sexta-feira, 19 de maio de 2017

No meio da confusão, o jogo a ser jogado é nas ruas

Agora a bola está quicando nas ruas e quem mobilizar mais pode levar, incluindo um pacto político por Diretas Já e ano que vem com Eleições Gerais para uma Revisão Constitucional.

O trecho acima está em “Análise da crise política ao calor do momento”, artigo de Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais, publicado no IHU-Online em 18/05.

Segundo o autor, a crise atual mostra um Judiciário com um grau de autonomia que pode ameaçar muitas liberdades democráticas em nome de um moralismo conservador. Para ele, trata-se de “um aparelho de Estado que tem agenda própria e, por mais justa e legal que seja esta agenda, muitas vezes tem critérios no mínimo duvidosos”.

O sociólogo Jessé Souza, por exemplo, considera que o Judiciário tomou o lugar dos militares no papel de defensor autoritário da ordem. A hipótese é cabível, desde que descartada a ideia de que se trata somente de uma conspiração antipetista. Afinal, o golpe militar não matou e torturou apenas comunistas. Também cassou lideranças conservadoras como Carlos Lacerda. A direita sabe sacrificar alguns dos seus, quando necessário.

Por outro lado, não há nada que impeça uma “parceria” tenebrosa entre altos tribunais e gabinetes militares.

Também é recomendável não menosprezar o dispositivo econômico governamental formado por Banco Central e Fazenda, cujos titulares vêm sendo poupados pelas manchetes, apesar de estarem muito próximos da maior das corrupções, a dos grandes capitais financeiros.

É por tudo isso que, como diz Rocha, a única certeza é que a bola está “quicando” nas ruas. É pra lá que temos que ir.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Momentos nada épicos da tomada do Palácio de Inverno

Relato baseado no livro “The Bolsheviks Come to Power” (“Os Bolcheviques Tomam o Poder”) de Alexander Rabinowitch, ainda sem tradução.

O crepúsculo se aproximava e o Palácio de Inverno ainda não estava nas mãos bolcheviques. Uma série de pequenas dificuldades causaram preocupação na época. “Hoje, parecem quase cômicas”, diz o autor.

Ficou combinado que uma lanterna vermelha seria colocada no topo do mastro da Fortaleza Pedro e Paulo para sinalizar o início da ofensiva final contra o Palácio de Inverno. Mas quando chegou o momento, ninguém conseguia encontrar uma lanterna vermelha. Quando finalmente acharam uma, não conseguiam fixá-la no mastro para que pudesse ser vista.

Ao mesmo tempo, os revolucionários que cercavam o Palácio faziam tudo para “evitar uma sangrenta batalha”. “Nos esforçamos para assegurar que eles se rendessem diante de nosso poderio revolucionário. Por isso, nos recusamos a abrir fogo, dando a nossa arma mais forte, a luta de classes, uma oportunidade de fazer efeito dentro do palácio", relatou um participante.

Nesse clima, houve duas tentativas de convencer os ocupantes do palácio a sair pacificamente. Em vão. Às 18h30, um ultimato: “Devem capitular em vinte minutos”. Nada.

Outro ultimato: “Saiam todos às 19:10h ou abriremos fogo”. Simplesmente ignorado. A resposta dos revolucionários? “Mais dez minutos, nem um minuto a mais”. Nada, novamente.

Enquanto isso, em uma pequena sala no quartel-general dos revolucionários, Lênin andava em círculos “como um leão em sua jaula”. “Precisamos tomar o Palácio de Inverno a qualquer custo", gritava, furioso.

O final da história, todos sabem. Mas, certamente, Lênin só não perdeu mais cabelos naquela noite porque já não os tinha sobrando.

Leia também: A informalidade do Partido Bolchevique

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O racismo amassado entre os dentes

“Eu sei quando maio começa, porque todo mundo quer saber do povo negro”, diz Flávia Oliveira, em sua coluna no Globo de 11/05. “É o mês da abolição e todo mundo quer debater o racismo”, afirma a jornalista antes de enfileirar mais estatísticas demonstrando o cruel racismo brasileiro que grande parte do País teima em não reconhecer.

E estatísticas também são parte importante de um dos espetáculos de Marcelino Freire em cartaz no Sesc Copacabana. Trata-se de “Contos Negreiros do Brasil”, que junto com “Um Sol de Muito Tempo” e “Balé Ralé” formam a ocupação “Palavra Amassada Entre Os Dentes”, que homenageia o escritor pernambucano.

A exposição dos números fica por conta do sociólogo e filósofo Rodrigo França, acompanhada das ótimas interpretações de Li Borges e Milton Filho. A direção é de Fernando Philbert.

“Contos Negreiros do Brasil” é o nome de um livro de Freire. Na introdução da obra, o jornalista Xico Sá afirma que o autor:

...escreve como quem pisa no massapê, chão de barro negro, como a fala preta amassada entre os dentes, no terreiro da sintaxe, dos diminutivos dobrados nas voltas da língua...

As estatísticas pela milésima vez confirmam a violência de todos os tipos que desaba sobre a população preta e não branca há séculos. São dados que muito raramente apresentam alguma melhora. Mesmo assim, não despertam mais que algumas palavras de lamento passageiro, murmuradas por grande mídia e governantes. Exceções como Flávia Oliveira só confirmam a regra.

Por enquanto, toda essa injustiça continua a ser remoída apenas entre os dentes. Até quando, não se sabe.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Como é ser um morcego?

Em meio ao crescente debate sobre inteligência artificial, alguns trechos do livro “Homo Deus”, de Yuval Harari:  

Um dos mais importantes artigos sobre a filosofia da mente intitula-se “Como é ser um morcego?”. Nesse artigo de 1974, o filósofo Thomas Nagel assinala que a mente de um Sapiens não é capaz de conceber o mundo subjetivo de um morcego. Podemos escrever todos os algoritmos que quisermos sobre o corpo do morcego, seus sistemas de ecolocalização e seus neurônios, mas isso não vai nos explicar como é sentir-se um morcego. Como ele se sente ao localizar por intermédio do eco uma mariposa que bate suas asas?

(...)

Um morcego poderia estabelecer a diferença entre uma espécie saborosa de mariposa e uma espécie de mariposa venenosa a partir dos diferentes ecos que retornam de suas asas esguias.

(...)

Assim como o Sapiens não é capaz de compreender como é ser um morcego, temos dificuldade semelhante em compreender o que é se sentir uma baleia, um tigre ou um pelicano.

(...)

Baleias também podem ter experiências musicais espantosas que nem mesmo Bach e Mozart poderiam conceber (...). Mas será que qualquer humano seria capaz de compreender essas experiências musicais e perceber a diferença entre uma baleia Beethoven e uma baleia Justin Bieber?

Nada disso deveria nos surpreender. Sapiens não governam o mundo por terem emoções mais profundas ou experiências musicais mais complexas do que as de outros animais. Podemos ser inferiores a baleias, morcegos, tigres e pelicanos, ao menos em alguns domínios emocionais e empíricos.

Ou seja, não há artifício inteligente que dê conta de nossa vasta ignorância.

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quarta-feira, 10 de maio de 2017

Possíveis intimidades entre o sexo e a morte

Sexo sai caro. Requer laboriosas programações genéticas para a ligação de cantares e danças, para produzir feromonas sexuais, para desenvolver armações heroicas utilizadas apenas para derrotar rivais, para estabelecer peças de engrenagem, movimentos ritmados e um entusiasmo mútuo pelo sexo.

O trecho acima é do livro “Sombras de antepassados esquecidos”, de Carl Sagan e Ann Druyan. Os autores, no entanto, defendem o sexo como um investimento que vale a pena. Não fosse pela reprodução sexuada, seríamos como as paramécias. Este microrganismo unicelular e assexuado tem milhões de anos, mas seus últimos exemplares são idênticos aos primeiros.

“Uma única bactéria reproduzindo-se duas vezes por hora deixará um milhão de gerações sucessivas durante o nosso tempo de vida”. Todas iguais. Portanto, estaríamos falando de espécies que desfrutam de uma certa imortalidade, afirmam os autores.

É verdade que a reprodução sexuada dá trabalho, mas ela “rejuvenesce o DNA, revigora a geração seguinte”. Permite a diversidade e as mutações que dão origem a espécies mais complexas. Além disso, deu origem ao indivíduo, resultado singular da união de outros indivíduos.

Por outro lado:

Há bilhões de anos foi estabelecido um acordo: os prazeres do sexo em troca da perda da imortalidade pessoal. Sexo e morte: não é possível ter o primeiro sem ter a última.

Pois é, se para o poeta o amor é infinito enquanto dure, a ciência, de seu modo nada romântico, também pode chegar a conclusões semelhantes em relação ao sexo. Mas, talvez, seja apenas uma forma bem diferente de abordar o conflito freudiano entre Eros e Thanatos.

Leia também: Sobre generosidade e egoísmo