quinta-feira, 26 de abril de 2018

Divagações sobre violência e história (final)

No Manifesto Comunista, de 1848, Marx e Engels descrevem uma das características marcantes da classe dominante capitalista:

A burguesia se encontra envolvida em uma batalha constante. No princípio, com a aristocracia; mais tarde, com aquelas frações da própria burguesia, cujos interesses se tornaram antagônicos ao progresso da indústria; o tempo todo, com a burguesia de países estrangeiros. Em todos esses países, ela se vê obrigada a apelar para o operariado, a pedir a sua ajuda, e arrasta-se assim para a arena política. Portanto, a burguesia fornece ao proletário as armas para lutar contra ela...

Em última análise, dizem Marx e Engels, a burguesia produz, acima de tudo, “seus próprios coveiros”.

Ou seja, os processos violentos que ocorrem entre os setores da burguesia devem ser aproveitados pelos de baixo para desorganizar a dominação dos de cima.

Nos anos seguintes, também ficaria claro que isso não significa de modo algum aliar-se a uma fração burguesa contra outra. Ainda que isso possa acontecer em situações muito específicas, como as de libertação de povos colonizados.

Em geral, situações revolucionárias somente se apresentam diante de crises violentas entre frações da classe dominante. Isso quer dizer que os “coveiros” com suas pás devem aguardar pacientemente ao lado das covas? Jamais.

Somente com a intensificação de suas lutas, os explorados e oprimidos podem aproveitar momentos em que há choques internos à burguesia. É preciso acelerar a luta contra os de cima e não freá-la para aguardar um desfecho favorável a setores dominantes supostamente mais progressistas. Isso seria levar a classe trabalhadora a caminhar sozinha rumo à sepultura.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O fio da meada dos juros altos

"Precisamos falar sobre bancos”, diz Lauro Gonzalez, em artigo no Globo, de 24/04/2018. E, realmente, o que não falta é jornalista e especialista falando deles. Principalmente, sobre a persistência dos juros altos apesar da queda da taxa Selic, determinada pelo Banco Central.

Gonzalez e muitos outros comentaristas da grande imprensa apontam como causa principal do problema a concentração bancária. “No Brasil, diz ele, os cinco maiores bancos detêm quase 90% dos empréstimos”.

Seria ela que permite aos bancos cobrarem, por exemplo, juros nas operações de cartão de crédito de quase 400% anuais, contra um índice Selic de 6,5%. Ou seja, uma taxa 61 vezes maior!

Mas há outro fator. Recente levantamento do Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec), vinculado à Fipe-USP, mostrou que do total de recursos captados pelo sistema bancário 72% estão aplicados em títulos do Tesouro Nacional.

Ou seja, em papéis da imensa, imoral e ilegítima dívida pública, que tira, principalmente, dos serviços públicos, quase R$ 2 bilhões por dia. Aí, vender crédito, principal função dos bancos, virou mero detalhe.

Aparentemente, procuram culpar o crédito caro pela paralisia econômica do País. É verdade que os juros altos têm grande responsabilidade nisso. Mas foram os violentos cortes dos investimentos públicos adotados já por Dilma e aprofundados por Temer, que agravaram as consequências da crise mundial que chegou forte por aqui, por volta de 2014.

Somente a enorme concentração bancária nacional não explica o caos econômico atual. Há também a indecente dívida pública, a vergonhosa concentração de riqueza e, na origem da meada, o capitalismo asfixiando ainda mais uma sociedade já profundamente injusta.  

terça-feira, 24 de abril de 2018

A peste branca mata índios há séculos

A Amazônia do começo do século XVI estava cheia de gente, diz Reinaldo José Lopes, no livro “1499: O Brasil antes de Cabral”. Seriam cerca de 8 milhões de pessoas na região, em 1500.

Hoje, não chegam a 900 mil no país todo. Foram dizimados e continuam a sê-lo. Mas, ao contrário do que se costuma dizer, não foi a superioridade militar dos invasores brancos o fator determinante para essa mortandade. Pelo menos, não logo no início.

A tecnologia militar baseada na pólvora não era exatamente uma maravilha naquela época. Os indígenas contavam, por exemplo, com "flechas medindo cerca de 1,60 metro, com pontas que podiam ser de bambu, de dente de tubarão ou mesmo de ferrões de arraia”, capazes de atravessarem um homem e “ir pregar no chão”.

As armas de fogo europeias tinham “principalmente um efeito moral, causando pânico nas fileiras indígenas”. Mas um índio lançaria uma dúzia de setas antes de um português recarregar seu arcabuz.

A causa principal da rápida dizimação desses povos foram “doenças infecciosas trazidas pelos colonizadores, que conseguiram exterminar indígenas com uma eficácia superior a qualquer canhão ou arcabuz europeu”.

Eram, principalmente, sarampo, varíola, rubéola e gripe. E nem era necessário o contato direto com os europeus:

Alguém que nunca tinha visto um branco na vida poderia morrer de sarampo ao entrar em contato com um mercador indígena que visitara uma aldeia por onde jesuítas tinham passado uma semana antes, por exemplo.

Hoje, os índios desenvolveram anticorpos para a maioria daquelas moléstias. Mas continuam a morrer doentes ou da força bruta. Continuamos sendo sua patologia mais letal.


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Martin Luther King e as eleições brasileiras

Em abril, completam-se os 50 anos do assassinato de Martin Luther King. Em seu livro “A Não Violência - Uma história fora do mito”, Domenico Losurdo cita o seguinte discurso desta grande liderança da luta negra:

Marchamos sobre alojamentos do regime segregacionista para que todos os guetos da depressão social e econômica sejam dissolvidos, e negros e brancos possam viver lado a lado em habitações decorosas, seguras e saudáveis.

Marchamos sobre escolas do regime segregacionista para que todo vestígio de instrução segregacionista e inferior se torne coisa do passado, e negros e brancos possam estudar lado a lado num contexto capaz de restaurar na sociedade uma sala de aula.

Marchamos sobre a pobreza para que nenhum pai americano seja obrigado a deixar de comer para alimentar seus filhos. Marchamos sobre a pobreza até que não haja famintos que perambulam pelas ruas das nossas cidades grandes e pequenas, procurando um emprego inexistente.

Marchamos sobre as urnas eleitorais até os algozes racistas desaparecerem da arena política. Marchamos sobre as urnas eleitorais até os Wallace do nosso país se retirarem tremendo em silêncio.

O Wallace citado acima foi um dos principais defensores das leis racistas estadunidenses. No atual cenário político brasileiro, não é difícil imaginar quem seriam os Wallaces a ser combatidos.

Mas a referência ao ato de marchar implica grandes mobilizações sociais. A direita não será derrotada pelo voto. Quem pensa assim, precisa lembrar de uma outra frase famosa de King:

O que mais preocupa não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.

Leia também:

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Depressão, trabalho e tempo

No livro "O Tempo e o Cão - A Atualidade das Depressões", Maria Rita Kehl procura entender como os "transtornos depressivos" se tornaram epidêmicos nas últimas décadas.

Ela acha possível que o "aumento assombroso" dos diagnósticos de depressão esteja ligado ao interesse da indústria farmacêutica em turbinar suas vendas. Mas também "pode indicar que o homem contemporâneo está particularmente sujeito a deprimir-se".

Uma das explicações para essa predisposição estaria relacioanda ao tempo. Por exemplo, na Idade Média:

Havia certa solidariedade entre o tempo do trabalho, comandado pelo percurso do sol, e o restante do tempo social, comandado pela Igreja, cujos sinos indicavam o momento das orações matinais e vespertinas...

Aos poucos, no entanto, os ciclos de produção artesanal passaram a se libertar da alternância das estações. O trabalho do artesão torna-se "mais submisso à ordem que ele mesmo criara do que aos ritmos naturais". O tempo urbano do comércio substituindo o tempo da Igreja.

"O indivíduo moderno também não é senhor de seu tempo", diz Maria Rita. "A diferença é que ele já não sabe disso". O tempo do trabalho invade cada vez mais "a experiência da temporalidade". São as:

...atividades de lazer, marcadas pela compulsão incansável de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência do tempo de lazer tão cansativa e vazia quanto a do tempo da produção.

Desse modo, seria possível que:

Ainda que eles não saibam disso, a inadaptação dos depressivos em relação às formas contemporâneas de aproveitar o tempo pode ser reveladora da memória recalcada de outra temporalidade, própria do "tempo em que o tempo não contava".