terça-feira, 30 de novembro de 2010

Capitão Nascimento e Dona Flor

Faltam 700 mil ingressos para “Tropa de elite 2” passar “Dona Flor e seus dois maridos” como o maior campeão de bilheteria do cinema nacional de todos os tempos.

Baseado em romance de Jorge Amado, “Dona Flor” conta a história de uma viúva que volta a se casar, mas tem saudade do falecido. O fantasma deste reaparece nu somente para ela, causando situações engraçadas. A produção de Bruno Barreto foi lançada em 1976, driblando a censura da ditadura militar.

A ditadura, hoje, já não é política. Como em todo regime sob o capitalismo, o autoritarismo é, antes de tudo, econômico. Mas, uma característica marca os tempos atuais. É a ditadura do espetáculo. Ela entope nossos sentidos com informações, imagens, sensações. Chama isso de liberdade de expressão.

Na verdade, é um barulho que abafa as vozes discordantes. Efeitos especiais que impedem a visão crítica. Não é preciso mais censurar. A opinião divergente acaba sendo ignorada pela avalanche de dados que só interessam aos de cima. Além disso, lança mão de recursos dramáticos, típicos das novelas e do cinema. O raciocínio soterrado sobre lágrimas ou gargalhadas histéricas.

É o caso da edição de hoje do jornal “Bom dia, Brasil”, da Globo. No encerramento, um texto comovente de Edney Silvestre. Lido sobre a imagem da bandeira brasileira tremulando contra o sol nascente, falava sobre a inauguração de uma era de paz. Referia-se à violenta e estúpida ação da polícia no Rio de Janeiro.

Não se trata de ficar ao lado do falecido marido boêmio de Dona Flor. Só não deveríamos tornar o amargo capitão Nascimento nosso herói da vida real.

Leia também: Janete Clair chegou aos telejornais da Globo

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Uzalemão, uzerói e os otários

Os traficantes de drogas no Rio de Janeiro costumam chamar seus inimigos de “alemão”. Dizem que o costume vem dos filmes de guerra americanos, em que os vilões eram sempre os soldados alemães.

Os garotos das comunidades pobres cariocas assistiam à TV. Depois, brincavam de tiroteio pelas ruelas. De um lado, “uzalemão”. Do outro, “uzerói”. Eram John Wayne, Robert Mitchun, Gregory Peck. Depois, Stallone, Schwarzenegger, Bruce Willis. Mais recentemente, é o capitão Nascimento.

A TV também ensinou que para conquistar respeito nada como roupas bonitas, tênis de marca e uma arma na cintura. O caminho mais curto para conquistar tudo isso não era a escola. Muito menos um emprego. Coisa pra otários como seus pais, que trabalhavam muito por uma miséria e ainda eram humilhados por seus patrões brancos.

O comércio ilegal de drogas era a resposta. Ofício bem pago, com direito a esculachar uns playboys de vez em quando. Eles até sabiam que sua vida seria curta. Mas antes viver pouco como herói, que muito sendo otário. Poucos desses traficantes se deram conta de que também fazem papel de otário. A parte do leão desse comércio lucrativo fica bem longe de suas mansões improvisadas no meio dos morros.

Toda essa lógica serve para justificar uma política de segurança pública na base do bangue-bangue. Milhões assistem pela TV a execução e prisão de gente pobre e negra. Vibram como se assistissem a filmes de ação. Multidões de otários ligados nos telejornais, vendo os heróis massacrando outros otários. Muitos deles, seus próprios vizinhos e parentes. Os verdadeiros alemães sorriem, confortáveis em seus gabinetes e escritórios.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Tiro ao alvo no Rio de Janeiro

Desde o dia 21/11, quase uma centena de automóveis e ônibus queimados. Tiros contra bases policiais. Dezenas de mortos e centenas de feridos. Pânico entre a população. Mas há perguntas que disparam contra a lógica mais básica.

Os ataques são atribuídos à reação de traficantes contra as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Mas, por que atacar agora e não durante as eleições? Não seria o melhor momento para atingir o governador Sérgio Cabral, principal responsável pelas UPPs e candidato à reeleição?

Dizem que a transferência dos chefes do tráfico para fora do Rio é uma resposta à violência de suas organizações. Mas, esta não seria uma providência ágil demais para um judiciário vagaroso como o nosso? Não seria antes uma provável causa dos ataques, em vez de sua conseqüência?

A Vila Cruzeiro vem sendo o alvo principal das operações da repressão. Seria uma das localidades para onde fugiram traficantes expulsos de outras regiões da cidade. A onda de ataques não forneceria um bom pretexto para atacar a comunidade do velho modo? Ou seja, atirando e matando a torto e a direito? Usando as Forças Armadas e tropas treinadas no Haiti?

São muitas as dúvidas. Já as raras certezas são difundidas pela mídia grande. TVs, rádios e jornais não hesitam em aprovar as ações militares do governo nas favelas. Afinal, a margem de erros fatais só inclui pobres.

Outra certeza é a de que no próximo sábado começa o Campeonato Mundial Militar de Tiro, no Rio de Janeiro. Momento bastante propício para o evento. Não participe, se puder.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Bolcheviques contra o racismo

A esquerda costuma ser acusada de colocar em segundo plano a luta contra o racismo. Infelizmente, é verdade. Grande parte dos partidos que se assumem socialistas ou comunistas consideram esse combate como algo menor e “divisionista”. Talvez, uma herança do desprezo dos primeiros marxistas em relação aos povos não brancos.

Não foi o caso dos bolcheviques. Os revolucionários russos que tomaram o poder em 1917 eram grandes defensores das lutas anticoloniais. Por isso, conquistaram o apoio dos povos do antigo império russo. Em 1920, o 2º congresso da Internacional Comunista aprovou as “Teses sobre a questão colonial”.


O documento dizia que a “revolução proletária e a revolução nas colônias são complementares para a vitória de nossa da luta”. E que a “Internacional Comunista” deveria trabalhar “pela destruição do imperialismo nos países economicamente e politicamente dominados.” Lênin foi duro com seus antecessores. Ele dizia que para a Segunda Internacional o “mundo só existia dentro dos limites da Europa”. Desse modo, “tornaram-se eles próprios imperialistas.”


Em 1922, ocorreu o último congresso da Internacional antes de Stalin assumir o controle do partido russo. Nele, aprovou-se a “Tese sobre a Questão Negra”. Era a primeira vez que o tema seria discutido no movimento socialista mundial.


Entre suas resoluções, estava “a necessidade de apoiar qualquer forma de resistência dos negros que busque minar e enfraquecer o capitalismo ou o imperialismo, ou barrar a sua expansão”. Além disso, lutar para “assegurar aos negros a igualdade de raça e a igualdade política e social.”


Como se vê, a luta contra o racismo faz parte da tradição revolucionária dos socialistas.

Leia a "Tese sobre a Questão Negra"

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Viva a internete, abaixo a web!

Ao contrário do que muita gente pensa, internete e web não são a mesma coisa. A internete nasceu descentralizada e livre. A web chegou para centralizar e submeter a rede mundial aos interesses das grandes empresas de comunicações e produção cultural.

Quem afirma isso é Dmytri Kleiner em seu “Manifesto Telecomunista”. Fazendo uso de categorias marxistas e tendo como referência o Manifesto Comunista, de Marx e Engels, ele procura demonstrar que a internete realmente livre e democrática é incompatível com o capitalismo.

Segundo Kleiner, em seu início, a internete baseava-se nas ligações “pessoa a pessoa”. Assim, a conexão à internete até meados de 1990 era feita através de pequenos servidores locais. Mas, há cerca de dez anos, quase todo o acesso à rede mundial vem sendo monopolizado por empresas gigantes de telecomunicações. Esta mudança teria sido possível graças à invenção da web. Um formato de conexão que colocou a rede sob controle dos monopólios do setor.

Referindo-se à chamada Web 2.0, o autor diz que trata-se da antiga web transformada em fonte de lucros abundantes graças ao trabalho de dezenas de milhões de internautas. São milhares de postagens por minuto despejadas nos servidores das poderosas empresas que controlam portais como Google, Youtube, Facebook, Flickr, Orkut etc. Material rico e variado, obtido gratuitamente e processado a custos próximos do zero.

Este é apenas um dos aspectos abordados pelo texto de Kleiner. Sua proposta, porém, acaba entrando em contradição com alguns princípios defendidos por Marx e Engels. Ainda assim, sua leitura e debate são fundamentais para a luta anticapitalista.

Leia mais em Manifesto Telecomunista: importante contribuição ao debate

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Abolição: sob controle do monstro

A luta dos escravos negros foi fundamental para a conquista de sua liberdade. Mas a classe dominante brasileira soube retardar e controlar o processo pelo alto.

O primeiro passo importante foi o fim do tráfico negreiro, em 1850. A elite branca já contava com uma população escrava grande o suficiente à sua disposição. No mesmo ano, foi aprovada a Lei de Terras. A transferência de terras públicas só poderia ser feita através de compra e venda. Medida que excluía a população pobre e os negros libertos do acesso à terra.

Em 1871, a Lei do Ventre Livre libertou filhos de pais escravos. As crianças poderiam ficar aos cuidados dos senhores até os 21 anos de idade ou ser entregues ao governo. A maioria dos senhores preferiu a primeira opção, garantia de mão-de-obra escrava por duas décadas.

Em 1885, foi aprovada a lei que libertava os escravos com mais de 60 anos. Idade em que os poucos negros sobreviventes já eram pouco úteis a seus senhores. A Lei Áurea viria três anos depois. A elite branca já havia acomodado seus investimentos e garantido o monopólio da terra. Grande parte de seus capitais investidos em lavouras de café entregues ao trabalho mal pago de colonos europeus.

É por isso que Florestan Fernandes dizia que os negros não foram libertos, mas expulsos do sistema produtivo. Daí, a situação secular de opressão e exploração que continua mais acentuada para os que têm a pele escura.

É como disse José Murilo de Carvalho, em 1988:
Hoje, como no século 19, não há possibilidade de fugir para fora do sistema. Não há quilombo possível, nem mesmo cultural. A luta é de todos e é dentro do monstro.
De preferência, para causar-lhe uma congestão fatal.

Leia também: Os vários racismos

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A chibata continua a castigar

Há um século, em 22 de novembro, dois mil marinheiros de uma esquadra de navios estacionada nas águas da Guanabara se rebelaram. Era a Revolta da Chibata. Os revoltosos apontaram seus canhões para a cidade do Rio. Sua exigência: o fim dos castigos físicos na Marinha. Em especial as surras de chibatas. Mais de 20 anos após a abolição, os açoitamentos eram comuns nos navios militares. Suas vítimas eram quase sempre os muitos marujos negros. Só mais um exemplo de que o fim da escravidão não resultou em liberdade e dignidade para os negros.

O motim foi bem sucedido. Um acordo foi assinado. Previa o fim dos castigos e anistia para os revoltosos. Logo depois, os líderes do movimento foram presos à traição. Muitos morreram. Seu líder maior sobreviveu. João Cândido viveu até 1969, pobre, esquecido e considerado traidor pela Marinha. Somente em 2008 foi anistiado junto com seus companheiros, sem direito a indenização.

Mas a Marinha não reconhece seus erros até hoje. Diz que o episódio não passou de quebra de disciplina. Uma postura que diz muito sobre as Forças Armadas e as forças policiais brasileiras. Se recusam a submeter seus crimes a julgamento. Se pudessem estariam utilizando a chibata oficialmente até hoje. Como não podem, o fazem ilegalmente nos porões ou protegidos pela escuridão das ruas e pelo medo secular da população pobre.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Carta ao século 19: selvagem igualdade

Concidadãos, volto a escrever diretamente do século 21. Desta vez, para dizer-lhes que o livre comércio domina o globo. Dão-lhe o nome de capitalismo, hoje em dia. Um sistema que levou a humanidade a passar por uma verdadeira revolução.

Nunca se viu tamanha mobilidade social. Um sujeito pode nascer na pobreza e tornar-se milionário! É raro que lhe sejam interpostos obstáculos ligados a parentesco, ofício, casta, estamento, etc. Mas é enganoso pensar que os princípios da liberdade, igualdade e fraternidade imperam.

Ocorre que a possibilidade de fazer fortuna é regulada pela competição. E esta é cada vez mais selvagem e cruel. São poucos os que sobrevivem a ela com dignidade. Por outro lado, são menos ainda os que têm condições de ao menos competir, tão enormes e poderosos são os monopólios que disputam o mercado.

O planeta chegou a uma população de vários bilhões de pessoas. Destas, apenas cerca de 2% controlam quase toda a riqueza produzida pelo restante. Assim, a igualdade nivela a grande maioria pela exposição à mais brutal exploração. A fraternidade inexiste entre os de cima e é recurso extremo a que apelam os de baixo para sobreviver e resistir. A liberdade transformou-se em desamparo e fragilidade em um ambiente tão eivado pelas hostilidades.

Verdade que a vergonhosa instituição da escravidão deixou de existir. Mas, um dos elementos mais utilizados na cruel competição que vigora são os preconceitos de raça. Já quase não há quem os defenda abertamente. No entanto, os não brancos, especialmente os negros, figuram entre as vítimas mais atingidas pela feroz exploração imposta pelo livre comércio.

Assusta ver como princípios tão belos transformaram-se em pesadelo.

Leia também: Cartas ao século 16

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O problema do Enem é o próprio Enem

Na recente polêmica sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a maioria tem insistido em olhar as árvores e esquecer a floresta. Em 17/11, o deputado Ivan Valente fez um discurso na Câmara Federal que pode ajudar a enxergar melhor a questão.

O deputado do PSOL-SP lembra que o Enem foi criado no governo Fernando Henrique. Na época, a prioridade passou a ser a avaliação do sistema de ensino em prejuízo de sua qualidade. Os tucanos conseguiram a proeza de esconder as péssimas condições da educação nacional por trás de uma avaliação que as confirmava. A responsabilidade passou a ser de estudantes e professores. O histórico desprezo dos vários governos pela educação pública e de qualidade continuou, mas sumiu em meio a essa poeira toda.

Ivan diz que o Enem é produto dessa mesma lógica. Segundo o deputado, o exame:
...minimiza o papel do Estado na promoção de uma educação de qualidade e maximiza o caráter individualista e competitivo na educação, importando uma lógica de mercado e incentivando a adoção de modelos de gestão privada, cuja ênfase é posta nos resultados ou produtos do sistema educacional.
O atual governo não só manteve o Enem, como ampliou sua utilização. Transformou-o num grande vestibular nacional, discriminatório e excludente. Atualmente, o exame é responsável por pouco mais de 100 mil bolsas do PROUNI e cerca de 83 mil vagas em universidades federais. De um lado, serve aos empresários da educação. De outro, a maioria daqueles que chegam às universidades públicas continua a ser formada pelos que cursaram as melhores escolas pagas.

Leia a íntegra do discurso, aqui

Leia também Universidade: negros pela porta dos fundos

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O destino fatal dos gays

No começo de novembro, o Rio de Janeiro ganhou o título mundial de Destino Mais Sexy pelo público gay. A votação foi organizada pelo site TripOutGayTravel.com e pelo Logo, canal da MTV americana. Há um ano, a cidade já havia sido eleita o Melhor Destino Gay do Mundo.

Agora, em meados de novembro, aconteceu a 15ª Parada do Orgulho Gay, no Rio. Cerca de 250 mil pessoas desfilaram em Copacabana. O tema do evento era a luta contra a perseguição e violência contra os homossexuais.

No mesmo dia e local da Parada, um dos participantes do evento levou um tiro na barriga. Ele está fora de perigo e alega ter sido agredido por um militar. Em São Paulo, nenhum evento gay acontecia na Avenida Paulista. Quatro adolescentes de classe média agrediram jovens homossexuais.

Segundo o Grupo Gay da Bahia, 198 gays são assassinados no Brasil, por ano. À frente do México com 35 casos e dos Estados Unidos, com 25. A média é um homossexual é assassinado a cada dois dias, vítima da homofobia. O que nos dá o primeiro lugar nesse tipo de violência.

Tem algo de muito errado nisso tudo. O melhor lugar para exercer a liberdade sexual não pode ficar no país que é campeão mundial de homicídios contra gays. Pergunta ingênua: será que tem a ver com a indústria do turismo?

Leia também A Bíblia, o aborto, a homossexualidade

O cólera e a cólera no Haiti

As mortes por cólera no Haiti já ultrapassaram os mil casos.

Cena mostrada no Jornal das Dez, da Globo News, em 28/10/2010: uma equipe de autoridades sanitárias fazia testes nas águas de um córrego. Procuravam a origem do vírus causador da doença. Um caminhão tanque encostou e começou a despejar um líquido. As autoridades perguntaram o que era aquilo. O motorista disse que eram dejetos vindos de uma base de soldados da ONU do Nepal. Detalhe: o cólera que vem provocando tantas mortes no Haiti é típico do Nepal.

Em janeiro, um terremoto matou mais de 200 mil haitianos. As tropas da ONU agiram rapidamente. Mas para resgatar funcionários da própria ONU. É o que diz o professor de Antropologia da Unicamp, Omar Ribeiro Thomaz. Ele estava presente no país quando aconteceu a tragédia. Em seu relato, Thomaz diz que as tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) são chamadas de turistas pela população local.

A verdade é que a presença das tropas da ONU, lideradas pelo Exército brasileiro, só têm causado problemas e revolta entre os haitianos. Uma manifestação popular contra a Minustah deixou duas pessoas mortas e pelo menos 25 feridas na segunda-feira, dia 15. Se não estão causando o cólera, com certeza estão provocando a cólera popular.

Leia aqui o relato de Omar Ribeiro Thomaz.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

G-20 representa 2% da humanidade

A reunião do G-20, realizada na Coréia do Sul, acabou sexta-feira sem acordos concretos. Mas, digamos que tivesse sido vitorioso, a quem interessaria? Vejamos. O G-20 é formado pelas 19 maiores economias do mundo, mais a União Européia. Seus membros respondem por 90% de toda a riqueza mundial, 80% do comércio internacional e 2/3 da humanidade.

Mas esses números não ajudam muito. Um estudo sobre a concentração da riqueza no planeta pode nos esclarecer melhor as coisas. Trata-se de dados sistematizados pelo Instituto Mundial de Pesquisa Econômica do Desenvolvimento, da Universidade das Nações Unidas. Segundo a pesquisa, em 2000, os 2% mais ricos da população adulta detinham mais de 50% da riqueza do planeta.

Ora, 2% da população do planeta são algo em torno de 120 milhões de pessoas. Por outro lado, os países do G-20 reúnem uma população de quase 4 bilhões de almas. O estudo já tem 10 anos. Mas, é muito provável que continue atual. Talvez, o quadro tenha até piorado, depois das crises econômicas de 2000 e 2008. Assim, pergunta-se: a quem defendiam os governantes reunidos na Coréia? Os 120 milhões de ricos ou os 3,8 bilhões restantes?

Uma dica: Lula é considerado uma liderança que fala em nome dos pobres no mundo. Mesmo assim, suas comitivas para tais eventos estão sempre recheadas de grandes empresários. Gente que está longe de pertencer aos 98% da população menos rica do planeta.

Leia mais sobre o estudo aqui (em inglês)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

No mês da Consciência Negra, poesia

Charqueada Grande

Um talho fundo na carne do mapa:
Américas e África margeiam.
Um navio negreiro como faca:
mar de sal, sangue e lágrimas no meio.

Um sol bem tropical ardendo forte,
ventos aliseos no varal dos juncos
e sal e sol e vento sul no corte
de uma ferida que não seca nunca

Oliveira Silveira
Publicado em A Razão da Chama, Edições GRD, São Paulo, 1986 – Oswaldo de Camargo (Org.)



Presentinho

Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.

Paulo Colina
Publicado em O Negro Escrito (Apontamentos sobre a Presença do Negro na Literatura Brasileira), Imprensa Oficial do Estado, São Paulo, 1987 – Oswaldo de Camargo (Org.)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Universidade: negros pela porta dos fundos

O Estatuto da Igualdade Racial acaba de ser aprovado. Ficou valendo a proposta do senador Demóstenes Torres (DEM-GO). O mesmo que afirmou que o estupro de escravas negras aconteceu “de forma muito mais consensual”.

Coerente com o racismo dessa afirmação, o senador tirou a palavra “raça” do Estatuto. Alega que não há raças na espécie humana. É verdade. Mas isso não impede a existência do racismo. E este saiu fortalecido com a proposta aprovada. Ela deixou de fora iniciativas importantes, como os programas de saúde pública voltados para a população negra e as políticas de cotas.

No caso das cotas nas universidades, dados recentemente divulgados poderiam justificar sua exclusão do Estatuto. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, o número de “pretos ou pardos” com nível superior dobrou desde 1999. Um problema: apesar do aumento, a proporção dos dois grupos ainda representa um terço do total de brancos graduados.

Outro problema: um estudo do antropólogo José Jorge de Carvalho diz que 45% dos alunos beneficiados pelo Programa Universidade para Todos (Prouni) são pretos ou pardos. Para o professor da Universidade de Brasília, esta teria sido a principal razão para o aumento do número de graduados entre a população negra.

O Prouni é mais um daqueles golpes geniais do governo Lula. Através de bolsas de estudo, o programa preenche as vagas ociosas de cursos menos concorridos da rede particular. Faz de conta que está investindo no ensino superior para os mais pobres. Na realidade, financia os empresários da educação. Ao mesmo tempo, pode exibir estatísticas bonitinhas sobre a população negra. O racismo brasileiro agradece.

Leia também: Um racista escreve a lei contra o racismo

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Banco Central da Felicidade

O assunto do dia é a quebra do Banco Panamericano, que pertence ao Grupo Silvio Santos. Para salvar a “instituição” o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) fez um empréstimo de R$ 2,5 bilhões. O valor ultrapassa em muito o atual patrimônio do banco, que é de R$ 1,6 bilhão.

O FGC faz parte do Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional. Mais conhecido como Proer, este programa foi criado pelo governo FHC para salvar bancos à custa de dinheiro público.

Perguntado sobre o que acha da operação, Lula declarou: "Isso não é assunto de presidente da República. É assunto comercial do Banco Central". Muito coerente. No início do primeiro governo petista, houve um grande debate sobre a autonomia do Banco Central. Muita gente era contra. Alguns eram a favor.

Lula não quis nem saber. Não oficializou a autonomia do BC. Mas, ela foi mantida na prática. Desde a época dos tucanos, o Banco Central faz o que quer. Dirigido por gente que nunca recebeu um voto e manda na economia. Paga os maiores juros do planeta. Faz a alegria dos bancos e especuladores do mundo todo. Por enquanto, vai garantindo a felicidade do dono do Baú.

Pode até ser que a operação venha a ser questionada. Mas, ficamos por conta do governo econômico do País. O governo político lavou as mãos há muito tempo.

Leia também: As tetas do BNDES

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Misérias da estatística

Erradicação da miséria. Diminuição da pobreza. Crescimento da classe C. Estas são algumas das expressões mais usadas, ultimamente. Em geral, para comemorar uma suposta queda na desigualdade social.

Em termos estatísticos, pode até ser. Já a realidade, é bem mais complicada. É o que mostra, por exemplo, a reportagem “O Brasil duro de acabar”, publicada pelo jornal paranaense Gazeta do Povo, em 07/10/2010.

Os jornalistas Mauri König e Heliberton Cesca comparam a situação econômica de duas famílias na Vila Pantanal, bairro pobre da periferia de Curitiba. Elza vive com o marido e filho pequeno. Luiz mora com a mulher, dois filhos, nora e neta. Uma cerca de arame separa as casas das duas famílias. Mas, para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), uma família é pobre, a outra é miserável.

Segundo os critérios do órgão governamental, pobre é quem tem renda mensal de até meio salário mínimo: R$ 255. Miserável é quem ganha metade disso: R$ 127,50. A família de Elza sobrevive com menos de R$ 300 mensais. São R$ 100 por cabeça. Abaixo da linha da miséria, portanto. Já a família de Luiz conta com R$ 1.475 mensais. Com rendimento de R$ 245 por pessoa, aparece na faixa da pobreza.

Para deixar de ser pobre, cada membro da família de Luiz só precisaria receber mais R$ 10. Ainda pelos critérios estatísticos, Luiz pertence à classe C. Sua família está entre as que recebem de R$ 1.115 a R$ 4.807 por mês. Faixa que reuniria mais de 100 milhões de brasileiros.

Estatísticas são assim. Podem mostrar coisas bonitas ou feias. Depende do ângulo de observação.

Leia também: Justiça social que interessa aos exploradores

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Tempero bom em carne podre

Dizem que, antigamente, os temperos eram usados para disfarçar o gosto da carne podre. Parece um pouco a propaganda comercial, hoje em dia.

Pesquisa da agência Tool Box revelou que 6.300 novos produtos foram colocados em supermercados brasileiros no primeiro semestre deste ano. Números da ONU indicam 1 bilhão de famintos no mundo. O que explica tanto consumismo ao lado de tamanha miséria?

Uma parte da resposta se relaciona ao mercado publicitário. São horas de anúncios muito bem produzidos na TV e no rádio. Quilômetros de imagens em cartazes, faixas, expositores, outdoors, vitrines, fachadas, etc. Um mercado que movimenta uma fortuna em dinheiro.

Tudo isso para nos convencer de que consumir é bom. Nos torna mais felizes. E é verdade. Por alguns segundos, se for um sorvete. Horas, no caso de uma roupa. Meses, em se tratando de um carro. Alegria que dura até que apareça outro objeto de desejo, que não passa disso. De mais um objeto. Isso é capitalismo.

Mas é só imaginar o capitalismo em seu início. Bairros, cidades, pessoas, tudo muito cinzento de fuligem. Já havia anúncios, mas eram pequenas manchas coloridas no meio do monocromático acúmulo de tijolos das fábricas e galpões. Empórios cheios de mercadorias sem graça.

Aí, a publicidade foi se desenvolvendo. Enfeitando e inventando personalidades para as mercadorias. Hoje, na TV, ela ganhou qualidade cinematográfica. Fome e miséria? Esquecidas. Inclusive, por suas vítimas. Parece o tal tempero de que falamos no início.

Injustiça? Bem, temperos são feitos a partir de especiarias deliciosas. A publicidade é produto da maravilhosa criatividade humana. Nenhum dos dois deveria ser usado para esconder podridão.

Leia também: Desastre aéreo e cobiça