segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Capitalismo é promessa de dívida

O país mais poderoso do mundo é o maior devedor, também. Grande parte do dinheiro que circula no planeta é lastreada em títulos da dívida americana. Os bancos vivem de dinheiro gerado por dívidas privadas. O mercado de capitais nada mais é que o acúmulo de dívidas entre empresas e acionistas. Ações são débitos contraídos com base em valores muitas vezes superiores àqueles das mercadorias efetivamente produzidas.

Aparentemente, funciona assim: no capitalismo, a enorme maioria das pessoas cria valor através da venda sua força de trabalho para uma pequena minoria. Mas, o valor criado por essa maioria é muito maior do que aquele que ela mesma pode consumir. A minoria rica, por outro lado, não consegue gastar seus lucros astronômicos em consumo próprio. Reinveste quase tudo em mais produção.

Não pode funcionar. A tendência é produzir sempre mais mercadorias do que o mercado pode absorver. Daí, as freqüentes crises. Maiores ou menores, nestes ou naqueles ramos. Para evitá-las, a solução é vender a crédito. Ajuda, mas não soluciona. O volume de dívidas cresce mais rápido que a capacidade de sua quitação. Esse mecanismo está na raiz da crise imobiliária americana de 2008.

Quando a crise chega, os governos emprestam dinheiro aos empresários a juros generosos. Geram mais endividamento. Mais papéis para especulação. Os espertos capitalistas chineses sabem disso. Já possuem a maior parte da dívida americana. Estão comprando títulos de dívidas pelo mundo afora.

Nesse mercado, estamos entre os favoritos. Nossa enorme dívida pública paga os mais altos juros do mundo, concentrando muita renda e patrimônio.

Parece coisa de maluco, mas é só capitalismo. Insustentável.

Leia também Dívida pública: pirata e cara!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Comodidade que mata de fome

Nicolas Sarkozy anda falando muito sobre crise alimentar. Chegou a insinuar que a alta nos preços dos alimentos estaria por trás da Revolução na Tunísia. Tenta desviar a atenção das desgraças causadas pelo imperialismo francês na vida do povo tunisiano.

Mas o verdadeiro alvo do presidente francês é o mercado de alimentos. Na reunião do G-20, ele defendeu a formação de estoques reguladores internacionais de alimentos. Não passa de uma tentativa de aumentar o controle dos países ricos sobre esses recursos.

A representação brasileira denunciou corretamente a proposta. Pena que o tenha feito para defender o agronegócio instalado por aqui e sob controle estrangeiro.

Mas, a ameaça é real. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) já havia alertado. Os preços mundiais de vários alimentos estão muito altos. A entidade teme a repetição da crise de 2007.

Não se trata de escassez. Em 2008, a safra mundial foi recorde. Mais de 2,2 bilhões de toneladas de cereais. Em 2009 e 2010, as safras foram só um pouco menores. Acontece que mais de 30% dessa produção viram ração animal. E uma parte cada vez maior torna-se agrocombustível.

Por outro lado, a especulação financeira só piora a situação. Uma safra ruim em um setor provoca fuga de investimentos para outros setores. Nestes últimos, a procura dispara e os preços também.

É uma crise de commodities, dizem os especialistas. Commodity é matéria-prima que pode ser estocada em grande quantidade e por longo prazo. Uma verdadeira comodidade para os capitalistas. Eles têm mais tempo para especular. Enquanto ganham bilhões, milhões morrem de fome.

Leia também: Queimadas mostram que não existe capitalismo verde

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Redes sociais não fazem revolução

Revolução na Tunísia. Protestos no Egito e na Argélia. Acontecimentos que há muito tempo não se via na região. Será que os povos árabes estavam esperando a invenção do Twiter? Ou do Facebook? A julgar pela grande imprensa, sim.

Como disse Judith Orr, editora do jornal Socialist Worker:
Não devemos confundir um instrumento de luta com a luta em si. O Twitter não forçou Ben Ali a fugir do país que governou por 23 anos. Assim como não foram paredes pichadas ou folhetos que derrubaram o czar da Rússia em 1917.
Dizer que as redes sociais tornaram possível as revoltas que vêm ocorrendo é um exagero proposital. Procura esconder as contradições concretas que levam povos a se rebelar. De acordo com as Nações Unidas, uma em cada três pessoas no mundo árabe vive abaixo da linha da pobreza.

A Tunísia tem uma economia considerada dinâmica. Deve crescer quase 5% este ano. Mas, dados do FMI dizem que o país tem uma taxa de desemprego de 14%. O dobro disso para jovens até 25 anos.

A economia do Egito cresceu acima dos 7% nos últimos anos. Na última classificação do Banco Mundial sobre ambiente para negócios, o país subiu 5 posições. Mas 40% da população vive abaixo da linha da pobreza.

Tudo isso é fruto de políticas neoliberais aplicadas por ditaduras queridinhas do imperialismo europeu e estadunidense.

É verdade que as redes sociais vêm tendo seu funcionamento dificultado na região. Mas, é assim que ditaduras e governos ameaçados costumam reagir. Se preciso, fecham ou censuram meios de comunicação. Às vezes, até aqueles que são de sua confiança.

Claro que censurar a internete é bem mais difícil. Uma dificuldade que o capitalismo criou para si mesmo. Uma situação que devemos aproveitar. O problema é que quase tudo que circula nas redes sociais tem conteúdo conservador. Muito consumismo, preconceitos, ofensas, ignorância.

Redes sociais não fazem revolução. Em geral, atrapalham.

Um bom texto sobre a questão é A revolução não será tuitada, de Malcolm Gladwell

Leia também Facebook: solidões acompanhadas

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Chorando o leite derramado da Nestlé

O governo anuncia que pretende restringir a presença do capital internacional na exploração dos recursos naturais brasileiros. Parece que a medida foi provocada principalmente pela gula chinesa. A China liderou o investimento estrangeiro direto no Brasil em 2010. Trouxe pra cá US$ 17 bilhões. Quase um terço do total. Boa parte disso foi usada no setor de mineração. US$ 7 bilhões, na compra de 40% do capital da petrolífera Repsol.

O fato é que nunca entrou tanto dinheiro estrangeiro no Brasil como nos últimos anos. E nunca houve tantas fusões e aquisições. Números comemorados por especialistas, empresários, governos e pela mídia comercial. Então, é melhor desconfiar.

O economista Adriano Benayon publicou três artigos sobre desnacionalização da economia na revista “A Nova Democracia”, entre novembro de 2010 a janeiro de 2011. Segundo, Benayon, “Em todos os setores da economia, as transnacionais vêm ampliando e aprofundando seus domínios”. Alguns dados sobre os investimentos estrangeiros:
Em 2001, 59,6% de seus investimentos foram no setor de serviços, 33% na indústria, e 7,1% em agropecuária e mineração. Em 2008, esses percentuais passaram a 38%, 32% e 30%.
A verdade é que o capital estrangeiro está no controle da economia nacional há bastante tempo. Ainda segundo Benayon:
75%, do capital total das grandes e médias empresas em atividade no Brasil [estão] sob controle de subsidiárias, registradas no Brasil, de transnacionais com matrizes sediadas no exterior, ou diretamente por empresas estrangeiras.
Ao mesmo tempo, o economista diz que “gigantes nacionais”, como a Petrobras e a Vale, têm a maior parte dos lucros abocanhada por acionistas estrangeiros. Considerando-se esse tipo de participação, aqueles 75% de controle internacional subiriam para uns 90%.

Detalhe: a Repsol, invadida pelos chineses, é espanhola. Então, falar em defender a indústria nacional é como chorar um leite que foi derramado há muito tempo. Aquele cuja produção está sob controle da Nestlé, Parmalat, Fleischmann-Royal, Cirio e Danone.

Melhor admitir que a idéia é proteger os capitalistas transnacionais que já exploram nossos recursos naturais contra seus concorrentes asiáticos.

Leia também: Limitação mais que limitada

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

São Paulo aos 600 anos

São Paulo nunca foi fácil. Aos 457 anos, está cada vez mais difícil. É o preço que a cidade paga por ser o centro do capitalismo em um país com desigualdades radicais. Nesse caminho, pode tornar-se inviável. Pelo menos, quanto a oferecer uma vida urbana com alguma dignidade para a maioria de seus moradores.

De qualquer modo, a loucura paulistana tem sua estranha beleza. Uma espécie de “deselegância discreta” que cativa. Um de seus mais geniais filhos escreveu belas letras para essa loucura toda. Trata-se de Itamar Assumpção. Abaixo, um trecho de “Persigo São Paulo”:
São Paulo é uma outra coisa / não é amor exatamente / é identificação absoluta / Sou eu / Eu não me amo, mas me persigo / Eu persigo São Paulo
Outro trecho. Desta vez, de “Venha Até São Paulo”:
Quem vem pra São Paulo meu bem jamais esquece / Não tem intervalo tudo depressa acontece / Não tem intervalo / Vai e vem e tchan e tchum êta sobe desce / Gente do nordeste, do norte aqui no sudeste / Batalhando nesse mundaréu de mundo que só cresce / Só carece / Venha até São Paulo relaxar ficar relax / Tire um xérox, admire um triplex / Venha até São Paulo viver à beira do estresse / Fuligem catarro assaltos no dia dez
Mas, será que dá pra imaginar São Paulo como um lugar tranqüilo, ordenado, “civilizado”, humano? É o que Luiz Tatit tenta em “Deu pane em São Paulo”. Neste samba meio quadrado, a cidade não sofre uma “pane”. Na verdade, finalmente começa a funcionar como um lugar feito para pessoas viverem. Na música de Itamar, São Paulo “não tem intervalo”. Na de Tatit, só tem “uma hora de trampo”:
O povo todo delira / E nem acredita que está em São Paulo / Uma hora de trampo / E o resto do dia é só intervalo / E pro trabalho pesado / Cavalo, cavalo / E ainda assim / Com todo o cuidado / Para poupá-lo
Essa música inspirou um texto escrito em 2004. Uma projeção do que poderia ser São Paulo aos 600 anos. Sem trânsito, a arquitetura misturada à natureza, poucos crimes, jornadas de trabalho de três horas diárias. Um palpite utópico para um lugar cada vez mais insuportável. Para ler, clique abaixo.

Um palpite utópico sobre São Paulo aos 600 anos

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O BBB e 250 gays no paredão

Big Brother Brasil chega a sua 11ª edição. O programa consegue ser uma amostra de tudo o que há de mais podre no convívio social. São indivíduos voltados para o sórdido. Se for preciso, um usa o machismo. O outro, o racismo. Esta participante apela sexualmente. Aquele competidor semeia a discórdia. Uma outra é boa na mentira. Um grande ralo juntando podridão.

A crescente ridicularização de homossexuais na atração só reforçou esse quadro. É certo que houve até um vencedor gay, uma vez. Mas não é a regra. E muitos dos outros vencedores parecem ter sido deportados diretamente da era paleolítica. Além disso, o que não faltam são cenas eróticas entre casais heterossexuais. O mesmo não vale para pessoas do mesmo sexo. Gay tem que ser bem comportadinho. De preferência, um pouco folclórico. Vida afetiva devidamente reprimida. Caso contrário, dança.

Foi o que aconteceu agora com o transexual Ariadna, expulsa da casa depois de ter sua condição sexual utilizada para conquistar pontos na audiência. Talvez, seu maior crime tenha sido se envolver com um dos integrantes da casa. Claro que o rapaz logo se declarou desavisado.

Enquanto isso, o projeto contra a homofobia em discussão no Congresso acaba de ser arquivado. Ainda pode ser desarquivado, mas enfrenta muitas resistências. Seguimos sendo campeões mundiais em violência contra gays. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, foram mais de 250 casos de homossexuais assassinados no Brasil em 2010. Recorde histórico.

A eliminação de Ariadna foi simbólica, claro. Simboliza a violência física bem real de que são vítimas os homossexuais no Brasil. Um paredão de preconceitos com conseqüências fatais.

Leia também Pacote de maldades: homofobia racista

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Para deixarmos de ser foras da lei

Mexer com a natureza é perigoso, diz o senso comum. A baleia-azul está ficando surda. A orca está precisando gritar para se fazer ouvir. Resultado do barulho produzido pelos 100 mil cargueiros que cruzam os mares anualmente.

Há um grande lixão cheio de plástico do tamanho do estado do Mato Grosso no Oceano Pacífico. Mais de um milhão de aves marinhas e cem mil mamíferos marinhos morrem por ano por causa desse tipo de sujeira.

Ao mesmo tempo, diabéticos, surdos e míopes teriam desaparecido há milhares de anos se nos rendêssemos à ditadura da competição natural. O mesmo aconteceria em relação ao sexo. Segundo os ciclos naturais, só acasalaríamos em algumas épocas do ano. Não seria sexo. Só reprodução. Muito chato.

O fato é que nossa espécie surgiu desafiando as leis da evolução. O ambiente molda o destino dos outros animais. O destino do animal humano é moldar o ambiente. É a mordida na maçã, no Éden. Prometeus roubando o fogo. A caixa de Pandora escancarada. Grandes atos com grandes conseqüências. Para o bem e para o mal.

Precisamos aprender a moldar nosso próprio destino também. Enquanto não fizermos isso, vamos continuar a ser foras da lei. E agüentar punições cada vez mais duras. Por isso, algumas catástrofes naturais vêm atingindo até pessoas ricas

Não é que sejamos todos culpados igualmente. A pequena parte que se beneficia desse caos todo tem o maior interesse em mantê-lo. Só interessa à parte explorada e dominada da raça humana reagir. Combinar sua luta por sobrevivência com o combate ao capitalismo. Nem que seja preciso desobedecer algumas leis humanas pra isso.

Leia também: COP-16 reúne manda-chuvas desastrados

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Hora de limpar o cenário carioca

No dia do aniversário da capital fluminense, o Globo traz reportagem sobre a megaprodução “Rio”. O desenho animado deve estrear em abril e é dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha. Um criador realmente talentoso, como provam suas participações em obras como “Era do Gelo” e “Robôs”.

A produção conta com a vocação do Rio de Janeiro para ser cenário. Quase sempre na condição de “Cidade Maravilhosa”. O problema é que, como todo cenário, este também é muito mais aparência que realidade.

Ele começou a ser construído no começo do século 20. Momento da primeira grande operação de remoção e expulsão de pobres das áreas consideradas nobres ou prioritárias da cidade. É o famoso “bota abaixo” do prefeito Pereira Passos. Foi aí, que começou a surgir a imagem do Rio como cidade maravilhosa. E entre suas “maravilhas” não estavam a pobreza e o trabalho mal pago.

Nos quase 100 anos seguintes, ocorreram operações parecidas, em menor escala. Mas, a pobreza se alimenta de uma das estruturas sociais mais injustas do planeta. Teima em estragar o cartão postal. Então, uma nova edição do velho “bota abaixo” vem aí. Desta vez, para recepcionar as Olimpíadas em 2014 e a Copa em 2016.

Os governos querem dar uma boa “limpada” no cenário. Assim, ele pode ficar mais parecido com as caprichadas imagens virtuais do filme de Saldanha. Não é demais lembrar que ao primeiro “bota abaixo”, a população pobre respondeu com a Revolta da Vacina. Episódios não previstos no roteiro não podem ser descartados.

Leia também: Guerra no Rio é contra pobres e negros

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A função social da tragédia habitacional

Em julho de 2010, a arquiteta Ermínia Maricato deu uma entrevista à revista Caros Amigos. Apresentou dados esclarecedores sobre o caos urbano nas cidades brasileiras. Perguntada sobre a enorme desigualdade social no Brasil, ela respondeu que sua superação:

...passa essencialmente pela questão fundiária. Campo e cidade. Só terminando a história dessa segregação, não tem nenhum mistério. Uma parte da população constrói as casas, constrói fora da lei e não tem lugar nas cidades.
Ou melhor, não tem lugar no mercado. E o mercado é um lugar apertado. Do tamanho da concentração nacional de renda e patrimônio. Em São Luís (MA) ou Belém (PA), por exemplo, só cabem nele 10% da população, afirmou a arquiteta.

Em São Paulo, essa proporção sobe para uns 40%. Mas a capital paulista “concentra cerca de 22% da população que ganha acima de 20 salários mínimos do Brasil”, disse Ermínia. Daí, ser regra nacional a construção irregular, em locais perigosos, em áreas de preservação, sem planta, registro e alvará.

Um dos caminhos para começar a acabar com essa injustiça seria o respeito à função social da propriedade, segundo Ermínia. Este dispositivo constitucional subordina o direito à propriedade ao direito à dignidade humana. É só olhar ao redor para ver que nunca saiu do papel. Temos a maior concentração fundiária do mundo no campo. Nas cidades, o déficit habitacional brasileiro é equivalente a cerca de 6 milhões moradias.

Enquanto isso, há quase 6 milhões de imóveis públicos vazios. E vão continuar vazios porque a função da propriedade no Brasil é sagrada e devotada ao lucro. No campo, já sabemos disso há muito tempo. Os que desafiam esse dogma são perseguidos, reprimidos, mortos. Nas cidades, as chuvas fazem boa parte do trabalho sujo.

Leia também: Seis milhões de casas assombradas

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Números soterrados

A cobertura das enchentes pelo jornalismo empresarial foi inundada pelas emoções. A tragédia sensacionalista soterrou alguns números.

De 1990 a 2010, aconteceram cerca de mil mortes por tragédias naturais no País. A maioria por inundações ou deslizamentos. Em 2011, já são quase 700 mortos no Rio de Janeiro. Nesse ritmo, em poucos meses, serão 10 vezes mais vítimas fatais que a média anual.

Somente em 2009, foram 10 desastres naturais no País. A maior parte resultado de chuvas, deslizamentos de terra e enchentes. Também em 2009, o Brasil chegou ao 6º lugar entre os países com maior número de tragédias desse tipo. Portanto, não foi por falta de aviso.

Mas o governo do Rio gastou R$ 8 milhões com prevenção e R$ 80 milhões em contenção de encostas e repasses às prefeituras em 2010. Já o governo federal gastou 14 vezes mais consertando do que prevenindo. Consertar custa mais. Empreiteiras lucram mais.

Foram gastos menos de 3% dos R$ 442 milhões reservados no orçamento federal para a prevenção de desastres naturais. Enquanto isso, mais de R$ 112 bilhões sumiram na enxurrada dos juros da dívida pública. A mesma dívida que suga quase metade do Orçamento da União e é paga sem atrasos. Pacto diabólico que sacrifica grandes parcelas da população à lógica neoliberal.

Temos que romper com a escravidão aos números impostos pelo neoliberalismo. Precisamos de reforma urbana combinada com reforma agrária. Ambas radicais e sustentáveis. Contra o direito à propriedade e pelo direito à vida.

Leia também: Enxurrada de lágrimas

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Enxurrada de lágrimas

“Tem mais helicópteros de imprensa do que de resgate”. O depoimento é de Hudson Corrêa, repórter da Folha de S. Paulo, sobre as enchentes na região serrana do Rio. Foi publicado no site Comunique-se em 14/01. A frase é reveladora. Mais que salvar vidas é preciso produzir imagens trágicas. Montar um show para exploração da mídia empresarial.

A emoção é o ingrediente mais forte nessa receita espetacular. O desespero das vítimas. O heroísmo de bombeiros e voluntários. A coragem de repórteres e técnicos das empresas jornalísticas. Crianças que se salvam por milagre. A generosa colaboração popular. Tudo muito bonito, sem dúvida. Daí, as lágrimas, o choro, a comoção.

As principais e melhores conquistas sociais humanas são movidas por emoções. Nenhuma transformação social importante ocorreu sem a paixão da revolta. Sem a indignação contra as injustiças e a solidariedade no combate à exploração e à opressão.

O problema é transformar paixões tão humanas em fumaça lacrimogênea. É o que faz a grande mídia. Neste caso, trata-se de esconder o monopólio da terra. Desastre social que não faz estragos apenas na zona rural. Nossas principais cidades foram feitas e são administradas para minorias ricas e poderosas. À maioria pobre restam moradias ilegais, precárias, em locais perigosos.

Alguns dados até aparecem. Críticas consistentes emergem com dificuldade. Debates chegam a ser iniciados. Nada disso resiste muito tempo à enxurrada de lágrimas. É a dramaturgia jornalística ocultando o drama da violenta e injusta realidade urbana brasileira. Submersa nas águas podres da especulação imobiliária.

É de chorar, mesmo!

Leia também:

Enchentes oportunas

Janete Clair chegou aos telejornais da Globo

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Belo Monstro a serviço de gigantes

Abelardo Bayma era presidente do Ibama desde abril de 2010. Acaba de pedir demissão por razões pessoais. A grande imprensa diz que o verdadeiro motivo envolveria a concessão de licença ambiental definitiva para a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Bayma teria saído para não conceder a licença.

Bayma não é nenhum herói ambientalista. Ele concedeu licença ambiental para a construção da hidrelétrica de Teles Pires, no Mato Grosso, por exemplo. Trata-se de outra obra prejudicial ao meio ambiente e às populações locais. Bayma sempre foi um defensor do desenvolvimentismo destruidor do governo Lula.

Segundo nota do “Movimento Xingu Vivo Para Sempre”, a atitude do ex-presidente do Ibama é uma demonstração do tamanho das irregularidades envolvendo a construção de Belo Monte. Bayma estaria com receio de responder por tais irregularidades na Justiça.

Mas não se trata apenas de ilegalidades. Independente delas, tudo indica que Belo Monte somente serviria a interesses privados. A usina foi projetada para gerar 11 Megawatts de energia. Seria a terceira do mundo em potência, atrás de suas similares na China e em Itaipu. Mas, para fazer chegar essa energia ao restante do País é preciso construir linhas de transmissão a custos altíssimos. E o processo de licitação para essa parte da obra nem começou.

Ao mesmo tempo, empresas como Alcoa e Vale têm unidades no Pará. São produtoras de alumínio que devoram muita energia e água e emporcalham o meio-ambiente. São interessadas diretas na energia produzida por Belo Monte, juntamente com outras empresas do setor como Votorantim, Gerdau e CSN. É o Belo Monstro a serviço dos gigantes do Capital.

Leia a nota do Movimento Xingu Vivo Para Sempre

Leia também: Belo Monte: Lula pariu o monstro

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Agronegócio improdutivo

O agronegócio está entre os principais setores a defender mudanças no Código Florestal. Afirma que leis ambientais menos rígidas aumentariam a produtividade, gerariam mais empregos, desenvolveriam a economia nacional.

Mas, os latifúndios do agronegócio sempre perderam nesses três aspectos para as pequenas propriedades administradas por núcleos familiares. Um estudo realizado por Rosemeire Aparecida de Almeida, professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, confirma essa constatação.

Pra começar, a pesquisa mostra a enorme concentração da terra no Mato Grosso do Sul. Propriedades com menos de 50 hectares (ha) representam mais de 58% dos estabelecimentos e detêm apenas 2% da terra. Enquanto isso, áreas acima de 1.000 ha representam 10%, mas possuem quase 77% do território.

Mesmo ocupando tão pouca terra, a agricultura familiar produz mais de 71% das aves, 70% dos suínos e 46% do leite. Em relação à produtividade, foram comparados números entre 1995 e 2006. A soja, produto típico do latifúndio, teve um aumento de produtividade de quase 7%. Já o arroz, cultivado pela agricultura familiar, chegou a quase 68% de produtividade. Mesmo caso do feijão, cuja produtividade subiu 51%.

Na geração de empregos as propriedades menores empregam 44% do total no estado. Porém, ficam com muito menos financiamento. Estabelecimentos com mais de 1.000 ha tomaram quase 79% dos empréstimos, em 2006. Mas, responderam por apenas 51% da produção agropecuária. Já as áreas com menos de 50 hectares emprestaram 2,45% e produziram 12% do total.

A verdade é que o agronegócio produz menos e principalmente para exportação. Gera poucos empregos, usa mais dinheiro público e destrói mais o meio-ambiente.

Leia mais em Agronegócio no MS perde em eficácia para a agricultura familiar camponesa

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Enchentes oportunas

“É pau, é pedra, é o fim do caminho”. Mas, não são as “Águas de março”, de Tom Jobim. São as enchentes mais do que anunciadas do começo do ano. Desta vez, parece que a tragédia maior acontece em Teresópolis, na região serrana do Rio. Até agora, são mais de 70 mortos.

Autoridades e grande imprensa culpam o “lixo produzido pela população”. Os sofás velhos são sempre citados. Eles entopem os córregos e provocam as tragédias, dizem. Se fosse assim, seríamos um dos povos que mais fabrica e descarta estofados no mundo.

Na melhor das hipóteses, reportagens culpam a impermeabilização do solo. Com destaque para asfalto e concreto cobrindo as antigas várzeas dos rios. Responsáveis por absorver a água, elas se transformaram em avenidas, estradas, empresas, shoppings etc.

Mas, a informação é sempre genérica. As “autoridades” é que vêm permitindo esse processo há décadas, dizem. O poder econômico do grande capital, maior responsável pela eleição e manutenção das tais “autoridades”, nunca é citado.

“Choveu 89% do que deveria chover em todo o mês...” é outra alegação comum. Como se fenômenos meteorológicos obedecessem a médias estatísticas. “O clima está descontrolado”, dizem. Como se o descontrole não fosse causado pela presença humana no planeta. Uma ocupação cuja única racionalidade é a busca cega por lucros, devidamente ignorada pela natureza.

Infelizmente, o prejuízo não é generalizado. Em geral, tragédias como essas são ótimas oportunidades. Limpam morros e várzeas de moradores indesejados. São oportunidades para contratar obras públicas caras. Pretextos para “choques de ordem” que têm pobres e negros como alvos. Sem falar na grande audiência para TVs e rádios.

Leia também: A chuva não liga pra choques

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Florestas dos ovos de ouro

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas declarou 2011, Ano Internacional das Florestas. O objetivo seria mobilizar a comunidade internacional em defesa do “manejo sustentável” desse tipo de bioma.

Por sustentabilidade pode-se entender a exploração de recursos naturais de modo a garantir sua reposição. Do contrário, grande parte humanidade e muitas espécies animais e vegetais continuarão a caminho da extinção.

As florestas cobrem mais de 30% da área terrestre mundial, garantem a sobrevivência de 1,6 bilhão de pessoas e abrigam 80% da biodiversidade da Terra. Estes são alguns números de reportagem de Rogério Ferro publicada pelo Instituto Akatu, em 03/01/2011.

A iniciativa da ONU pode até ser bem intencionada. Mas, o mundo é governado por interesses que nada têm a ver com sustentabilidade. “Só em 2004, diz o texto de Ferro, o comércio mundial de produtos florestais movimentou US$ 327 bilhões”. Por essa lógica, destruir florestas significa matar uma galinha que bota muitos ovos de ouro.

O problema é que a preservação “sustentável” da natureza vem se tornando um negócio lucrativo. Em 2008, por exemplo, bancos europeus lançaram um fundo de US$ 200 milhões para venda de “créditos de carbono”. É o ar reduzido a mercadoria.

Mais recentemente, foi lançado o Banco da Árvore no mercado nacional. A “instituição” tem como objetivo ajudar empresas a neutralizar as emissões de carbono por que são responsáveis. O cliente calcula o impacto de seus empreendimentos e compensa através do plantio de árvores.

Bancos, fundos de investimento, empresas, empreendimentos, lucros. Tudo isso é pura competição capitalista. Um mecanismo que vem matando galinhas dos ovos de ouro há séculos.

Leia também: Vida é biomassa. Vida é mercadoria

Ciúmes, esquerdismo e imperialismo júnior

O Globo vem reproduzindo vazamentos do Wikileaks sobre as relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. São documentos da embaixada americana em Brasília que circularam em 2009. Neles, a política externa do governo Lula é chamada de anti-ianque, ciumenta e esquerdista.

 

Apesar de vir de quem vem, a caracterização não deixa de fazer sentido. Não é difícil passar por “anti-ianque” diante da arrogância do Estado americano. Quanto à “ciumeira” brasileira, explica-se pela obsessão do Estado nacional por transformar o restante da América do Sul em seu quintal. Meta cujo alcance vive a ser atrapalhada pelas constantes intromissões ianques na região.

 

Em relação a nossa diplomacia esquerdista, sempre haverá os que acreditam na vocação socialista e anti-imperialista do governo Lula. Crença de comprovação quase impossível. Foram muitos os serviços governamentais prestados a Odebrecht, Camargo Correa, Eike Batista, Itaú, Friboi etc. Verdadeiras potências capitalistas nacionais. Responsáveis por grandes estragos ambientais e sociais entre os povos vizinhos. Orgulhos do imperialismo jr. brasileiro. Aquele que esperneia e grita contra seu concorrente forte, grande e desajeitado do norte.

 

O Wikileaks revela as sujeiras do andar de cima. Daqueles que sempre estiveram no poder e também dos que chegaram recentemente a ele.

 

Leia também: O cólera e a cólera no Haiti

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Turismo: destruição e chatice

Virada de ano é época de turismo. Cristina Dantas escreveu matéria para a edição do Valor de 23/12. Diz que as viagens turísticas pularam de 25 milhões em 1950 para mais de 960 milhões em 2010. Mesmo ano em que o Brasil tornou-se campeão mundial nesse tipo de deslocamento. Conseqüência do dólar fraco. Muito provavelmente, resultado da enorme concentração de renda.

Por muito tempo, viajar a passeio significou maravilhar-se com lugares, costumes e pessoas diferentes. Com o turismo de massa, tornou-se cada vez mais uma correria para consumir. E para adquirir pequenos troféus que são exibidos a amigos e parentes como provas de prestígio social.

O turismo de massa cria ocupações e gera renda. Cobra um preço muito alto por isso. Enormes hotéis e centros turísticos são construídos. Gente pobre e “feia” é expulsa de lugares bonitos para que os ricos possam contemplá-los. O lixo que produz envenena flora e fauna. O meio ambiente e as populações nativas são suas maiores vítimas.

A destruição também é cultural. Costumes e tradições transformam-se em objetos e serviços com valor de troca. A lucratividade passa a determinar o que pode ser conhecido e reconhecido como costume e tradição. O artesanato das “feirinhas”, por exemplo, está cada vez mais parecido em toda parte.

Até as paisagens vêm sendo uniformizadas pelos símbolos do consumo capitalista. São placas vermelhas da Coca-Cola, amarelas da Skol, azuis da Antártica. Praias e montanhas tomadas por logotipos. Já não há o velho e saudável desconforto causado pela visita a paragens desconhecidas. Em seu lugar, a familiaridade chata da mercadoria.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Educação que reforça a desigualdade

“O fosso que separa as escolas públicas das privadas no País aumentou nos últimos três anos”. Esta é a conclusão apresentada pela reportagem de Simone Iwasso, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 08/12/2010. Baseia-se em números do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, em inglês).

O Pisa é um exame realizado a cada três anos que avalia estudantes de 15 anos em todos os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A organização reúne os países mais industrializados do planeta. O Brasil participa como convidado desde 2000.

A reportagem diz que aumentou a distância entre as pontuações obtidas pelos estudantes das redes privada e pública. Em 2006, as escolas privadas ficavam 109 pontos à frente. Em 2009, essa vantagem cresceu para 121. Na rede pública, só alcançam níveis melhores, alunos das escolas federais. Nestas, o desempenho verificado se aproxima do encontrado nas escolas particulares.

O problema é que a maioria das instituições federais utiliza mecanismos de seleção rigorosos. Acabam acolhendo alunos em melhores condições econômicas. Reproduzem o tal “fosso”, em que a maioria dos estudantes pobres vai ficando para trás. Reforçam a já resistente desigualdade social brasileira.

O fato é que as elites econômicas e políticas brasileiras sempre desprezaram a educação. São vários os motivos para isso. Entre eles, a idéia de que povo não precisa de instrução, apenas adestramento para o trabalho. Ainda mais, se considerarmos que passamos quase 400 anos de nossa história utilizando trabalho escravo. Herança pesada, reforçada constante e eficientemente pelos poderosos.

Leia também: Pro dia nascer feliz, em Manari

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A cama de Dilma

Na mitologia grega, há um sujeito mau chamado Procusto. Tinha a péssima mania de deitar suas vítimas numa cama. Se o coitado fosse maior que o leito, decepava-se o que ficava sobrando. Se fosse menor, seus membros eram esticados até que arrebentasse.

A cama que Lula preparou para Dilma parece estar bem arrumadinha. A falta de carisma e malícia política da presidenta seria compensada pelo enorme apoio parlamentar. São 366 deputados e 52 senadores. O problema não é o tamanho dessa base.

É verdade que o PT fez a maior bancada na Câmara. E no Senado, só perde para o PMDB. Mas, o restante da base vai cobrar caro por fidelidade. Afinal, o que esperar de partidos do calibre de PMDB, PP, PR, PTB e PSC? Uma bancada dessa qualidade não permite nem mesmo propor medidas ousadas. Aquelas que Lula jamais apresentou.

Reforma agrária pra valer. Reforma tributária que atinja o patrimônio dos ricos. Reforma do Estado que inaugure a prestação de verdadeiros serviços públicos. Auditoria e fim do pagamento da imensa dívida pública. Nada disso combina com a grande maioria dos parlamentares governistas. Inclusive, os petistas. O deputado Cândido Vacarezza, por exemplo, acaba de apresentar projeto que beneficia a multinacional Monsanto.

Ou seja, a cama de Dilma só está preparada para receber um tipo de ocupante. Aqueles que representam as dimensões nanicas da elite exploradora. Tão pequena quanto é gigantesca sua riqueza. Em relação aos interesses dos pobres e explorados, continuarão a receber o tratamento adotado pelo cruel Procusto.

Leia também: A vitória do lulismo está garantida