sexta-feira, 24 de março de 2017

Sobre bodes na sala e outros bichos

Imagine uma casa cheia de gente que não se entende. De repente, um dos ocupantes coloca um bode no meio da sala. Diante do fedor e da falta de espaço causados pelo bicho, todos esquecem suas diferenças.

Esta é a “teoria do bode na sala”, muito utilizada para explicar algumas situações políticas ou sociais. Por exemplo, a reforma da previdência teria feito o papel do bode na sala para que a liberação da terceirização fosse aprovada.

E, quem sabe, os novos bodes venham a ser os problemas causados com a terceirização generalizada, enquanto é aprovado o fim das aposentadorias para quase todos. Logo depois, viria o bode da quebra da estabilidade dos servidores públicos.

Desse modo, bodes e mais bodes continuam a atravancar os cômodos da casa. E sua bosta a se acumular em quartos, sala, cozinha, banheiro...

Mas, talvez, tudo tenha começado com a presença de um outro animal, que chegou antes desses bodes todos. Teria sido trazido pelos membros mais humildes da família. No início, muitos dos moradores mais finos não queriam aceitá-lo. Mas logo viram que, apesar de sua total falta de pedigree, o bicho teria muita utilidade.

O animal saltitava alegremente pela casa, recebendo o cafuné sincero de muitos e o carinho falso de poucos. Enquanto isso, medidas prejudiciais aos interesses da maioria pobre da casa puderam ser preparadas sem chamar a atenção. Quando, finalmente, estava tudo pronto para implementá-las, o simpático animal foi expulso a pontapés.

Foi, então, que chegaram os bodes fedidos. Do lado de fora, ficou o pobre bicho recém escorraçado.

É um sapo. E parece que tem barba.

Leia também: O Caixa 2 de olho no Caixa 1 da Previdência

quinta-feira, 23 de março de 2017

O estupro como arma racista

Tom Feelings
No livro "Mulheres, raça e classe", Angela Davis afirma que, nos Estados Unidos, durante a escravidão mulheres e homens negros sofriam igualmente. Mas elas eram vítimas de abuso sexual e outros maus-tratos bárbaros que só poderiam ser infligidos a mulheres.

Entre os maiores sofrimentos, estavam aqueles relacionados à maternidade. Como eram consideradas "parideiras" e não "mães", seus filhos podiam ser vendidos como bezerros.

Muitas delas foram obrigadas a largar seus bebês no chão enquanto trabalhavam nas plantações. Algumas tentavam trabalhar com seus bebês amarrados às costas. Tudo isso sob sol e chuva.

Escravas grávidas não estavam livres do açoite, caso não cumprissem sua carga diária de tarefas ou apenas se queixassem. Há registros de gestantes obrigadas a se deitar sobre um buraco feito para acomodar suas barrigas, enquanto eram chicoteadas.

Tanto homens como mulheres sofriam flagelações e mutilações, mas elas também eram estupradas.

As constantes violações das mulheres escravizadas muitas vezes levava ao nascimento de crianças, cujo pai era o estuprador branco. No entanto, esses nascimentos eram covardemente atribuídos a uma pretensa tendência à “promiscuidade sexual” das mulheres negras.

O estupro também servia para punir os homens negros, inclusive após o fim da escravidão. Neste caso, ao caracterizá-los como animais viciados em cometer violências sexuais contra mulheres brancas.

Embora estupradores raramente fossem julgados, homens negros eram constantemente condenados por estupro, fossem culpados ou não. Assim, dos 455 homens executados entre 1930 e 1967 por estupro, 405 eram negros.

Esses mitos forjados durante a escravidão continuam a servir de justificativa para perseguir milhões de mulheres e homens negros nos Estados Unidos, aqui e em muitos outros lugares.

Leia também: Mulheres comunistas na história dos Estados Unidos

quarta-feira, 22 de março de 2017

Eleanor Marx no trabalho de base

Os Irmãos Grimm, Shakespeare, Aristóteles, Balzac, Dickens, Goethe, Shelley, Blake, Hegel, Rousseau, Fourier e Darwin. O Talmud em hebraico e holandês, versões da Bíblia em alemão e em inglês. Estes são apenas alguns mestres e obras com que Marx e Engels educaram Eleanor. Sempre em casa, pois as escolas para meninas da época só ensinavam os deveres básicos para futuras “donas do lar”.

Mesmo assim, Eleanor e sua família jamais olharam com arrogância os que não tinham acesso a essa “alta cultura”. Ao contrário. Segundo conta Rachel Holmes em sua biografia sobre Eleanor, quando a Internacional foi fundada, Marx e Engels escreveram:

...formulamos muito claramente a palavra de ordem: a emancipação dos trabalhadores deve ser conquistada pelos próprios trabalhadores. Portanto, não podemos nos associar a pessoas que declaram abertamente que os trabalhadores não são instruídos para se emanciparem e devem ser libertados a partir do alto por grandes e pequenos burgueses filantropos (...), e que devem se colocar sob a liderança dos proprietários “educados", que saberiam o que é bom para eles.

A militância de Eleanor sempre foi coerente com estes princípios. Ela participou da formação do braço sindical das mulheres do setor de gás na Inglaterra. Também ajudou a organizar a luta dos estivadores.

Apesar disso, ela só conseguia participar dos encontros sindicais na condição de intérprete e jornalista. Para o machismo dos sindicalistas da época, falar e escrever em três línguas não a qualificava como trabalhadora.

Mas essas dificuldades jamais a fizeram duvidar de que o socialismo só poderia ser construído por iniciativa da maioria explorada e com a presença decisiva das mulheres.

terça-feira, 21 de março de 2017

A carne que o diabo temperou

Em 20/03, Gustavo Henrique Freire Barbosa publicou o artigo “Friboi, BRF e a ‘ética’ do livre-mercado” no portal “Outras Palavras”. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Barbosa lembrou um trecho de “O Capital”, de Marx, que merece destaque.

Segundo ele, no capítulo sobre a jornada de trabalho, Marx cita um relatório da Câmara dos Comuns britânica abordando irregularidades na produção de pães, segundo o qual “o livre-comércio abrangeria também o direito de comercializar produtos falsificados”.

Diante disso, o revolucionário alemão escreveu:

...o inglês, tão apegado à Bíblia, sabia que o homem, quando não se torna capitalista, proprietário rural ou sinecurista pela Graça Divina, é vocacionado a comer seu pão com o suor de seu rosto, mas ele não sabia que esse homem, em seu pão diário, tinha de comer certa quantidade de suor humano, misturada com supurações de abscessos, teias de aranha, baratas mortas e fermento podre alemão, além de alune, arenito e outros agradáveis ingredientes minerais.

Alimento com tal qualidade bem poderia ser comparado ao popular “pão que o diabo amassou”. Expressão que, aliás, teria origens bíblicas. Como se sabe, foi o Diabo que levou Adão e Eva a experimentar o fruto proibido. Condenado a trabalhar duro para garantir seu sustento, o primeiro casal passou a ingerir um pão que lhes chegava à mesa com tanto esforço que era como se tivesse sido preparado pelo próprio Capeta.

Século e meio depois da publicação de “O Capital” e muito mais tempo desde Adão e Eva, já não temos problemas apenas com pães e o Maligno não tem culpa alguma. Ou será que tem?

segunda-feira, 20 de março de 2017

Nat King Cole e o racismo no país de Trump

Nat King Cole teria completado 98 anos em 17/03, se estivesse vivo. A data foi lembrada por um artigo de João Máximo, no Globo.

Entre outras coisas, Máximo afirma que ele foi “o primeiro negro a estrelar um programa de TV nos Estados Unidos e o maior vendedor de discos da gravadora Capitol, numa época em que Frank Sinatra vivia nela sua melhor fase”.

Em 1948, ele estourou nas paradas com “Nature boy”. Foi o bastante para que o mundo caísse sobre ele. Os moradores brancos de Hancock Park, onde Cole comprara um casarão de três andares, “fizeram pressão para que ele se mudasse”, conta Máximo.

Seu programa de TV foi transferido do horário nobre para a manhã e, um ano depois, suspenso. Os patrocinadores começaram a sumir, pois telespectadores brancos se recusavam a aceitar “um negro cantando coisas de amor para suas mulheres”.

Mas o pior viria em Birmingham, Alabama, em 1956. Ele e sua banda aceitaram se apresentar em sessões separadas. Uma só para negros, outra, para brancos. Nesta última, “cinco membros do Conselho dos Cidadãos Brancos do Alabama subiram ao palco e o espancaram à vista de todos”, diz o artigo.

Um dos maiores sucessos de Cole era “Unforgettable” (Inesquecível). As canções e o talento de Cole realmente jamais devem ser esquecidos. Mas, infelizmente, histórias como a perseguição racista que ele sofreu também não podem sair de nossas memórias. Elas ajudam a entender porque há um Donald Trump governando os Estados Unidos.

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É racismo, puta que o pariu!