sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Carta ao século 19: estranhas viagens

Concidadãos, vocês bem sabem que gosto de acompanhar os avanços das ciências e técnicas. Sempre fui um otimista em relação às invenções humanas.

Dessa forma, não me surpreendi em demasia com as maravilhosas máquinas feitas para voar que encontrei aqui, no século 21. São aparelhos fantásticos, que carregam milhões de pessoas de um lado a outro, a enormes velocidades e com grande conforto. São os aviões.

Recentemente, me deixei transportar num deles. Maravilhosa experiência. Cobrimos cerca de 3 mil quilômetros em poucas horas. Tempo bem ocupado com excelente serviço de refeições e refrescos.

Mas algumas coisas me espantaram negativamente. Em primeiro lugar, o deslocamento rápido torna a viagem simples transferência. Sem paisagens para se ver, lugares por onde passar, pessoas a quem conhecer. A isso mal podemos chamar de viagem.

E o pior é que chegados ao destino, nos deparamos com um cenário muito parecido com o que deixamos há milhares de quilômetros. São as mesmas construções, casas de negócio e comércio, modos de vestir, formas de falar.

São os mesmos apetrechos, aparelhos, equipamentos. Em tudo e por todos os lugares reencontramos idênticas marcas comerciais, expostas em grandes cartazes.

Parece que as pessoas do século 21 deslocam-se a grande velocidade para alcançar um destino que é praticamente igual ao lugar de onde saíram. E lá chegando, não têm muito o que aprender com os hábitos e costumes da gente local. Por isso, gastam grande parte do tempo despendendo dinheiro.

É por isso que viajar tornou-se um negócio bastante promissor. Chamam-no de turismo.

Leia também: Cartas ao século 19

Mortes desejáveis

Dia de Finados. Lembramos a triste partida de José Saramago. Uma boa homenagem é citar uma de suas obras. Em “Intermitências da Morte”, o autor imagina uma situação em que a morte cessa. Ninguém mais finda seus dias. São muitas as conseqüências. A vida social é atingida por todos os lados.

“As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte...”, diz. A filosofia também “precisa tanto da morte como as religiões, se filosofamos é por saber que morreremos”.

Mas “as primeiras e formais reclamações vieram das empresas do negócio funerário”. Ramo que ficou sem sua principal “matéria-prima”. Logo depois, vieram os alertas da federação das companhias seguradoras. Igualmente privadas do insumo fundamental para sua atividade econômica.

Mais uma vez genialidade de Saramago deixa nua toda a crueldade e o vazio de nossa sociedade. Momento e lugar em que a vida pode ser ameaçada pela ausência da morte.

A realidade mal consegue contradizer a bela ficção de Saramago. Mas, não se trata da morte ausente. É seu atraso que incomoda. Em vários países, mais gente está morrendo mais tarde. Os neoliberais gritam. Dizem que o falecimento tardio está comprometendo a Previdência Social. Viver tornou-se um problema para o orçamento!

Que fazer com esses velhos cuja vida sobra depois de acabada sua utilidade econômica? Isso é o que incomoda Sarkozy, na França. E tantos outros governos empenhados em reformas de aposentadorias e pensões. Certamente, cuidam para que nossa morte seja leve e rápida, tornando mais pesada e longa nossa vida de explorados.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A bomba-relógio do dólar

Os economistas não falam de outra coisa. O dólar não para de baixar e assusta. Dizem que uma nova bolha pode estourar a qualquer momento. É deve ser no próximo governo.

Parece que o problema é o seguinte. A crise que estourou em 2008 é resultado da crise de 2000, em que quebraram empresas como a Enron. Para impedir uma recessão, o banco central americano baixou os juros. Com isso as compras a crédito dispararam. Principalmente, no mercado de imóveis. O mesmo que viria a quebrar em 2008, arrastando meio mundo.

Para sair dessa nova crise, o governo americano desvalorizou o dólar para que seus produtos ficassem mais baratos no mercado mundial. Só que o Estado chinês acompanhou o movimento americano. Não deixou que sua moeda se valorizasse frente ao dólar. O resultado é uma enxurrada de produtos americanos e chineses na economia do planeta.

Com a Europa em crise, é muito duvidoso que haja consumo suficiente para tanta oferta. Pode haver uma nova rodada de quebradeiras e falências.

Enquanto isso, houve uma inundação de dólares na economia brasileira. O resultado foi aumento das importações. O que vem levando à diminuição da produção interna. Menos produção levaria a menos empregos. Com menos empregos, é difícil manter o elevado consumo das famílias brasileiras.

Pra piorar, pagamos os maiores juros do mundo. Investidores estrangeiros trocam seus dólares fracos pelos generosos títulos da enorme dívida interna brasileira. É por isso que o governo faz de tudo para valorizar o dólar e não consegue. Está enxugando gelo.

Se tivéssemos rompido com a dependência do dólar criada pelo Plano Real, talvez a história fosse outra.

Para mais informações, leia a seção sobre a crise capitalista no site do Revolutas

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A agricultura como mineração

Em 1936, Sérgio Buarque de Hollanda lançou seu grande livro “Raízes do Brasil”. Um trecho sobre agricultura diz o seguinte:
A verdade é que a grande lavoura, conforme se praticou e ainda se pratica no Brasil, participa, por sua natureza perdulária, quase tanto da mineração quanto da agricultura.
Passados 64 anos, a “grande lavoura” continua a imperar. De acordo com dados do IBGE, de 2006, as unidades rurais com até 10 hectares ocupam menos de 2,7% das terras do País. Já, as propriedades com mais de mil hectares concentram mais de 43% do total.

Agora, os latifúndios pertencem ao agronegócio. Por isso, seriam produtivos. Mas tudo depende dos objetivos da produção. Fábricas de armas também são produtivas. O fato é que as pequenas propriedades do campo empregam quase 75% da força de trabalho e produzem cerca de 60% dos alimentos.

Uma das prioridades do agronegócio é a produção de ração animal. Esta alimenta o gado, que destrói matas nativas e abre caminho para mais monoculturas. Outra prioridade é o agrocombustivel, para substituir o petróleo e o carvão. Com isso conseguimos a proeza de trocar combustíveis fósseis por combustível biológico, mantendo a lógica da destruição ambiental.

Em setembro, foi realizado o plebiscito popular sobre o limite da propriedade da terra. Cerca de meio milhão de pessoas votaram. Mais de 95% delas concordaram com a necessidade de limitar o tamanho das propriedades rurais. Uma vitória, se considerarmos o boicote da grande mídia e a vergonhosa omissão dos governos. Mas mostra que a reforma agrária será resultado da luta dos explorados e feita de baixo para cima.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Biodiversidade e mesquinharia capitalista

Desde 19/10, vem acontecendo a COP-10, em Nagoya, no Japão. É a 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica. O tema mais debatido da reunião é o estabelecimento de regras para a exploração comercial de recursos genéticos. A confusão é grande.

O Brasil e outros países ricos em diversidade natural defendem que os ganhos econômicos sejam repartidos com o país de origem das espécies envolvidas. Por exemplo, parte do lucro resultante da comercialização de um remédio feito a partir de uma planta brasileira deve ficar com o Brasil. Os países mais industrializados são contra, claro. Eles têm os maiores e mais modernos laboratórios. Querem ficar com todo o lucro para suas empresas.

Mas entre os países pouco industrializados também não há consenso. Os representantes africanos, por exemplo, acham que o acordo deve ter efeito retroativo. Aí, é a delegação brasileira que se diz contrária. Afinal, nossa agricultura é quase toda baseada em espécies vindas de outros países e continentes. Entre eles, arroz, feijão, soja, cana, milho, carne. Seria preciso pagar por séculos de exploração de espécies como estas.

Na verdade, estão em discussão somente os interesses de uma minoria da espécie humana. Aquela que controla a exploração econômica dos recursos naturais mundiais.

De um lado, a enorme biodiversidade planetária. Para ter uma idéia, entre 1999 e 2009, foram registradas mais de 1.200 novas espécies somente na Amazônia. Um novo achado a cada três dias. Do outro lado, os interesses de algumas dezenas de poderosas empresas. Uma parte muito pequena de apenas uma das espécies do planeta.

É o retrato da mesquinharia capitalista.

Leia também O comunismo sob ameaça, no Brasil

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Bichos: entre a estima e a crueldade

Segundo a Associação de Produtos e Prestadores de Serviços ao Animal (Assofauna), 63% das famílias das chamadas classes A e B possuem animais de estimação. Na “classe C”, são 64%.

As razões para tamanha procura pela companhia dos bichos precisam ser melhor investigadas. A princípio, parece ser uma afirmação da necessidade humana de doar carinho. Algo cada vez mais difícil numa sociedade que gira cada vez mais em torno do interesse material.

Por outro lado, o chamado mercado “pet” também é um grande negócio. O setor movimentou cerca de R$ 9,6 bilhões no Brasil, em 2010. São produtos, equipamentos, serviços, que muitas vezes são desnecessários. E segundo muitos ambientalistas, tornaram-se novas fontes de poluição.

Mas muito pior que isso é a forma com que a indústria de alimentos tem tratado animais criados para abate. São inúmeras as denúncias de extrema crueldade com que bois, porcos, frangos, patos, coelhos são torturados antes de morrer. Em nome da produtividade, são criados em condições terríveis, cheios de dor, em lugares minúsculos e abafados.

Uma questão como essa pode parecer distante da luta dos socialistas. No entanto, a relação do ser humano com outros animais deveria ser um indicador de nosso desenvolvimento como criaturas inteligentes e sensíveis.

É o que pensava Rosa Luxemburgo, por exemplo. Isso fica claro em uma carta que ela escreveu em dezembro de 1917 para Sonia Liebknecht. Em plena prisão, a grande revolucionária lamentava a situação de um búfalo, usado como animal de carga:

“...o estábulo sombrio, o feno mofado, repugnante, misturado com a palha apodrecida, os homens desconhecidos, assustadores, e as pancadas, o sangue que corre da ferida aberta... Oh! meu pobre búfalo, meu pobre irmão querido, aqui estamos os dois tão impotentes e mudos, mas somos só um na dor, na impotência, na saudade”.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O teatro colonizado pela indústria da diversão

Procurando Nemo, Família Adams, Backyardigans, Era do Gelo, Aladdin, Branca de Neve, Rei Leão, High School, Pinocchio, Shrek, Toy Story, A Bela e a Fera. Estas são algumas das adaptações teatrais para crianças em cartaz em várias capitais e cidades brasileiras. Na verdade, são imitações das grandes produções de Hollywood.

Quem já levou crianças para assistir peças como essas deve ter sentido um certo alívio. É um grande risco levar os pequenos ao teatro. É uma linguagem que costuma ser diferente daquela a que eles estão acostumadas, quando assistem TV ou vão ao cinema. Mas neste caso a semelhança entre as peças e os filmes em que se baseiam é grande. Não assusta.

Por outro lado, não há surpresas nem experiências novas. Trata-se de uma padronização que só empobrece as possibilidades artísticas do teatro. Restringe ainda mais as experiências estéticas que chegam a crianças e adolescentes. Assista ao filme, compre o DVD, o CD, a mochila, a merendeira, o boneco, o game, assista à peça. Tudo muito igual. E muito comercial.

E isso não vem acontecendo apenas no teatro infantil. Multiplicam-se peças com atores, roteiro, ritmo, drama e humor típicos da dramaturgia e do espetáculo produzidos para as telas. É a colonização do teatro pelo mundo da distração cinematográfica e televisiva.

A arte teatral é uma das que mais valorizam o desempenho humano ao vivo e de perto. Ela é o contrário das gravações e regravações das cenas de filmes e novelas. O oposto da atuação humana escondida por trás de efeitos especiais milagrosos. Infelizmente, também vem se rendendo à lógica do mercado da diversão.

Leia também: Janete Clair chegou aos telejornais da Globo

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O preço sujo do dinheiro

O Comitê de Política Monetária decidiu manter a taxa anual de juros em 10,75%. A decisão foi tomada por quem nunca recebeu um voto em urna. Há 14 anos é assim.

Juros nada mais são que o preço do dinheiro. Parece estranho, e é. Aristóteles, por exemplo, achava moralmente condenável produzir algo para ser trocado no mercado. A principal função do trabalho deveria ser a produção de bens de uso e não de troca.

Dinheiro é um bem que só tem valor de troca. Viver de sua venda cheira a parasitismo. Na Bíblia há várias passagens em que a usura é condenada. Juro em espanhol é “interés”. Em inglês, “interest”. Nada simpático.

Vivemos no capitalismo, em que a troca é o centro da lógica social. Mesmo assim, agiotagem é considerada crime. A não ser para aqueles estabelecimentos cujas luxuosas sedes ficam, por exemplo, na Av. Paulista.

O que nos traz de volta à Selic. A taxa de juros praticada no Brasil é a maior do mundo. Grandes investidores compram dinheiro lá fora por quase zero e aplicam no mercado brasileiro para lucrar cerca de 10 vezes mais. Sem criar um único posto de trabalho.

O principal produto negociado são papéis da dívida pública brasileira. São mais de R$ 2 trilhões parasitando os cofres públicos. Retirando recursos dos orçamentos da Saúde, Educação, Previdência etc. Aumentando a desigualdade social.

Por outro lado, os juros ao consumidor estão em cerca de 90% anuais. Enquanto isso, o BNDES tem escolhido alguns ramos econômicos para emprestar bilhões pela metade da taxa Selic.

Capitalismo é assim. Cheira mal. No Brasil, fede muito.

Leia também: Dívida pública: pirata e cara!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Velhice e juventude na França em greve

A França está de pernas para o ar. Trabalhadores de várias categorias paralisam o país contra a reforma da previdência proposta por Sarkozy. Principalmente, contra o aumento da idade mínima para aposentadoria de 60 para 62 anos.

Além deles, milhares de jovens desafiam a polícia em vários lugares do país. Usam paus e pedras. Incendiaram uma escola, destruíram automóveis, quebraram lojas e equipamentos urbanos.

As autoridades dizem que se trata de desordeiros. Ainda que fosse verdade, isso não responde a uma questão: por que jovens se envolvem em algo que afeta diretamente apenas os mais velhos, com empregos regulares?

Talvez uma parte da resposta esteja na marginalidade que atinge as duas pontas da vida humana sob o capitalismo. A juventude e a velhice se tornam cada vez mais descartáveis.

Reformas da previdência vêm sendo feitas há décadas em várias partes do mundo. A desculpa é uma só. As pessoas estão vivendo mais. Aposentam-se no auge da vida produtiva. Como se vida produtiva e vida humana fossem uma só. Como se a enorme maioria dos trabalhadores não estivesse louca para se livrar de suas ocupações cansativas, doentias, chatas e mal pagas.

Enquanto isso, os jovens atolam suas vidas num limbo. Ficam entre uma infância mal acabada e a vida adulta adiada pela falta de uma ocupação profissional. Anseiam por entrar no mundo do trabalho, do qual lutarão para sair pela estreita porta da aposentadoria.

Somos cada vez mais parecidos com animais criados para o abate. Só importa o período em que damos bons cortes. Mas, quando a revolta explode, boi é uma coisa, estouro da boiada é outra.

Leia também: Greve Geral na França

terça-feira, 19 de outubro de 2010

EUA: a sangrenta alternativa civilizada

Mais um trecho do livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, de Howard Zinn.

Os primeiros colonizadores brancos da América do Norte não conseguiram forçar os índios a trabalhar para eles. Os nativos estavam em maior número e conheciam bem aquela terra desconhecida dos europeus. Mesmo com armas superiores, os invasores não se arriscavam a iniciar um massacre.

A situação causava irritação. Edmund Morgan descreve esse estado de ânimo em seu livro “Escravidão Americana, Liberdade Americana”:

Se você fosse um colono, consideraria sua tecnologia superior à dos índios. Teria a certeza de que você é o civilizado e eles, os selvagens ... Ainda assim, sua tecnologia superior se revelou incapaz de obter grande coisa. Já os índios, mantinham-se bem, rindo de seus métodos superiores, vivendo da terra com abundância e trabalhando menos que você... E quando o seu próprio povo começou a desertar para viver com eles, aí foi demais ... Você resolveu matar os índios, torturá-los, queimou suas aldeias, queimou suas plantações. Isto provou sua superioridade, apesar de tudo. E você fez o mesmo com qualquer um de seu próprio povo que se rendesse ao modo de vida dos selvagens. Mesmo assim, você continuou sem conseguir cultivar alimento suficiente...

A escravidão negra foi a resposta para este dilema dos invasores europeus. Esta era a alternativa civilizada diante da superioridade selvagem no trato com a natureza. Afinal, 50 anos antes de Colombo chegar por aqui, os portugueses já haviam levado dez escravos africanos para Lisboa. Era o começo de um negócio muito lucrativo. O início do capitalismo. Sua certidão de nascimento suja do sangue indígena e negro. Mancha que nunca cessou de aumentar.

Leia também: Helen Keller: surda, muda, cega, socialista

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Mineiros viraram mina de ouro

Semana passada, muita gente acompanhou o resgate dos mineiros chilenos, com lágrimas nos olhos. Mas, vamos à vida real. Cerca de 1 bilhão de pessoas acompanhou por TV e internete. O mesmo número a assistir a posse de Barack Obama. Um pouco mais que as 800 mil que viram a abertura das Olimpíadas de Pequim.

A fabricante de óculos escuros Oakley não perdeu a oportunidade. Doou aos homens os óculos especiais que usaram durante o resgate. Cada um custa US$ 200. Dizem que a gentileza da Oakley rendeu uma economia de US$ 41 milhões. Este seria o custo de uma campanha publicitária que pretendesse chegar à audiência alcançada pela transmissão da operação.

Outro que lucrou foi o presidente chileno. O governo de Sebastian Piñera tinha 46% de aprovação antes do acidente. Subiu 10% depois de coordenar a operação, devidamente assessorado por especialistas em comunicação e marketing.

Os próximos negócios devem vir na forma de livros, filmes, especiais para a TV. Os mineiros resgatados já se entenderam. Dizem que vão dividir a renda que virá dos direitos sobre os produtos de forma igualitária. Bom pra eles.

O fato é que o grande negócio das minas não são os minérios. É a exploração de seus trabalhadores. Sua força de trabalho custa pouco, mas os lucros que ela gera são enormes. E sempre para uma minoria. Mesmo que os 33 heróis da mina São José realmente sejam beneficiados, aqueles que usarão sua história de resistência e coragem ficarão com a parte do leão.

Não há tragédia que não possa ser aproveitada pelo capitalismo. Aliás, tragédias são sua especialidade.

Leia também: Os mineiros chilenos, entre abutres e predadores

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Marx apaixonado

“Amadinha do meu coração”. É assim que Marx começa uma carta a sua mulher, Jenny, em junho de 1856. Algo surpreendente para quem o vê como alguém incapaz de tais delicadezas. Vejamos outro trecho:
Basta que estejas longe e meu amor por ti aparece tal como ele é: como um gigante, no qual se acham reunidas toda energia do meu espírito e toda a vitalidade do meu coração. Sinto-me outra vez um homem, na medida em que me sinto vivendo uma grande paixão. A complexidade na qual somos envolvidos pelos estudos e pela educação modernos, bem como o ceticismo com que necessariamente relativizamos todas as impressões subjetivas e objetivas, tudo isso nos leva, muito eficazmente, a nos sentir pequenos, fracos, indecisos e titubeantes. Porém, o amor – não o amor feurbachiano pelo ser, não o amor moleschottiano pela transformação da matéria, não o amor pelo proletariado, mas o amor pela amada (no caso, o amor por ti) – torna a fazer do homem um homem.
Nada disso o desculpa de ter engravidado Helene Demuth, criada da família. O filho foi assumido por Engels, companheiro de todas as horas, para o bem e para mal.

De qualquer maneira, o que a carta revela é o que Marx imaginava serem as relações afetivas em uma sociedade justa. Aquela em que o amor tornasse cada um mais humano. Sem os obstáculos econômicos, as imposições sociais, os preconceitos. Inclusive, o machismo a que Marx fazia concessões em sua vida pessoal.

Um debate bem atual. Em pleno 2º turno eleitoral, as candidaturas abordam relações amorosas da maneira mais conservadora. Principalmente, as relações homoafetivas.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Jovens: consumo, participação e revolta

Recentemente, foi realizada uma pesquisa por estudantes de Sociologia da PUC-RJ. Trata-se de "Juventude, cultura cívica e cidadania", de Mariana Gago, Michele Ferraz e Julia Ventura. Foram feitas entrevistas em 15 escolas públicas e particulares da Zona Sul, Barra e Tijuca. Entre 2004 e 2008, foram ouvidos mil alunos com idade entre 16 e 18 anos.

Alguns dados merecem atenção. É o caso de uma questão sobre cidadania. Quase 40% dos estudantes das escolas públicas identificaram o exercício da cidadania com a condição de consumidor. Apenas 19% dos entrevistados em escolas particulares responderam o mesmo.

Igualar cidadania a consumo é tudo o que o capitalismo quer. No entanto, a resposta faz sentido. Em geral, as pessoas são valorizadas pelo que têm. Não em relação a como agem e o que defendem como valores, idéias, convicções. Natural que os estudantes mais pobres sintam-se distantes da cidadania na mesma medida em que estão longe do mercado consumidor.

Ao mesmo tempo, há a participação restrita oferecida de cima para baixo. A política eleitoral que nos convoca ao ato solitário e escondido do voto. Esta, torna-se cada vez mais uma gincana publicitária. Mais um dos circuitos em que circulam produtos para consumo.

Tudo isso parece muito ruim. Ainda mais, quando falamos de jovens. Por outro lado, as contradições sociais nem sempre se deixam canalizar apenas pelos caminhos que o sistema de dominação impõe.

O caráter superficial da disputa eleitoral e o acesso restrito ao consumo podem levar a juventude pobre e explorada a descobrir a cidadania que lhe interessa. Aquela da revolta e da contestação coletiva e organizada.

Mais detalhes: http://www.puc-rio.br/pibic/relatorio_resumo2009/relatorio/soc/mariana_b.pdf

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Greve Geral na França

Três milhões e meio de pessoas participaram de mais de 200 manifestações em toda a França, em 12 de outubro. Foi mais uma demonstração da radicalidade da luta dos trabalhadores na Europa.

Os protestos acontecem no quarto dia de greves e manifestações, iniciados em junho. O principal alvo do movimento são as propostas do governo em relação à previdência social. Principalmente, o aumento da idade mínima para aposentadoria de 60 para 62 anos.

Para nós, parece estranho. Afinal, no Brasil, os trabalhadores vêm perdendo direitos previdenciários há uns 20 anos. Aposentar aos 62 anos de idade, já seria um luxo. Mesmo assim, não temos greves gerais há muito tempo.

Será que somos um povo passivo? Covarde? Conformista? Não, mesmo. Até uns 15 anos atrás, éramos exemplo de povo guerreiro. Diretas-Já, Greves Gerais, Fora Collor. Muita gente no mundo nos considerava rebeldes.

A resposta é muito complicada. Pra ajudar a pensar, duas questões importantes.

Primeiro, nosso atual governo nada fez para reverter os ataques contra os direitos dos trabalhadores. Foi eleito com grande apoio da esquerda, mas joga na retranca o tempo todo. É um recuo atrás do outro. A direita deita e rola. No futebol, já seria arriscado. Na política revolucionária, é desastre certo.

Segundo, a França tem uma história diferente da nossa. Lá, eles cortaram cabeças de reis. Construíram enormes organizações de trabalhadores. Enfrentaram o fascismo e duas guerras mundiais. Mas também passaram por governos de esquerda que trabalharam para a direita. Continuam tentando aprender com tudo isso.

É o que temos que fazer. Aprender sempre. Sem parar de lutar, jamais.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O voto conservador dos pobres

A eleição de Marcelo Freixo (PSOL) foi uma enorme vitória para os que lutam contra a violência do Estado nas comunidades pobres do Rio. No entanto, Freixo foi campeão de votos na zona sul carioca. Região dominada pelo eleitorado de classe média.

Já o apresentador Wagner Montes, defende o oposto de tudo o que representa o mandato de Freixo. É favorável às ações violentas da polícia. Em seu programa de TV espalha valores conservadores que beiram o fascismo. Apesar disso, Montes foi bem votado em toda a cidade, principalmente nas comunidades pobres.

Que conclusões tirar desses números? São muitas e complexas. Mas, é importante lembrar o que disse o revolucionário Karl Marx há mais de 150 anos: as idéias dominantes em uma sociedade são as idéias da classe dominante. A defesa da ordem, mesmo que de forma truculenta, é bem aceita até nos lugares que mais sofrem com isso. Se não fossem, já teríamos vivido enormes motins nas principais cidades brasileiras.

Manter elevada a desigualdade social, restringir o acesso da população mais pobre à educação e à informação crítica, distanciá-la de formas coletivas e solidárias de resistência. Tudo isso causa grandes estragos. Por outro lado, não é verdade que a “classe média” só tenha ouvidos para propostas conservadoras.

Os setores mais pobres devem ser o alvo principal de nossa disputa pela hegemonia. Mas a luta de ideias não pode ser refém de preconceitos sociológicos e eleitorais. Recusar prioridade à luta pelo voto é um bom começo. Respostas, mesmo, só com muito trabalho de base e propaganda socialista junto aos explorados nos vários cantos da sociedade.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Cartas ao século 19

Caros concidadãos dos anos 1800, não sei como vim parar no século 21, mas cá estou. Aos poucos enviarei notícias deste momento em que a humanidade conta com conquistas técnicas que o industrialismo de nossa época mal sonhava alcançar. Antes de tudo, algumas curiosidades.

Notei que, diferente da sociedade de nossa época, muitos dos ricos são magros. E despendem muito esforço e dinheiro para sê-lo. Os mais abastados comem pouco em lugares caros. E para manterem sua aparência esquálida também utilizam academias de ginástica. Nestes estabelecimentos gastam boa parte de seu tempo fazendo todo tipo de atividade física. A mais curiosa destas é feita em aparelhos em que o usuário corre sem sair do lugar. São as esteiras. Mecanismos parecidos com as rodas que costumamos colocar nas gaiolas utilizadas por ratos e esquilos de estimação.

Já os menos favorecidos, se alimentam em estabelecimentos que vendem comida barata, mas rica em gordura. Costume nada favorável à saúde. Além disso, gastam grande parte de seu dia em ocupações pouco favoráveis ao dispêndio saudável de energia física. Incluindo horas de deslocamento para suas casas, usando meios de transporte, que, apesar de modernos e velozes, amontoam-se por ruas, avenidas e estradas. Deste mal também sofrem muitos dos ricos. Às vezes, são os mesmos que correram quilômetros nas tais esteiras que levam a lugar nenhum. Acabam permanecendo horas sentados em seus veículos potentes, rastejando a caminho de algum lugar.

Voltarei a dar notícias, em breve. Talvez, sobre o estranho costume que os daqui têm de queimar a pele à luz do sol. Coisa de que todos procuram fugir em nossa época.

Leia também: Cartas ao século 16

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tiririca sem preconceito

Com mais de 1 milhão e 350 mil votos, a eleição de Tiririca é um sinal grave. Mostra como a política está desmoralizada para grande parte do povo. Mas só é grave porque não há alternativa em formação. Não há conselhos e entidades populares, partidos enraizados para que a população possa atuar politicamente a partir de baixo e contra o sistema.

A eleição de Tiririca mostra que reina uma enorme despolitização. Mas muitos dos questionamentos a sua eleição estão contaminados por preconceitos. Estão baseados no fato de ele ser pouco letrado e ser de origem nordestina e pobre. Não é este o problema.

A eleição de Tiririca é o símbolo de um congresso dominado por mercadores. Gente que negocia favores para as empresas que financiaram suas campanhas. O mesmo vale para os governos em seus vários níveis. Uns mais, outros menos, todos se dobram ao que exigem os donos da riqueza.

Muito provavelmente, Tiririca terá uma atuação apagada no Congresso. Como tiveram outros campeões de voto do mesmo tipo, como Enéias e Clodovil. Só vai servir como um sintoma capaz de esconder a doença que é a democracia de fachada em que vivemos.

P.S. (ou P.P.): pelo que diz a grande imprensa, o 2º turno virou uma competição para ver quem se coloca contra o direito ao aborto de forma mais firme. Uma vitória inegável do conservadorismo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Queimadas mostram que não existe capitalismo verde

As queimadas aumentaram 357% desde setembro de 2009. Resultado da pouca chuva, explicam especialistas. O fato é que mais de 95% delas acontecem em áreas já desmatadas. Principalmente, para criação de gado e plantio de soja, cana e outras monoculturas.

Na verdade, faz séculos que os índios usam o fogo para preparar a terra para o cultivo. É um modo de limpar o terreno sem arrancar as raízes das plantas nativas. Depois de plantar e colher, a área é deixada em descanso por anos para que se recupere. É a chamada “coivara”.

Esta técnica faz parte de uma lógica oposta à da exploração capitalista. Os índios não produzem para acumular. Produzem para viver. No capitalismo, a acumulação é o objetivo. É por isso que nossas crises acontecem quando há produção demais, não de menos. E quem sofre toda essa pressão produtiva é a natureza.

A terra não pode descansar por anos porque precisa gerar lucro. No capitalismo, não produzimos alimentos para alimentar, roupas para vestir, casas para morar. Fazemos todas essas coisas para que alguns fiquem com os lucros de sua venda.

Infelizmente, a sabedoria indígena está dando lugar à selvageria capitalista. Pela entrega de milhões de hectares para o agronegócio. Pela inundação e destruição de enormes áreas para construir hidrelétricas que só vão servir às grandes empresas.

Não se trata de adotar as técnicas dos índios, pura e simplesmente. É preciso combiná-las com a capacidade científica que a humanidade alcançou. Mas essa combinação só será possível se abandonarmos a busca pelo lucro. Não existe “capitalismo verde”. O capitalismo é cinzento como as florestas mortas pelas chamas.

Leia também: O comunismo sob ameaça, no Brasil

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Helen Keller: surda, muda, cega, socialista

Helen Keller nasceu em 1880, no Alabama, Estados Unidos. Ficou cega, surda e muda aos dois anos de idade. Mesmo assim, aprendeu a se comunicar, freqüentou a escola e formou-se em filosofia. Escreveu vários livros, recebeu prêmios e medalhas. Costuma ser citada como exemplo bem sucedido da luta contra limitações físicas. O que pouca gente sabe é que ela era socialista.

Em 1913 publicou “Out of the Dark” (Saindo da Escuridão). Era uma série de textos em defesa do socialismo. Foi o bastante para passar a ser alvo de ataques dos conservadores. Um jornal chamado “A Águia do Brooklyn”, de Nova Iorque, costumava tratá-la como heroína. Depois da publicação do livro, passou a dizer que Keller cometia "erros causados pelas limitações em seu desenvolvimento físico." A resposta dela:

Oh, como é ridícula a "Águia do Brooklyn"! Que pássaro deselegante! Socialmente cego e surdo, defende um sistema intolerável. Um sistema que é a causa de grande parte da cegueira e surdez que estamos tentando evitar. (...) Odeio o sistema que ela representa (...). Não é justo usar o argumento de que eu não posso ver nem ouvir. Sou capaz de ler livros socialistas em inglês, alemão e francês. Se o editor do Águia pudesse ler alguns deles, talvez fosse mais sábio. Seu jornal poderia ser melhor. Se eu puder contribuir com o movimento socialista com o livro que sonho escrever, vou dar-lhe o título “A cegueira e a surdez sociais em escala industrial".

Helen Keller morreu em 1968, aos 87 anos. Mais uma combatente a aparecer no livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, de Howard Zinn.

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Cartas ao século 16

Caros irmãos, trago novidades. A primeira delas, estou no século 21. Uma outra, é que vocês estão no século 16. Século é o mesmo que 100 anos. No começo não entendi bem para quê contar o tempo desse modo. Mas logo ficou claro.

A gente aqui, nesta época, faz tudo muito rápido. Ninguém é capaz de ficar muito tempo em paz. Todos estão sempre correndo, fazendo coisas, andando pra lá e pra cá. Horas, dias, meses parecem cada vez mais curtos. Só que não entendi bem a que serve toda essa pressa.

Outra coisa curiosa é que muitos deles trabalham diante de caixas que soltam luzes e mostram imagens. São acionadas através de botões que são apertados com um frenético movimento dos dedos. Passam grande parte do dia nessa atividade.

E quando finalmente vão para suas casas, é para ficar contemplando outras dessas caixas. São maiores e ficam no centro de suas habitações. As famílias cercam os artefatos e passam horas a olhar para eles. Todo tipo de coisa é mostrado neles.

Aparentemente, a maior conseqüência disso é que as pessoas quase não falam umas com as outras. E quando conversam, o assunto é aquilo que foi mostrado nas tais caixas luminosas. Não sei quem opera esses aparelhos, mas devem ser muito poderosos. Será que são divinos? Será que esta é a religião deles por aqui?

Mais tarde, mando outras notícias. Agora, tenho que correr. Não sei pra onde...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A vitória do lulismo está garantida

Se as eleições presidenciais forem definidas este final de semana, ganha o lulismo e ganha Lula. Mesmo se houver segundo turno, qualquer resultado garante a vitória do lulismo. O lulismo vence com Lula ou contra ele.

O lulismo é um mecanismo que foi colocado em movimento com muito sucesso. É produto do carisma e do gênio político de seu criador. Vem do PT, mas ultrapassa o petismo. Tem muitos seguidores entre os trabalhadores em geral, mas sua força está na miséria dos mais pobres. Conquistou os setores populares organizados. Garantiu essa conquista através dos burocratas que dominam a maioria deles. Chegou aos cantos mais abandonados fazendo alianças com caciques regionais de sua principal máquina: o PMDB. O lulismo é o uso da estrutura governamental para manter a paz social que interessa aos de cima.

O lulismo são programas sociais limitados aplicados com eficiência. É a recuperação do salário mínimo, muito abaixo do necessário, ainda que acima do esperado. É a vitória da conciliação de interesses que só podem ser conciliados com a condição de que um lado seja derrotado.

O lulismo é a derrota da reforma agrária e de medidas democráticas radicais. É a manutenção de uma estrutura social injusta. É o convívio pacífico com velhas e novas lideranças da classe dominante. São os lucros inéditos de banqueiros e empresários. É o respeito ao sagrado direito capitalista de explorar gente e destruir a natureza.

O lulismo tornou-se necessário aos ricos e poderosos contra sua vontade. Por isso, querem se livrar dele o quanto antes. Derrotar o lulismo só interessa, mesmo, aos lutadores populares.