dentro do PT é obrigada a ganhar eleições ou está na rua da amargura. Isso é o normal na política brasileira: a pessoa acaba se profissionalizando na política e a partir daí o seu interesse individual o leva a fazer concessões. Os grandes ideais passam a ser secundários. É por isso que o PT acabou fazendo alianças sem nenhum critério
Singer é militante veterano do PT. Também é secretário de Economia Solidária do Ministério do Trabalho do governo Dilma. Portanto, fala com grande conhecimento de causa.

Mas o problema que denuncia não diz respeito apenas à política brasileira. É o que mostra uma afirmação de Gramsci em relação ao movimento sindical europeu. Segundo o marxista italiano:
O desenvolvimento normal da organização sindical gera resultados opostos aos que tinham sido previstos pelo sindicalismo: os operários que se tornaram dirigentes sindicais perderam completamente a vocação do trabalho e o espírito de classe e adquiriram todas as características do funcionário pequeno-burguês, intelectualmente preguiçoso, moralmente pervertido ou fácil de se perverter. Quanto mais o movimento sindical se alarga, ao abarcar grandes massas, tanto mais o “funcionarismo” se espalha (do livro “O Poder Simbólico”, de Pierre Bourdieu).
O que Gramsci chamou de “funcionarismo” também pode ser chamado de burocracia. A palavra é produto da junção de “bureau”, “escritório” em francês, e “krátias”, que é “poder” em grego. Ou seja, estamos falando daqueles que, a partir de seus gabinetes, exercem seus poderes mesquinhos.

Empresas, entidades e instituições estão cheias desses tipos. Infelizmente, os partidos de esquerda, sindicatos e outras organizações populares também estão. Antigos e combativos militantes domesticados pela profissionalização.

Nem todos são cínicos, vendidos, traidores. Muitos estão presos nessa espécie de “microfísica do poder”. Por isso não é o caso de elegê-los como inimigos principais. Merecem que sejam denunciados por seu papel vergonhoso. Mas na “macrofísica” da dominação, os verdadeiros inimigos continuam a ser os patrões e seus governos.

As organizações que realmente lutam pela transformação social precisam se livrar da dependência que desenvolveram em relação a suas burocracias. A verdadeira militância tem que ser a opção de milhares de homens e mulheres comprometidos com a luta concreta. Que tiram seu sustento do trabalho que fazem nas fábricas, no comércio, escolas, bancos, lavouras, serviços públicos.

Leia também: A militância mofando nos gabinetes

terça-feira, 27 de março de 2012

Asterix contra Sarkozy

Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum, e Petibonum...
A apresentação acima acompanha todos os álbuns de Asterix, personagem de Albert Uderzo e René Goscinny. A série francesa é um dos exemplos do que há de melhor nos quadrinhos mundiais.

O que a introdução não explica é que os “irredutíveis” gauleses devem sua invencibilidade a uma poção mágica. A bebida dá aos aldeões uma enorme força física. Seus efeitos duram o bastante para derrotar o poderoso exército do Império Romano.

Infelizmente, alguns nacionalistas franceses adotaram Asterix como mascote de sua xenofobia. Ele representaria a “autêntica identidade francesa”. Conceito sem sentido defendido, inclusive, pelo presidente francês. Daí a justificar o preconceito contra imigrantes é um passo. Principalmente, contra árabes e africanos.

É verdade que a aldeia gaulesa se defende bravamente contra invasões a seu território. Mas para isso busca alianças com os mais diversos povos: espanhóis, suecos, árabes, africanos, gregos, assírios etc. Todos contra o domínio romano.

Ou seja, o segredo da valentia dos gauleses não estaria em seu patriotismo aldeão. A poção que utilizam é feita de outros ingredientes. Entre eles, a resistência popular contra a opressão dos poderosos. E o bom humor no trato com estrangeiros. Os personagens dão boas risadas diante dos nomes, costumes e sotaques que vão conhecendo em suas aventuras.

Nada disso têm a ver com o nacionalismo de Nicolas Sarkozy. De um lado, intolerância em relação aos imigrantes. De outro, submissão ao imperialismo. Basta lembrar a presença de tropas francesas na criminosa ocupação do Afeganistão. Ou o entusiasmo assassino com que participa da invasão à Líbia.

A França de Asterix não merece Sarkozy.

Leia também:
A França racista de Sarkozy
Asterix ajuda a entender o capitalismo

Tentando apalpar capital imaterial

Um dos conceitos mais discutidos nos últimos anos tem sido o de “capital imaterial”. Normal. Tem tudo a ver com as atuais formas de funcionamento do capitalismo. Mas há quem o considere uma negação da ideia marxista de capital. Como se esta fosse sinônimo de materialidade.

Em “O Capital” Marx não cansa de repetir: "o capital não é uma coisa, mas uma relação social entre pessoas, efetivada através de coisas". Ou seja, material mesmo é a aparência do capital. Felizmente, há quem esteja tentando desfazer toda essa confusão.

É o caso do sociólogo Sílvio Camargo. Autor de dois livros sobre o tema, ele concedeu esclarecedora entrevista à IHU On-Line. Cabe destacar alguns trechos interessantes. Sobre a tão falada comunicação em rede, ele diz:
A contradição está em que a subjetividade da sociedade em rede se constitui também como uma base real de resistência ao capital; basta pensarmos na maneira pela qual os jovens hoje escutam música, compartilhando arquivos sem pagar por isso. De outro lado, o tipo de música que se escuta, ou os bens e experiências culturais compartilhados pela maioria dessas mesmas subjetividades trazem em sua forma estética as mesmas características de mercadoria da etapa anterior do capitalismo, tornando os indivíduos ofuscados diante um capitalismo que traz, sempre, a marca da dominação. Também nesse sentido, o capitalismo tardio é o advento do absolutamente novo convivendo com as marcas do passado, da modernidade.
(...)
Assumir a plausibilidade histórica de noções como trabalho imaterial e pós-modernidade não significa negar a existência de classes sociais, exploração e injustiça. Pelo contrário, indica percebermos que a dominação capitalista nunca foi tão intensa, e pensar qualquer projeto emancipatório nesse contexto depende de uma apreensão lúcida das transformações reais, objetivas, que se efetivam na História, outra das lições da tradição dialética.
O estudioso tem posições bem mais polêmicas em relação à tradição marxista. É o caso do abandono da teoria do valor-trabalho. Mas a disposição de defender um projeto de libertação humana é muito bem vinda. Vamos tateando...

Vale a pena ler a íntegra da entrevista.

Leia também: Marx e os Irmãos Marx contra a Google

segunda-feira, 26 de março de 2012

Rio+20: uma esquerda marrom e grosseira

O maior evento ambiental do planeta vai acontecer no Rio de Janeiro. Uma cidade que continua incapaz de implantar um sistema de coleta seletiva de lixo. Mas esta é só uma das contradições a envolver o evento. O país que vai sediá-lo é governado por uma esquerda que despreza as questões ambientais.

O governo do PT lidera o que Eduardo Gudynas considera ser uma esquerda que passou de "vermelha" a "marrom". Em artigo publicado no site “América Latina en Movimiento”, o sociólogo uruguaio refere-se à cor que resulta do desmatamento de grandes áreas rurais. Consequência do chamado “neodesenvolvimentismo”, que valoriza a produção acima de tudo.

O alvo de Gudynas é a esquerda que ocupa os governos. Em especial, na América Latina, em que rios, florestas, aldeias, quilombos, povos indígenas vêm sendo atropelados por megaempreendimentos. Grande parte deles financiado por capital vindo do Brasil.

O pior é que alguns dos defensores desse modelo se dizem marxistas. No entanto, há elementos suficientes nessa tradição para desautorizá-los. Citemos uma pequena passagem que ajuda a demonstrar isso. Trata-se de um trecho de “A humanização do macaco pelo trabalho”, escrito por Engels em 1875:
A cada uma dessas vitórias [sobre a natureza], ela exerce a sua vingança. Cada uma delas, na verdade, produz, em primeiro lugar, certas consequências com que podemos contar; mas em segundo e terceiro lugares, produz outras muito diferentes, não previstas, que quase sempre anulam essas primeiras consequências. Os homens que na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e noutras partes destruíram os bosques, para obter terra arável, não podiam imaginar que, dessa forma, estavam dando origem à atual desolação dessas terras ao despojá-las de seus bosques, isto é, dos centros de captação e acumulação de umidade.
Como se vê, os homens da Antiguidade ainda tinham uma desculpa. Pareciam não saber o que faziam. Não é o que acontece em nosso atual momento histórico. Menos ainda quanto aos que se dizem de esquerda. Nestes, a ignorância é de outro tipo. É grosseira.

Leia o artigo de Eduardo Gudynas, clicando aqui.

Leia também: Rio+20: biodiversidade e mudanças climáticas

sexta-feira, 23 de março de 2012

A França racista de Sarkozy

O suspeito dos atentados de Toulouse, na França, morreu ontem durante operação policial. Após 32 horas de cerco, Mohamed Mehra teria levado um tiro na cabeça. Ele era o suposto assassino de um homem e três crianças judeus. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, defendeu a ação policial: “já tivemos mortos demais”, disse a jornalistas.

Nada justifica os atos covardes que teriam sido praticados por Mehra. Mas sua intolerância encontra equivalente nas atitudes do governo francês. Para Sarkozy não há apenas mortos em excesso. Ele tem repetido que “há estrangeiros demais na França”.

Em agosto de 2010, Sarkozy ordenou a expulsão de ciganos do país depois de destruir seus acampamentos. Em abril de 2011, entrou em vigor a proibição do uso do véu islâmico em locais públicos. Em outubro passado, o presidente francês declarou:
Em nossas democracias, nos preocupávamos com a identidade de quem estava chegando e não suficientemente com a do país. Se alguém vem à França, tem de aceitar participação em uma só comunidade.
Difícil é determinar o que seja essa tal identidade francesa. O próprio Sarkozy é filho de pai húngaro e sua mãe é descendente de gregos. Talvez, a definição do presidente francês se explique pela mulher com quem escolheu casar, a italiana Carla Bruni.

Ou seja, para ser francês é preciso ser branco, se encaixar nos padrões de beleza reinantes e ter escolhido a religião e a “civilização” certas.

O fato é que existe a França que se orgulha de ser berço da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”. E existe a França que colaborou com Hitler, através da “República de Vichy”, e entregou centenas de judeus aos nazistas.

Sarkozy fez sua escolha.

Leia também: Abaixo o véu do preconceito contra muçulmanos

quarta-feira, 21 de março de 2012

No século 22, a música jorra

Caros parceiros e parceiras do século 22, vim parar no século 21 não sei como, nem porquê. Há muitas coisas estranhas por aqui.

Outro dia, conversavam comigo sobre uma tal de “música nas nuvens”. Na verdade, trata-se do hábito de ouvir músicas diretamente das redes de computadores, desde que se pague pelo serviço que as disponibiliza. Alguns acham que esse tipo de acesso estaria levando as pessoas a sentir menos necessidade de ter a posse das obras.

Argumentei que em nosso tempo já não temos esse tipo de apego. Não entenderam. Por isso resolvi contar-lhes sobre nossa “música do subsolo”. Disse que entre seu tempo e o nosso, a sociedade humana passou por situações dramáticas e violentas. Longa guerra por liberdade e justiça social.

Em meio ao conflito, os poderosos resolveram esconder todo tipo de riqueza. Isso incluía obras artísticas, como filmes e músicas. Um modo de fazer isso foi transformá-las em dados digitais e armazená-las em redes de computadores que foram enterradas no subsolo.

Terminados os conflitos e derrotado o inimigo, ninguém mais sabia dizer onde ficaram enterradas os milhares de obras digitalizadas. Mas, aos poucos, cabos e fios começaram a surgir do chão. E descobrimos que bastava ligar um aparelho a eles para que a música jorrasse e os filmes aparecessem.

Tornou-se um prazer sair em busca de “vazamentos” desse tipo. Passamos a cavoucar a terra como mineradores. Uma vez encontrado um “veio”, era só fazer a conexão certa para ter novas surpresas. Música e filmes dos mais variados tipos e épocas. Nem sempre agradáveis, mas abundantes como água.

Leia também: Ao século 21: comunismo é jogo

terça-feira, 20 de março de 2012

O poderoso pai de Thor

Thor tem enormes poderes. Mas seu pai os tem ainda maiores. O rapaz saiu para descansar em um paraíso terrestre. Infelizmente, o trajeto incluía passagem por lugares menos olímpicos. Voltando a sua sagrada morada, seu martelo atingiu um reles mortal. A pobre criatura, de imediato, abandonou sua curta vida.

Já não se sabe o quanto de culpa cabia ao filho da divindade no infeliz acontecimento. É que o todo poderoso pai de Thor veio em seu socorro. O plenipotenciário genitor mandou que se desfizessem as circunstâncias do acidente. Ou seria incidente, já que teria se tratado de evento menor segundo os padrões divinos? O fato é que tudo ficou arranjado para que o desagradável episódio seja esquecido.

De tal maneira que Thor já descansa em Asgard, provavelmente um pouco abalado pelos danos causados a seu belo malho. Seu pai, por sua vez, fez alguns pronunciamentos refestelado em seu imponente trono. Com belas palavras, atribuiu toda a responsabilidade pelo contratempo àquele que agora jaz defunto.

A vida das divindades nem sempre é fácil. Ainda bem que podem contar com a ajuda de alguns mortais. Em especial, aqueles que ocupam os governos. Estes se mostram mui autoritários em relação à gente comum. Diante dos que lhes proporcionaram sua elevada posição, porém, comportam-se servilmente. Afinal, devem ao ouro dos deuses suas estadias nos palácios do poder.

Leia também: Morte com passagem de ida e volta

Falácias tucanas, bravatas petistas, déficits morais

Os governos tucanos sempre culparam os aposentados do serviço público pelos déficits nas contas do INSS. O PT na oposição denunciava o argumento como falácia. “Falácia” tem origem latina e pode ser entendida como “trapaça”.

Os petistas argumentavam que o pagamento das aposentadorias do serviço público é obrigação do Tesouro Nacional. Diante do calote deste, o dinheiro acaba saindo do regime geral de previdência. Portanto, o déficit é do Tesouro e não do INSS.

No governo, os petistas passaram a aceitar a trapaça tucana. Cobrado pela incoerência, Lula disse que a atitude anterior não passava de "bravata" de oposição. A palavra vem do italiano e quer dizer “provocação”. Mas as verdadeiras razões da mudança de posição são outras.

A falácia tucana tinha três objetivos. Primeiro, jogar os trabalhadores do setor privado contra os do setor público. Segundo, desviar a atenção do enorme rombo do próprio Tesouro Nacional. Por fim, justificar a criação de um fundo de previdência para os servidores, em proveito do mercado financeiro.

Em recente audiência no Senado, a Coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lucia Fattorelli, explicou a situação. Segundo o boletim da entidade:
Refutando o argumento oficial de que os servidores seriam os vilões das contas públicas (e que por isso teriam de aceitar a entrega de suas aposentadorias para os fundos de pensão), Fattorelli mostrou que o verdadeiro problema do orçamento é a dívida pública, que consumiu 45% do orçamento federal em 2011. Fattorelli também mostrou em sua exposição a recente nota do Itaú-Unibanco em defesa da aprovação do Projeto, mostrando que são os bancos os verdadeiros interessados nesta proposta.

Por fim, Fattorelli pediu coerência a senadores do PT (...) que no ano 2000 votaram contra uma proposta idêntica feita pelo governo FHC.
Infelizmente, há poucas chances de que o apelo de Fattorelli seja ouvido. A palavra “déficit” vem do francês e pode ser entendida como saldo negativo. Exatamente a situação em que se encontra a moral das lideranças petistas.

Leia também: A corrupção que nasce das leis

segunda-feira, 19 de março de 2012

Marx e os Irmãos Marx contra a Google

A unificação das políticas de privacidade da Google tem dado o que falar. Até o início de março, o portal armazenava informações de seus assinantes em separado. Elas eram agrupadas e relacionadas a cada um dos 60 serviços oferecidos pela empresa.

Muita gente desconfia da medida. De fato, apenas alguns dados de uma pessoa, entre dezenas de milhões de cadastrados, dificilmente permitirão que ela seja identificada. Mas quando eles são cruzados, é bastante provável que se chegue a uma identificação precisa.

No entanto, há outro aspecto negativo nessa questão. E está ligado exatamente à justificativa da Google para adotar a unificação. O cruzamento dos dados permite que sejam oferecidos bens, serviços e informações de acordo com os gostos, preferências e necessidades do usuário.

Por exemplo, o que resultaria de uma busca com a palavra “Marx”? Depende. A pessoa que pesquisa pode ser um militante político. Seu perfil de compras e interesses no sistema indicará essa condição. Serão apresentadas informações sobre Karl Marx. Do contrário, podem ser exibidas páginas sobre os Irmãos Marx.

Desse modo o sistema elimina buscas inúteis. Impede que sejamos expostos a dados que não desejamos. E aí é que está o problema. O outro lado dessa moeda é uma crescente padronização. Uma domesticação de nossa curiosidade. Uma proteção contra surpresas que podem ser muito agradáveis.

Em nosso exemplo, alguém pode ficar sabendo tudo sobre a obra revolucionária de Marx e nada sobre o humor anárquico dos Irmãos Marx. E vice-versa. Mas precisamos de ambos para derrotar a chatice reinante. Revolucionar uma vida cada vez mais guiada por mecanismos de buscas.

Leia também:
Direitos autorais e o lampião de Jefferson
Menos Google e Facebook, mais luta

sexta-feira, 16 de março de 2012

Steve Jobs prova a atualidade de Marx

“Novo iPad provoca filas pelo mundo”, dizem alguns jornais. É mais um produto da empresa que era presidida pelo falecido Steve Jobs. O detalhe é que a presença na fila não é obrigatória para adquirir o aparelho. As pessoas estão nela por devoção, mesmo.

Deve ser por isso que a jornalista Carla Rodrigues afirmou o seguinte:
Ninguém melhor do que Steve Jobs compreendeu o conceito de fetichismo de Marx, segundo o qual as relações sociais são mediatizadas pelos objetos (Valor - 20/01/2012).
Ainda a respeito de filas, a psicóloga Isleide Fontenelle diz em seu livro:
Até a inovação efetuada pelos irmãos McDonald, em 1948, a existência da fila para adquirir comida só parecia estar presente em guerras, prisões ou situações de privação que levassem alguém a conseguir comida por meio de atos de caridade (“O Nome da Marca - McDonald's, Fetichismo e Cultura Descartável” - Boitempo, 2002).
Em 14/03, completaram-se 129 anos da morte de Marx. Desde então, o capitalismo vem provando que ele estava certo em muitas de suas conclusões. É como disse Jean-Paul Sartre, com algum exagero: “não é minha culpa se a realidade é marxista”. O mesmo Sartre também diria:
...o marxismo é uma descrição verdadeira de um homem inteiramente falso, de um homem falseado pelas próprias premissas de suas técnicas e de suas necessidades.
O que viria a ser verdadeira essência do ser humano para Sartre é outra questão. Mas não deve ter nada a ver com a permanência em filas sem objetivo algum.

De qualquer maneira, esse beco sem saída é produto da ação humana. Como tal, só pode ser superada pela própria ação humana. É por isso que Engels, no funeral de seu parceiro, disse:
Marx era antes de tudo revolucionário. Contribuir, de um ou outro modo, com a queda da sociedade capitalista e de suas instituições estatais, contribuir com a emancipação do moderno proletariado, que primeiramente devia tomar consciência de sua posição e de seus anseios, consciência das condições de sua emancipação – essa era sua verdadeira missão em vida.
Ou é isso, ou é procurar um lugar na fila. Que, aliás, também costumam ser frequentes em matadouros.

Leia também:
Banqueiro elogia Marx por motivos errados
Steve Jobs e a moderna maldição humana

quinta-feira, 15 de março de 2012

Rio+20: biodiversidade e mudanças climáticas

A agricultura camponesa alimenta 70% da população mundial. É o que garante Pat Mooney, diretor da ONG canadense ETC Group. A declaração está em ótima reportagem de Raquel Júnia para o site da Fiocruz.

Um dos aspectos destacados pelo canadense é a importância da biodiversidade. Segundo Mooney:
O sistema de agricultura industrial trabalha com, no máximo, 150 variedades de alimentos. No entanto, o foco principal deles está em 12 variedades. Eles alegam que se puderem fazer uma engenharia dessas 12 variedades, resolvem a questão da alimentação. Enquanto isso, a rede mundial de agricultura camponesa trabalha com sete mil espécies. Então, quem vocês acham que vai nos dar as maiores chances de nos alimentar diante das mudanças climáticas?
O que ele quer dizer com isso? Provavelmente, que quanto maior a diversidade, menores os prejuízos com mudanças bruscas no ambiente. Por exemplo, uma determinada região pode passar de úmida a seca em pouco tempo. Isso poderia inviabilizar o cultivo de várias espécies nativas daquele ambiente. Mas elas poderiam ser substituídas por outra espécie, mais adequada ao novo clima.

No entanto, o meio mais rápido de responder a essa situação seria recorrer à biodiversidade do planeta. Já a solução favorita do agronegócio é a adaptação genética das plantas. Um processo muito mais caro e imprevisível. Sem falar que sua lógica é a mesma que vem causando as desastrosas alterações no clima do planeta.

Além disso, maior diversidade oferece mais chances de que algumas de suas espécies sobrevivam. E estas poderiam se tornar uma nova fonte de recursos. Isso não acontece em relação à monocultura promovida pelos monopólios de alimentos e insumos. São grandes extensões com apenas uma espécie. Se esta desaparecer, dificilmente será substituída rapidamente por outra.

Este é apenas um dos aspectos levantados por Mooney. Há muitos outros igualmente importantes. Por isso, vale a pena ler a reportagem na íntegra: “Apenas a agricultura camponesa vai alimentar o mundo no momento de crise”, diz especialista.

Leia também: Rio+20: verde, só o da cor do dinheiro

quarta-feira, 14 de março de 2012

Guerras e dívidas permanentes

Em “1984”, George Orwell apresenta alguns dos mecanismos em que se baseia uma sociedade autoritária. Um deles afirma que a paz verdadeiramente permanente seria garantida pela guerra permanente.

Tony Cliff abordou a questão do ponto de vista marxista. Adotou o conceito de “economia armamentista permanente”. Como se sabe, a principal origem das crises do capitalismo é sua incapacidade de consumir tudo o que produz. Os gastos em guerras seriam uma das saídas para esse problema.

Despesas com armas e tecnologia militar destroem capital e força de trabalho excedente. Literalmente. Não à toa, a pior crise econômica do século 20 desembocou no maior conflito bélico da história.

Também não deve ser casual que as guerras tenham triplicado no mundo em 2011. É o que dizem dados do Instituto de Heidelberg de Pesquisa Internacional de Conflitos, divulgados em fevereiro passado. Combina com o fato de estarmos em plena crise mundial.

Porém, o mecanismo citado por Orwell não tem efeitos apenas econômicos. Claro que guerras são ótimos pretextos para cortes em orçamentos sociais, por exemplo. Mas também para medidas conservadoras. Em nome da "defesa da pátria", podem ser restringidos direitos como o de greve e os protestos contra governos.

Em sua recente visita ao Brasil, o marxista inglês David Harvey abordou o problema das dívidas públicas. E citou a questão bélica:
Os EUA gastam o dobro dos países do resto do mundo em armas e aparatos bélicos. Corte o orçamento militar pela metade e não haverá mais dívidas. É fácil, a dívida desapareceria. Mas não é possível fazer algo assim, politicamente (Caros Amigos - Edição 179).
O pagamento das dívidas públicas parece ter se tornado tema tão sagrado quanto a luta contra um inimigo externo. Mas, em ambos os fronts, os inimigos de fora contam com poderosos aliados aqui dentro. Estão nos palácios e na direção das grandes empresas.

Leia também: 2012 sem apocalipse. Só chegaremos perto

terça-feira, 13 de março de 2012

Fanatismos científicos

Para quem acredita que a ciência tem sempre a última palavra:

Em 1954, Vladimir Demikhov chocou o mundo ao apresentar o resultado de seu experimento: um cachorro com duas cabeças, criado cirurgicamente. Mas a monstruosidade não para por aí. O cientista não implantou apenas a cabeça, mas toda a região dianteira de um filhote no pescoço de um pastor alemão já adulto. Os jornalistas quase não conseguiam acreditar no que estavam vendo, principalmente quando as duas cabeças começaram a beber leite simultaneamente.

A União Soviética bradava o feito de Demikhov como prova da superioridade de seus médicos e, durante 15 anos, o russo criou 20 cães de duas cabeças, sendo que nenhum viveu durante muito tempo. O recorde de vida foi de um mês, já que havia uma rejeição muito grande do tecido enxertado.

Como era de se esperar, o feito de Vladimir Demikhov acabou irritando outra superpotência da época, os Estados Unidos. Por isso, na tentativa de mostrar que os seus cirurgiões eram melhores, o governo americano financiou Robert White em uma série de cirurgias experimentais que resultaram no primeiro transplante de cabeça de macaco do mundo, em 14 de março de 1970.

Quando o macaco acordou no novo corpo, ele começou a seguir o cirurgião com os olhos e a demonstrar raiva, deixando claro que não gostou do que tinha acontecido. Infelizmente, a cobaia sobreviveu por apenas um dia e meio, vindo a falecer devido a complicações cirúrgicas.
Os trechos acima estão em “Os 6 experimentos científicos mais assustadores da história”. Nos últimos tempos, a ciência voltou-se principalmente para pesquisas com fins lucrativos. Em nome disso, há grande chance de cometer erros grosseiros. Com o agravante de que pode atingir grande parte da população. É o que se pode temer, por exemplo, em relação à transgenia de alimentos.

Leia também: Christopher Hitchens e o fanatismo ateu

segunda-feira, 12 de março de 2012

No país mais populoso, cidades desertas

Quase 1,4 bilhão de pessoas vivem na China. Mas de forma muito concentrada. Somente na província de Henan mora o equivalente à metade da população brasileira. Isso se deve, em grande medida, à enorme área tomada por desertos no país.

Mais de um quarto do território chinês é inabitável. Produto da combinação entre fatores climáticos, séculos de plantio descontrolado e décadas de consumo exagerado de água. A maior população do mundo tem custos ambientais enormes. Mas esta é só uma parte dos problemas chineses.

Recente reportagem do canal australiano SBS revela a existência de cidades novas e praticamente desertas no país. As imagens mostram ruas vazias, lojas fechadas, escadas rolantes paradas. Há edifícios públicos, hotéis, parques e apartamentos. A grande maioria sem moradores, clientes ou inquilinos.

Uma dessas cidades é Daya bay. Cerca de 70% de seus edifícios recém-construídos estão vazios. Um apartamento na cidade custa entre 17 e 100 mil dólares. O salário médio anual da população chinesa não passa de 6 mil dólares.

Um especialista no setor imobiliário diz que são 64 milhões de imóveis vazios no país. E atribui o fenômeno à necessidade de manter um “aumento fictício do PIB”. Segundo ele, trata-se dos efeitos de uma “economia de comando”. A ordem para construir vem de cima e é obedecida. Haja ou não demanda.

Tudo isso é receita certa para o estouro de uma bolha imobiliária no país. Algo parecido com o que aconteceu nos Estados Unidos, mas, talvez, ainda mais grave. É a economia de comando imitando a economia de mercado.

Veja a reportagem aqui.

Leia também: Na China, o comunismo pirateado

sexta-feira, 9 de março de 2012

O consumismo e as necessidades do espírito

Em janeiro de 2012, Bettina Barros escreveu o artigo “Os perigos de um mundo descartável” no jornal Valor Econômico. Um trecho:
Em 2009 foram lançados no país 163 modelos de televisores de tela plana. O que já parecia alto subiu ainda mais em 2011, com o auge de 256 novos modelos apresentados em um único ano (de janeiro a novembro). Nesse mesmo período, a oferta de novos celulares saltou de 116 para 175 e a de computadores de mesa, de 476 para 835. Isso foi somente no Brasil, desconsiderando mercados maduros de alta renda, onde os volumes são ainda mais expressivos, segundo a consultoria GfK, que compilou as informações a pedido do Valor.
O fenômeno tem a ver com a incorporação de novos setores populacionais ao mercado consumidor. Como diz o artigo:
A entrada no mercado de uma classe média mundial gigantesca e sedenta por novidades, que vê nas aquisições desses objetos uma forma de acesso à cidadania, fez o modelo de consumo adotado e dominado pelos Estados Unidos no século 20 - o "american way of life" - replicar em uma escala asiática.
Ou seja, é o modelo de consumo norte-americano que o resto do mundo tenta imitar. Um objetivo que se fosse alcançado apenas pela população chinesa, exigiria recursos naturais de vários planetas Terra.

Diante disso, são muitos os que pedem moderação no consumo. Dentre estes, há até quem se diga marxista. Uns e outros deveriam prestar atenção a uma nota de rodapé de “O Capital”. Na seção 1 do capítulo 1, está escrito:
O desejo implica a necessidade; é o apetite do espírito, que lhe é tão natural quanto a fome para o corpo (...) A maior parte [das coisas] retira seu valor do fato de satisfazerem as necessidades do espírito.
Trata-se de uma frase de Nicholas Barbon, na obra “A Discourse on coining the new Money lighter”, de 1696.

Cabe perguntar quais são os “apetites do espírito” despertados pelo capitalismo. É o desejo por coisas transformadas em mercadorias. E quem é responsável por esse tipo de fome? É a indústria, que vive do desperdício em larga escala.

Fácil para quem já passou por vários estágios de comilança mercantil pedir moderação aos que mal começam a se lambuzar. Consumo responsável é possível. Não sem antes atacar o centro da irresponsabilidade ambiental: o controle privado dos meios de produção.

Enquanto isso não entrar na pauta, “consumo responsável” dificilmente deixará de ser só mais uma desculpa para consumir com exagero.

Leia também: Tempero bom em carne podre

quinta-feira, 8 de março de 2012

1917: operárias russas atropelam bolcheviques

Ao contrário da versão oficial, o Dia Internacional das Mulheres não nasceu nos Estados Unidos em 1911. Nesta data, centenas de operárias de uma tecelagem nova-iorquina teriam morrido em um incêndio. Na verdade, o 8 de março já era Dia das Mulheres antes disso. E a data deveria ser lembrada por outro motivo.

Era 23 de fevereiro pelo calendário russo. No calendário ocidental, correspondia a 8 de março. O ano, 1917. Em "A História da Revolução Russa", Leon Trotsky explica:
Nenhuma organização planejava alguma greve para aquele dia. (...) Mas, contra todas as orientações, as operárias têxteis abandonaram o trabalho em várias fábricas e enviaram delegadas aos metalúrgicos para pedir-lhes que apoiassem a greve.

Foi a contragosto, que os bolcheviques, seguidos pelos operários mencheviques e pelos socialistas de esquerda se juntaram à marcha. Na véspera, ninguém teria imaginado que este Dia das Mulheres pudesse ter inaugurado a revolução.
A mais importante lição deste episódio foi a atitude das operárias russas. Elas decidiram manter sua decisão contra a vontade dos marmanjos das direções operárias. À frente deles, os bolcheviques. Mas estes fizeram o correto. Engoliram seu orgulho machista e as seguiram.

Somente assim as revoluções podem ser vitoriosas. Atropelando os preconceitos usados pela ideologia dominante para dividir os trabalhadores entre explorados e humilhados.

Mas, então, por que esse momento tão importante da luta das mulheres ficou esquecido? Para saber a resposta clique aqui e leia “O Dia da Mulher nasceu das mulheres socialistas”, de Vito Giannotti.

Leia também:
A dupla jornada do feminismo
“Então, não sou uma mulher?”

A revolução liderada por operárias negras, jovens e gays

É mais ou menos isso que pensava Tony Cliff, revolucionário inglês nascido na Palestina. A ideia está num artigo escrito por ele em 1978. Com o título “Por que os socialistas devem apoiar a luta dos gays”, o texto denuncia a dificuldade dos socialistas em assumir a luta contra a opressão. Contra a perseguição e humilhação que atinge grupos sociais como as mulheres, negros e gays.

Cliff afirma que somos produto de uma sociedade “ordenada e hierárquica”. Segundo ele:
As regras do sistema foram feitas para nos dividir. Isto significa que a identificação entre os vários grupos oprimidos não acontece de forma natural. Os racistas mais fanáticos dos Estados do Sul da América são os brancos pobres - e não os brancos ricos.
A opressão que muitos de nós sofrem costuma ser redirecionada a outros. É por isso que gays podem ser racistas, muitos negros são machistas e há mulheres homofóbicas. É por isso que também há negros racistas, mulheres machistas e gays homofóbicos. Cliff cita ainda os preconceitos contra os mais jovens. Quase sempre considerados esquerdistas ingênuos pela militância mais madura.

A classe dominante assiste feliz a tudo isso. Segue sustentando seu sistema de exploração.

O desafio do movimento socialista é oferecer uma alternativa de luta que supere todos esses obstáculos internos aos explorados. Se um dia conquistarmos essa vitória, nosso movimento será liderado por várias mulheres trabalhadoras, que sejam ao mesmo tempo negras, gays e jovens.

Leia o texto de Cliff na íntegra, clicando aqui.

Leia também: Eleger ladrão pode. Ateus e gays, não

quarta-feira, 7 de março de 2012

Na China, o comunismo pirateado

O Congresso Nacional do Povo está reunido em Pequim. Trata-se do órgão dirigente máximo da China. O detalhe é que entre seus 3 mil membros há 70 multimilionários. Segundo o jornal Valor de 04/03, estes verdadeiros magnatas:
...aumentaram mais suas fortunas no ano passado do que o total combinado dos bens de todos os 535 membros do Congresso dos Estados Unidos, do presidente Barack Obama e seu gabinete e dos nove juízes da Suprema Corte americana.
Mas esta não é maior das contradições a envolver o “gigante asiático”. Durante a sessão de abertura do congresso, o premiê Wen Jiabao anunciou uma desaceleração econômica para 2012. A previsão é de queda da expansão em 1%. Foi o bastante para derrubar bolsas de valores pelo mundo.

O pânico é justificável. A China é atual o parque industrial do planeta. É lá que está a maior classe operária de todos os tempos. Cerca de 200 milhões de homens e mulheres. Todos e todas devidamente explorados e superexplorados. A maior parte dos lucros que geram fica com uma minúscula parte dos chineses e com os maiores grupos empresariais globais.

Isso tudo mostra pelo menos três coisas. Primeiro, a exploração da classe operária nunca deixou de ser necessária e central para o sistema. Segundo, tamanha concentração de operários tem um potencial explosivo tremendo. Terceiro, a China só pode ser considerada comunista, se for em uma versão pirateada daquelas bem ordinárias.

Leia também: A crise mundial e a síndrome da China

terça-feira, 6 de março de 2012

O governo petista, amigão dos grandões

Dois dados confirmam a vocação petista para agradar aos poderosos.

O primeiro é produto de levantamento feito pelo Sebrae com base em dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho. Eles dizem que as micro e pequenas empresas puxaram a contratação de trabalhadores no início de 2012. Os empregadores com o máximo de quatro funcionários foram responsáveis por quase 86% dos empregos formais gerados no país no primeiro mês do ano.

O segundo diz que, em três anos, o BNDES liberou R$ 230 bilhões para incentivar a economia. Mas desse total, 65% foram destinados a grandes empresas, com taxas de juros parecidas com aquelas cobradas das pequenas. Embora as micro, pequenas e médias empresas respondam por quase 86% do volume de operações, as grandes corporações ficaram com cerca de R$ 150 bilhões, os tais 65% do total.

O governo justifica. Diz que as grandes empresas realizam investimentos estruturais importantes para a economia como um todo. Faz sentido. Mas só se concordarmos que a “economia como um todo” precisa continuar patrocinando uma das sociedades mais injustas do planeta.

Leia também: Dilma, ainda mais à direita

domingo, 4 de março de 2012

O Rio de Janeiro de verdade

É bem antipático criticar a aniversariante em plena festa. Perdoável quando os festejos dizem respeito a uma cidade com cerca de 6,5 milhões de habitantes. A maior parte deles muito maltratada por seus governantes.

As belezas naturais cariocas são inegáveis, é verdade. Mas são para poucos. É o que revela reportagem do caderno “Razão Social”, de O Globo, publicado em 28/02. A matéria cujo título é “Índice verde do Rio revela cidade partida” diz:
Cálculo inédito da prefeitura mostra que, enquanto na Baixada de Jacarepaguá há 145 m2 de cobertura florestal por habitante, na Zona Norte o índice é de apenas 3,44.
O texto afirma também que:
São 80 os bairros que já possuem menos de 1% de cobertura vegetal nativa de Mata Atlântica e 63 estão na Zona Norte.
Por outro lado, pesquisa realizada em 2007 pela UniverCidade concluiu que metade dos cariocas nunca foi ao Pão de Açúcar, 40% nunca foram ao Corcovado e 45% jamais visitaram o Jardim Botânico.

Bem longe do quesito belezas naturais, há outros dados. Muito feios, segundo a edição de O Globo de 02/03:
Na comemoração do aniversário de 447 anos da cidade do Rio de Janeiro, pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde em 01/02, o município aparece em último lugar em relação aos serviços oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Pode parecer estranho que a divulgação de tais dados seja feita exatamente por quem promove todo o “oba-oba” em torno da cidade. Mas é assim que a grande mídia mostra como sabe fazer cabeças.

Festejos são exibidos no atacado. No varejo, as contradições. Em geral, para que o povo confie mais na grande imprensa e menos nos governantes que ela própria ajudou a eleger.

Enquanto for assim, fica valendo o Rio exibido pelas novelas da Globo. O resto é que é fantasia.

Leia também: O Rio no cinema: fofura e violência

quinta-feira, 1 de março de 2012

Direitos autorais e o lampião de Jefferson

Se a natureza produziu uma coisa menos suscetível de propriedade exclusiva que todas as outras, essa coisa é a ação do poder de pensar que chamamos de idéia, que um indivíduo pode possuir com exclusividade apenas se mantém para si mesmo. Mas, no momento em que a divulga, ela é forçosamente possuída por todo mundo. Seu caráter peculiar também é que ninguém a possui de menos, porque todos os outros a possuem integralmente. Aquele que recebe uma idéia de mim, recebe instrução para si sem que haja diminuição da minha, da mesma forma que quem acende um lampião no meu, recebe luz sem que a minha seja apagada.
Estas palavras não são de nenhum defensor do livre compartilhamento de arquivos digitais. São de Thomas Jefferson e foram escritas em 1813. Elas têm tudo a ver com duas propostas de lei em discussão nos Estados Unidos: o Stop Online Piracy Act (SOPA) e o Protect IP Act (PIPA).

Para ter uma ideia do que essas propostas representam, veja abaixo trecho de uma entrevista com Vicente Aguiar. Ele é mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia, e falou para o site IHU On-Line.
Por exemplo, se o site de vocês publica uma informação que veio de um livro, mas vocês não podem usar tal informação, porque estarão infringindo o copyright, já será alvo de uma possível denúncia. Ou se decidem extrair uma citação, uma imagem, ou um conteúdo pego com referência, mas que foi mal citado, o autor pode discordar ideológica ou politicamente da sua abordagem na reportagem e tirar o conteúdo do ar. E você, ou o site que você representa como provedor de conteúdo, terá que ser obrigado a retirar o conteúdo por causa da denúncia e não em função da comprovação. Esse é o problema. Como tirar um conteúdo do ar se não existe prova de que aquilo, de fato, foi uma violação a determinado copyright?
Aguiar ainda alerta para os efeitos mundiais que a aprovação dessas leis traria:
...a maioria da infraestrutura que garante o funcionamento da internet é dos Estados Unidos. Então, hoje, tudo o que impacta nos Estados Unidos em termos de internet acaba também impactando para o mundo de uma forma muito intensa.
O respeito a direitos autorais é mais do que justo. Ele serve para incentivar a criação e a invenção. Mas não pode virar privilégio permanente nem ser controlado por uma poderosa minoria. A criatividade e engenhosidade individuais são produto de um longo acúmulo de conhecimento social. Não deve tornar-se propriedade de alguns poucos.

A verdade é que a legislação em debate nos Estados Unidos pretende manter e fortalecer os enormes grupos empresariais de comunicação, tecnologia e diversão. Seus representantes não querem apenas roubar a luz do lampião de Jefferson. Querem seu monopólio total. A maioria da sociedade que fique no escuro.

Leia também: O livro já teve seus dias de facebook