terça-feira, 2 de outubro de 2012

Mesmo com 50 tons, cinza ainda é cinza

O mais recente campeão literário de vendas é "50 Tons de Cinza", da inglesa E. L. James. Apesar do enorme sucesso, o livro tem recebido críticas pelo papel submisso reservado à personagem principal. Dizem que a protagonista é seduzida pelas práticas masoquistas de seu parceiro dominador.

Mas, talvez, o maior problema não seja este. Afinal, trata-se de obra de ficção. Mais grave é concluir que o livro faz sucesso porque atende às necessidades do erotismo feminino. E este se caracterizaria por valorizar a imaginação, em oposição ao entusiasmo masculino pelas imagens. Para eles, o explícito das revistas pornôs. Para elas, o implícito dos livros eróticos.

Pode até fazer sentido, mas não porque sexualidade das mulheres seja naturalmente bem comportada. Na verdade, a iniciativa erótica feminina vem sendo reprimida pelo machismo há milênios. As mulheres devem manter-se à espera do parceiro. Dar-se à escolha, jamais escolher. Já quanto aos homens, espera-se a disposição de predador insaciável, permanente garanhão oportunista e violento.

Simone de Beauvoir disse que ninguém nasce mulher, torna-se. O prazer feminino não está condenado a algumas possibilidades eróticas. O mesmo vale para o desejo masculino. A vida sexual humana não obedece a leis naturais. Seus limites são sociais e culturais. Podem e devem ser tensionados, alterados, rompidos, enriquecidos.

Por mais tons que se descubra no cinza, continua sendo cinza. A sexualidade humana pode abranger todo o espectro cromático dos desejos eróticos. Oferecer todas as cores para mulheres e homens nas gradações mais variadas.

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